Sessão Marginália: Tributo à Hilda Hilst!

       Que canto há de cantar o que perdura?
                    A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
                    A vertigem de ser, a asa, o grito.
                    Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
                    O que tu pensas gozo é tão finito
                    E o que pensas amor é muito mais.
                    Como cobrir-te de pássaros e plumas
                    E ao mesmo tempo te dizer adeus
                    Porque imperfeito és carne e perecível
                    E o que eu desejo é luz e imaterial.
                    Que canto há de cantar o indefinível?
                    O toque sem tocar, o olhar sem ver
                    A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
                    Como te amar, sem nunca merecer?

Hilda Hilst em foto de 1954

 
E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

De: Alcoólicas--IV

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO
  Se te pareço noturna e imperfeita
  Olha-me de novo. Porque esta noite
  Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
  E era como se a água
  Desejasse
 
  Escapar de sua casa que é o rio
  E deslizando apenas, nem tocar a margem.
  Te olhei. E há tanto tempo
  Entendo que sou terra. Há tanto tempo
  Espero
  Que o teu corpo de água mais fraterno
  Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
  Olha-me de novo. Com menos altivez.
  E mais atento.

Para saber mais sobre Hilda Hilst visite o site:
http://www.angelfire.com/ri/casadosol/hhilst.html

TOMA-ME
Toma-me. 
A tua boca de linho sobre a minha boca Austera. 
Toma-me AGORA, ANTES 
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes 
Da morte, amor, da minha morte, toma-me              
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute 

Em cadência minha escura agonia. 
Tempo do corpo este tempo. Da fome 
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento, 
Um sol de diamante alimentando o ventre, 
O leite da tua carne, a minha 
Fugidia. 
E sobre nós este tempo futuro urdindo 
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida 
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo. 
Te descobres vivo sob um jogo novo. 
Te ordenas. E eu delinqüescida: amor, amor, 
Antes do muro, antes da terra, devo 
Devo gritar a minha palavra, uma encantada 
Ilharga 
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar 
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo 
                                                                               Imensa
De  púrpura. De prata. De delicadeza. 

POESIA XXII
Não me procures ali
Onde os vivos visitam 
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes
                      águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros

Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro
caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida.
Procura-me ali.
                              Viva.

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