Sessão Pop-Up: Torquato Neto,poeta da tropicália!

2 fotos de Torquato Neto, dois momentos de sua vida

NÃO SACUDAM DEMAIS O TORQUATO, QUE ELE PODE ACORDAR!

por Antonio Júnior  Salvador, Bahia, 2003.

Uma voz no telefone anunciou que Torquato Neto havia partido e, ao ouvir isso, seu amigo Haroldo de Campos imaginou que o poeta, em mais um arrebato temperamental comum de sua personalidade, mudara de cidade. Porém não, o que a voz conhecida queria dizer era que Torquato já não estava neste mundo. Que a morte foi ao seu encontro no pequeno apartamento na Mariz e Barros, no bairro carioca da Tijuca em que vivia com a ilheense Ana Maria e o filho Thiago, de três anos. Nesse 10 de novembro de 1972 luzia o sol de tal modo que parecia irreal o confuso bilhete com letras desiguais e frases entrecortadas, rabiscado em três folhas de caderno espiral, deixado pelo falecido: "Tenho saudade como os cariocas do tempo em que eu me sentia e achava que era um guia de cegos. Depois começaram a ver e enquanto me contorcia de dores o cacho de bananas caía. De modo q FICO sossegado por aqui mesmo enquanto dure. Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar". O suicídio, um dia depois de seu aniversário, ao fim de longa série de tentativas malogradas, mesmo assim provocou espanto. Torquato voltou de algumas boates da Zona Sul - numa delas viu a exibição de um filme cinemascópico de Rogério Sganzerla -, e depois que a sua mulher dormiu, trancou-se no banheiro, vedou a janela e as entradas de ar com um lençol e ligou o gás do aquecedor, sendo encontrado morto pela empregada.
      Torquato Pereira de Araújo Neto tinha 28 anos e deixava uma obra pequena e original que se resumia a alguns poemas e 30 letras escritas, para músicas de Edu Lobo (
Pra Dizer Adeus), Jards Macalé (Let´s Play That), Gilberto Gil (Soy Loco Por Ti América), Caetano Veloso (Mamãe Coragem) e Geraldo Vandré. Ele também foi ator de filmes experimentais, crítico de cinema, roteirista, produtor cultural, repórter de uma agência de notícias carioca e às vezes músico. Deixou a recordação de uma sensibilidade latente, uma rebeldia romântica entregue a perdição fatal. Complicado, culto, meigo, provocativo, exaltado e auto-destrutivo, combinava inteligência precisa e poética aguda resultando uma obra singular, mas suas crises de melancolia e insatisfação o faziam eliminar boa parte de sua produção literária. Em 1973, Waly Salomão e a viúva Ana Maria Silva reuniram no livro Os Últimos Dias de Paupéria uma coletânea de artigos publicados ou inéditos, fragmentos do diário sobre a passagem do autor pelo hospício e poesias - escritos todos entre 1968 e 1972. Acompanhava um compacto com quatro músicas e comentários de Décio Pignatari, Hélio Oiticica, Haroldo e Augusto de Campos. Resultado de uma crise espiritual, essa obra importantíssima seria uma espécie de bíblia da chamada poesia marginal dos 70, e mais adiante de nomes como o titã Arnaldo Antunes. Nela, é possível conhecer a desenvoltura, inquietação e luminosidade do pensamento de Torquato Neto.
     Nasceu em 09 de novembro de 1944, em Teresina, capital do Piauí, numa família classe média alta, quase sempre na vizinhança do poder. Filho do promotor público Heli da Rocha Nunes e da professora primária Maria Salomé da Cunha Araújo, temia ser desaprovado pela mãe tirana, dominadora, de nome bíblico. Leu toda a obra de Shakespeare aos 12 anos e dela tirava conceitos, fazia anotações e discutia com os amigos. O escorpiano Torquato era magro, pálido, pés grandes, mãos longas e possuía uma certa sensualidade, algo que nem mesmo os excessos alcoólicos conseguiram apagar. Gostava de cinema, e escrevia compulsivamente, costumando preencher dezenas de cadernos com poemas e reflexões. Ainda muito jovem estudou em Salvador, no mesmo Maristas de Gilberto Gil, de quem se tornou amigo, conhecendo também os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia. A capital baiana fervilhava de talentos, de Othon Bastos a Glauber Rocha, de Mário Cravo a João Augusto, impulsionando um excepcional ambiente de cultura. Anos do
boom das escolas de teatro, música e dança; de clubes de cinema, do Teatro dos Novos, concertos freqüentes e robusta arte contemporânea. Anos que merecem maior notoriedade, mas como sabemos a memória cultural de nosso país é curta.
     Irriquieto, Torquato Neto foi expulso da escola de padres, mudando-se para o Rio de Janeiro em 1963 e dando partida ao desbunde total no meio da efervescência dos festivais de música. Admirava Drummond e Nelson Rodrigues, e costumava segui-los nas ruas, sem se deixar perceber, num prazeroso ritual secreto. Parceiro boêmio de Chico Buarque, viciado na vertigem passional, viveu cinco anos com Ana Maria, uma mulher inteligente e de personalidade forte, mas não desprezava outras experiências sexuais. Trabalhou em jornais, gravadoras, agências de publicidade e como setorista no Aeroporto Santos Dumont. Fez parte do corpo de redatores da revista Cláudia, do Jornal do Brasil e do Estado de São Paulo, escrevendo o roteiro de três shows de sucesso:
Pois É, Maria Bethânia e Ensaio Geral. Participou de performances e produziu espetáculos multimídia. Criou com José Carlos Capinam, entre 1967 e 1968, o roteiro de um programa de tevê, Vida, Paixão e Banana do Tropicalismo. Teve a coluna Pulg, sobre cinema, no Correio da Manhã; outra de música popular no suplemento O Sol, do Jornal dos Sports, e no auge do movimento Tropicália, em 1967, escreveu Tropicalismo para Principiantes, onde entre outras coisas defendia que deveríamos "viver a tropicalidade e o novo universo que ela encerra".
     A
Tropicália renovou a música popular brasileira, numa possível reedição do Movimento Modernista de 1922.  Um reinado utópico de floridos hippies, as Dunas do Barato em Ipanema, Gal Costa como musa e mito sexual, Arembepe, garotas de minissaia, rapazes cabeludos, muita erva e ácido. O designer Rogério Duarte nomeou o espírito dessa época como Apocalipopótese. Nesse cenário de doideira, Torquato passava as noites em claro, andava com um caderno cheio de poemas que um dia possivelmente seria um livro e vestia roupas tradicionais e cafonas, que o transformou em uma figura pitoresca. Uma das suas manias era recolher frases de efeito de pára-choque de caminhão. "Não me siga que não sou novela", por exemplo. Contraditório, era freguês de cachaça e tira-gosto gorduroso nos botecos e de LSD e champagne em momentos sofisticados como no reveillon de Regina Rosenburgo Leclery. Travestiu-se jocosamente na Cinelândia e no local de pegação Cine-Hora para o filme Helô e Dirce, de Luiz Otávio Pimentel, mas terminou na fossa no dia seguinte, dilacerado pela culpa, como sempre acontecia ao libertar certa ambigüidade sexual. (continua)

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