Sessão Marginália: Régis Bonvicino!

 RB RESOLVE SER POETA



Nas páginas de
La Rosa Profunda
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.

Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
-- naipes marcados do tahur, moeda da plebe --
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.

No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.

Este pó(eta) que sou será invulnerável.

Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.

Viverei de esquecer-me.

Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.
O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.

Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.


A CONCISÃO DE UMA AUSÊNCIA



A concisão de uma ausência
a palavra favila
fogo e cinzas

o olho que dispara
a fração de sol necessária
para traçar uma imagem
na palavra glamífera

o ajuste da forma
com os sentidos invisíveis
da palavra neclause
caos
paisagem necrosada

espirais ancoradas
na obscura orgântula
da palavra canéstrofa:

penso em ti
como em um estigma

Gravura caligráfica de Leon Ferrari acerca do poema "Coxas" de Régis Bonvicino

SOMBRAS

um grito de pânico
corta o sono
e apaga a memória
da cena

( duas mulheres,
uma cerca de pontas,
chão seco,
numa casa de madeira
entre sombras )

Mais poemas de Regis Bonvicino podem ser lidos na página do autor em: http://regis.sites.uol.com.br

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