Sessão Revisão: José da Cunha
Cardoso -- poeta do barroco baiano.

José da  Cunha Cardoso foi secretário da Academia Brasílica dos Esquecidos entre 1724 e 1730. Como secretário foi admirado e respeitado pelos demais poetas: "Cunha Cardoso metrificava com desenvoltura e erudição, sendo homem de cultura humanística e firme elegância barroca. É das figuras mais notáveis dos Códices dos Esquecidos, a ostentar, por vezes, pensamento exaltador da ciência contra a opressão." (Péricles Eugênio da Silva Ramos, em: Poesia Barroca, Melhoramentos, 1969, p. 92).

Para efeito de comparação e de ilustração colocamos abaixo a tela "A Família de Dario aos pés de Alexandre" do pintor maneirista italiano Paolo Veronesi. Observemos a cena pintada com o soneto de José da Cunha Cardoso que trata do mesmo tema. Em ambos destaca-se a figura de Alexandre, como o conquistador generoso que dá abrigo  à mulher e as filhas do imperador persa.

Soneto
Ao Sr. Presidente da Academia Brasílica dos Esquecidos, Sebastião da Rocha Pita
Rocha eminente, cuja prosa e metro
Sobre as asas da fama aos astros voa,
Porque a harmonia, que o teu plectro entoa,
Mais mostra ser do Céu, que do Libetro,

É tanta a majestade do teu plectro,
Que reverente o Sol desce em pessoa
A prostrar aos teus pés cetro, e coroa,
Por honrar a coroa, e mais o cetro.

Quando em prosas discretas tanto avultas,
E tanto excedes do Caístro as aves,
Vejo que a Homero, e Cícero sepultas.

Mais ignoro quais sejam mais suaves,
Se em valente eloqüência as prosas cultas,
Se em furor elegante os versos graves.

Soneto
A modéstia de Alexandre Magno quando se lhe houveram de apresentar a mulher, mãe e filhas de Dario vencido.

Esse, a cujo poder o orbe rotundo
É por estreito esfera incompetente,
Hoje a glória alcançou mais excelente,
Hoje o troféu primeiro, e sem segundo.

Esse, em cujo valor não se acha fundo,
Em Dario triunfou de um rei potente;
Mas em si, reportado e continente
Triunfou de quem vence a todo o mundo.

Estas são as conquistas verdadeiras,
Brasões maiores, glórias mais altivas,
Que têm do seu exército as bandeiras.

Publique-se em pregões de eternos vivas
Só é capaz de ter tais prisioneiras
Quem sabe as paixões próprias ter cativas.

Soneto
Uma estátua de Apolo ferida e desfeita por um raio

Da ciência na imagem mais divina,
Do sacro Apolo simulacro augusto,
Emprega as iras com furor injusto
Raio fatal, que Júpiter fulmina.

Acautelado Jove a crer se inclina,
Que saber só lhe pode causar susto;
Pois com razão, e fundamento justo
Sobre os astros o sábio só domina.

Pela origem, que traz do eterno lume,
Com o poder do Deus, que os orbes move,
Só a ciência competir presume.

Por isso sobre a estátua o fogo chove,
Em vingança do susto, e do ciúme
De ir tirar a ciência o cetro a Jove.

Soneto em louvor do Presidente da Academia, o Padre Manuel Serqueyra Leal.

Nos ecos do silêncio retumbante
Sois a pompa do horrísono instrumento,
Do côncavo da Lua o pavimento,
E do Trópico austral a estrela errante.

No calor furibundo e coruscante,
Que é lúbrico da inveja firmamento,
Fostes autor do paradoxo invento,
Raio nos episódios fulminante.

Calcitrante se escrespa, e se aprofunda
Vossa pluma no Letes, excedendo
Ao cultor que de Tróia os campos lavra.

Viste meu Manuel, tal barafunda?
Pois São Pedro me leve, se eu entendo
Disto que aqui vos disse, u'a palavra.

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