Sessão Revisão: Gustavo Teixeira,
o poeta de São Pedro (SP).

Gustavo Teixeira nasceu em 4 de março de 1881 em São Pedro, onde sempre viveu, com exclusão de breve período em que tentou o jornalismo em São Paulo. Conhece-se desse tempo uma fotografia sua, em que figura ao lado de Júlio Prestes, Batista Cepelos, Francisco Lagreca e René Thiollier (no livro deste, Episódios de Minha Vida, São Paulo, Anhambi, 1956, p.15-17). Exerceu as funções de secretário da Câmara Municipal na vaga de Paulo Setúbal, faleceu pouco depois, em 22 de setembro de 1937 (dados de Péricles E. da S. Ramos). Obras: Ementário (1908); Poemas Líricos (1925), Poesias Completas (1959).

Gustavo de Paula Teixeira (1881-1937), paulista de São Pedro, que estreou em 1908, com Ementário, na linha parnasiana; após longo intervalo, em 1925 publica Poemas Líricos, onde as notas simbolistas, já presentes na obra anterior, se avolumam, a par do mesmo gosto pelo verso escultural; ao morrer, deixava copiosa obra inédita, reunida, com as anteiores, em Poesias Completas (1959): nela, revela-se progressivamente inclinado à melancolia e à religiosidade, razão suficiente para seu completo recolhimento, nos últimos anos de vida, na cidade natal, de onde nem sequer saiu para tomar posse de sua cadeira na Academia Paulista de Letras, que o elegera à revelia. (Massaud Moisés, História da Literatura Brasileira: Simbolismo, p. 263)

Trevas

Sobre a Judéia chovem trevas... Uma lua
De mármore, glacial, descobre a face inteira:
-é um palejante círio aceso à cabeceira
desse que tem por veste a névoa que flutua!

A turba, num assombro, ondeia, tumultua.
Em vão os fariseus, na sua atroz cegueira,
Escarnecem: em pouco, insólita e agoureira,
Chega ao Pretório e ao Templo a agitação da rua.

Surgem estrelas com lágrimas brilhando,
balem ovelhas. Cai ao pé da cruz um bando
de andorinhas que voava em círculos por cima.

E a cólera de Deus, que entre os astros assoma,
terrível como quando em pó tornou Sodoma,
faz tremer pedra a pedra os muros de Solima!

Cagnacci, A Morte de Cleópatra.

Cleópatra

Sob o pálio de um céu broslado de cambiantes,
a galera real, de tírias velas têsas,
avança rio a dentro, arfando de riquezas,
cheia de um resplendor de pedras coruscantes.

Sob um dossel de bisso, entre espirais ebriantes
de incenso, a escultural princesa das princesas
cisma... Remos de prata, à flor das correntezas,
deixam móbeis jardins de bolhas trepidantes...

Soluçam harpas d'oiro às mãos de ancilas belas;
Branda aragem enfuna a púrpura das velas
e à tona da água alveja um espumoso friso.

E a Náiade do Egito, ao ver a frota ingente
de Marco Antônio, ri, levando unicamente
contra as lanças de Roma a graça de um sorriso...

O Poder da Oração

"Orai sempre, orai sempre. Ouvi o que vos digo.
Figurai que um de vós dormisse descuidado,
e fosse pela voz de um companheiro antigo
subitamente à meia-noite despertado:

-Empresta-me três pães. Hospedo um velho amigo,
vindo agora, e de pão não tenho um só bocado.
Desculpa-me a horas tais bater ao teu postigo.
Meu hóspede, em jejum, espera, fatigado.

O de dentro por certo assim responderia:
-É muito tarde! Estou deitado. A noite é fria,
e o vento que uiva fora é um látego que corta.

Mas, se o amigo insistisse, embora contrafeito,
para poder dormir em paz, deixando o leito,
munido dos três pães, iria abrir-lhe a porta."

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