Sessão Marginália: "Quem Sente Somos Nós"

No último 21 de Outubro foi lançado na Livraria Asabeça (Pinheiros, São Paulo) a antologia que conta com a participação de 5 poetas--inclusive o autor deste site-- reproduzimos aqui alguns poemas...

Ofício

Faço poemas
Nomeio flores
Como se fossem
Filhos
Enterro mortos
Como se fossem
Vivos
               
Cláudia Pastore

Pump Jumping

Quando sou eu nua
Escalando as paredes
Do peito
A visão menos
Clara
Turva
Se encaixa
Perfeita
No oco do tempo
No olho do templo
               
Cláudia Pastore

Ensaios de Mim

Sou assim?
Só assim?
Isso tudo?
E nada igual...
Sou o sal?
O tempero que te falta?
Sou a busca, sou a volta
E nem sei se sou assim...
Volto a mim
Em ensaios de encontros
Em sonhos reais
Sinto o tempo
O acaso do acontecimento
Da vida que continua...

Conceição Lopes

Pedidos podem ser feitos diretamente aos autores. Na sessão Pop-Corn tem o e-mail de cada um dos poetas da antologia.

Tempestade e Ímpeto

Mas como o monte exposto à tempestade,
Que se levanta soberbo das ondas,
E sofre o raio, a ventania, o mar
Que espanta, sem que se amedronte nunca,
Deste modo o poeta sublima a fronte
Contra os golpes, e lhes quebranta a fúria;
E fende no intervalo a face fantasma
Do que havia ferido o seu cavalo.

Jayro Luna

Agora

Agora chove
Agora pensa
Agora pode
Agora é noite
Agora é paz
Agora explode
Agora sente
Agora pára
Agora vê
Agora chora
Agora engole
Agora crê
Agora sonha
Agora vive
Agora é
Agora dorme
Agora acorda
Agora em pé
Agora corre
Agora vai
Agora fala
Agora encontra
Agora esconde
Agora cala
Agora escuta
Agora entende
Agora explica
Agora foge
Agora tenta
Agora fica.

Conceição Lopes

Um poema me castiga

um poema me castiga
me instiga
e migra da minha
para sua cabeça..
ao sair me deixa fraca
fez um buraco a faca
na beirada mais fina
do meu coração
para deitar assim
na sua mão
como quem acaba de ser parido
como se o parto
nem tivesse sido
de sangue--tão farto -
e de dor--tão dolorido...

Maria Angélica Souza

Perfil

De pedra
me sinto dura.
De anjo,
sou pura.
De fogo,
inferno.
De noite,
sou escura.
No frio,
inverno.
Na alma
já fui ferida.
No amor,
sou distraída.
De dor,
me desespero.
Da morte,
bebo a vida.
Do querer,
nada mais quero.
Na praia,
sou sereia.
No mar,
sou areia.
No horizonte,
deserto.
Sendo lua,
sou meia.
À distância
estou mais perto.
Maria Angélica Souza

Ode à Beleza Eterna

2 de dezembro de 1996
"Para minha gazela,
Zézinha"1

I
Gazela,
Tens uma graça
Singular
C'apela
Ond'aMaria
hOrar!
II
Ó que desgraça
Qu'eu não possa
Por-t'em Tela
Ou numa Bossa
Praat2 poder
Perpetuar.
III
Basta-me que sejas
Essa brisa
De que minha Vela
Precisa
Pra poder volver
Ao Lar!

Luís Louceiro

1-Zezinha era uma gazela que tivemos em casa no Funhalouro, Moçambique [1962-1964]
2-  'Praat', falar, se expressar [Afrikaans, o idioma dos holandeses na África do Sul

Capa da Antologia organizada por Cláudia Pastore.

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São Paulo, Scortecci, 2003