Sessão Pop-Up: John Karl, de Moçambique, escreve acerca das relações entre literatura e revolução naquele país.

Ñwinyi wa Muti (Uin.nhi.ê uá Muti) O Dono da Povoação

Those who cannot remember the past are condemned to repeat it.

George Santayana, The Life of Reason, Volume 1, 1905 (Aqueles que são incapazes de se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo"…in A Idade da Razão - poeta / filósofo espanhol Jorge SANTAYANA - 1863/1952)
…"Inkosse foi morto por Gungunhane.
Nós acabaremos ao lado dos vaTsua.
Xian-ao xiNhamazane, meus irmãos;
Choremos pelos kokuanas de inCanda,
Morreram na guerra de Mandjacaze.
Zandamela -  InhauTembe"…

…"(Gungunhane) ?Mataste o Guelane porque era rei e jovem,
Mas não tinha idade pra morrer às tuas mãos!
Oh Desgraça ?- somos vencidos por outros!"…

Estes versos são adaptados de uma canção/dança guerreira vaLengue (chope), da região de Zavala (Canda), dos tempos das guerras do chefe muLengue(chope), xiAvane, resistindo contra a invasão dos guerreiros machangane vaNdao, vindos de Manica, a mando do Inkosse(Rei) dos Inkosse Gungunhane. Nessa dança guerreira lamenta-se a condenação à morte, na fogueira, do jovem chefe muLengue (chope), de nome Guelane, pai de Canda, por ordem do Inkosse muDungaze - o Gungunhane. Estes versos reflectem a impotência do povo vaLengue contra a limpeza étnica que sofriam com a invasão dos guerreiros do mesmo Gungunhane, vindos de Manica. E noutra canção guerreira, vaLengue(chope), chorariam ainda a sua trágica derrota : -
…"Combatemos - mas fomos vencidos.
Ficamos sem as mulheres,
Porque vaTsua (de Gungunhane) as levaram,
Somos uma povoação de solteiros"…

Pois é, interrompemos mais uma vez a temática do Nigerian 419 Fraude na Internet (última edição), devido à actual situação tensa que envolveu escaramuças Renamo / Frelimo(?!), em Inhaminga na Província de Sofala e da polémica a propósito do livro pioneiro de Barnabé NKHOMO sobre o Reverendo Uria Simango, um dos fundadores da FRELIMO. Esse livro é fruto de um trabalho sério e exaustivo de anos. Todavia, vozes insepultas, continuam se manifestando contra os mortos impotentes em se defenderem dos buracos para onde foram lançados e cremados depois de fuzilados em Niassa. Uma dessas vítimas foi Uria Simango. Se por um lado se apregoa transparência, democracia, então chegou a altura de se esclarecer de uma vez por todas se a verdade relativa só é válida vinda de um lado negando a pesquisa histórica isenta até onde for possível. Talvez o Ñwinyi wa Muti (Uin.nhi.ê uá Muti) que em xi-djonga (ronga) quer dizer - O Dono da Povoação (ou será os donos?) que não quer (em) que a história seja revelada? Será o "O Fim da História" da democracia liberal de Moçambique como escreveu Francis Fukuyama em 1989?
As eleições estão previstas para Dezembro e os ânimos já começaram a aquecer mais do que o habitual nestas alturas. Não queriam a Democracia? Ela está aí apesar da análise do Professor Patrick Chabal da Universidade de Londres - King's College, onde é Catedrático de Estudos Africanos Lusófonos: -…"A comunidade internacional é totalmente ambígua. Por um lado, quer eleições democráticas porque isso corresponde à sua ideologia oficial. Por outro, prefere ter que lidar com aqueles que conhece, ou seja, a FRELIMO, em vez de ter de fazer face a um outro governo, que seria uma incógnita total."… Talvez seja por isso, também, que o Presidente da RENAMO - comdt. Afonso Dlakhama, tenha programado um périplo de viagens pela China e pelos Estados Unidos numa tentativa de "charme político". É assim a política. É preciso movimento na hora e direcção certas e convencer potenciais apoiantes diplomáticos, internacionais e de peso, antes das eleições de Dezembro. É uma jornada árdua se realmente se aposta em alguma mudança no nosso panorama político mono / polarizado ou será monopolizado? Mas se acontecer uma mudança espectacular na governação em Moçambique, esperemos que seja pacífica, nas eleições de Dezembro 2004, e que não seja somente mudança cosmética de pessoas de cor, política, diferente. Eventualmente está aí a dúvida da Comunidade Internacional. Como diz o velho ditado - Preferir o "diabo" que se conhece que o desconhecido, mantendo o "status quo".
E como todos nós sabemos (mas esquecemos), ninguém ficará pra semente neste mundo e por tal, fechamos com o Testamento Poético de George SANTAYANA, filósofo espanhol que viveu nos EUA. A tradução é livre e de autoria do cronista do Dialogando.

"The Poet's Testament," (O Testamento do Poeta)
I give back to the earth what the earth gave,
(Dou de volta à terra o que ela me deu)
All to the furrow, nothing to the grave.
(Tudo para as fendas, nada para a sepultura)
The candle's out, the spirit's vigil spent;
(As velas acesas, vigilante o espírito consome)
Sight may not follow where the vision went.
(O olhar talvez não prossiga por onde foi a visão)

John Karl
joaocraveirinha@yahoo.com


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