Sessão Pop-Up: Poetas Invadem a Internet!

Poetas invadem o universo da internet

Centenas de sites hospedam poemas de cerca de 3 mil autores brasileiros. A internet torna-se o refúgio para a poesia eternamente carente de editores

São Paulo - A poesia, carente de editores, refugiou-se na internet. Ainda não há indicadores precisos, mas um dado referente ao ano 2000 permite supor o que está acontecendo hoje: uma das maiores ferramentas brasileiras de busca informa que, naquele ano, mais de 700 sites de poesia já estavam na rede. No momento, cerca de 3 mil poetas brasileiros ocupam o espaço digital.
   A escritora Heloísa Buarque de Hollanda, no mesmo espaço, analisando o fenômeno, comenta que a grande variedade não permite distinguir a natureza dos sites no ambiente imprevisível da web. Ela chama a atenção para o fato de que "não é a poesia canônica que se hospeda preferencialmente neste ambiente".
   Heloísa aponta exceções "como o site de Carlos Drummond, ou os casos adoráveis de algumas raras homepages como a de Manuel Bandeira ou Ferreira Gullar, que à moda do que acontece com os ídolos do show business, são sites feitos e mantidos por admiradores ou fãs". Mas, diz ela, esta não é a regra geral. Sua avaliação é de que a web ajuda poetas que não têm meios disponíveis para divulgar sua obra e apenas buscam um lugar ao sol. Cita a homepage do Grupo Caox, da periferia carioca, e "poetas que se articulam sem ter muito em comum a não ser o desejo de estabelecer um canal para a distribuição do seu trabalho".
   Frederico Barbosa, poeta e professor de literatura, entende que "a internet é o mais democrático meio de divulgação de poesia já criado e talvez seja a saída para que os poetas se libertem de uma indústria editorial muito mais preocupada com os resultados comerciais imediatos do que com a qualidade e, desde sempre, refratária à poesia". Ele teme, porém, que a existência deste grande número de sites possa dificultar a localização de poemas de qualidade. E presta um bom serviço aos jovens internautas, orientando-os na busca das melhores alternativas.
   Em seu próprio site (http://fredb.sites.uol.com.br) Frederico comenta o Jornal de Poesia, o mais amplo de todos, organizado por Soares Feitosa (www.jornaldepoesia.jor.br). Barbosa ordena criteriosamente, por períodos, os poetas brasileiros e portugueses ali encontrados. Faz sugestões para pesquisas relativas ao Classicismo, Barroco, Arcadismo, Romantismo, Realismo, Parnasianismo, Simbolismo, Pré-Modernismo e Pós-Modernismo. Para ele a publicação via internet não diminui as vendas nas livrarias e até pode ajudar a expandi-las. Os seus 5 livros de poesia têm uma tiragem de 6 mil exemplares impressos, enquanto o seu site registra 87 mil visitantes.
   
Sem dinheiro - Houve um tempo em que o jovem Drummond, angustiado, escrevia carta a Mário de Andrade para saber quanto lhe custaria imprimir, por conta própria, um livrinho inaugural. E Mário, tendo bancado a sua própria estréia, respondia: "O livro será pouco vendido, os ataques serão muitos, as casas de revendedores não se amolarão com ele. É um inferno." Também já vai longe, embora mais recente, a fase em que a moçada ia recitar versos no Viaduto do Chá ou vender livros xerocados nos bares de Vila Madalena. Agora, basta clicar o mouse e a sua obra chega, em segundos, aos quatro cantos do Brasil e do mundo.
   Poderoso mecanismo de difusão, a internet não garante convenientemente a propriedade intelectual. A poesia continua sendo um gênero mal pago ou simplesmente miserável. Não vejo outra saída que não seja o subsídio, a co-edição, o apoio do Estado. Eis um ponto para o bom poeta Gilberto Gil meditar em seus retiros espirituais.
   A lista das obras mais vendidas não inclui livros de poemas. Até hoje, nenhum poeta brasileiro viveu do seu ofício. Já tivemos poetas diplomatas, poetas funcionários públicos, poetas professores, poetas comerciantes.
  Conheço mesmo alguns poetas herdeiros e poetas custeados pela família. Em tempo algum, porém, soube da existência de um poeta exclusivamente poeta e capaz de pagar as despesas com o fruto material do seu talento.
   Antigamente, quando as mulheres não trabalhavam, seus pais proibiam noivos que se dissessem apenas possuidores deste dom literário. "Poesia não dá camisa a ninguém" - rugiam, enquanto as moças iam chorar no quarto. Depois elas enxugavam as lágrimas, casavam sem amor, eram infelizes para sempre.
   Mas dispunham, dentro de casa, de maridos endinheirados e provedores. Nos dias que correm, depois da revolução feminina, sei de mulheres que trabalham e sustentam cônjuges poetas. Surgiu a estranha figura do poeta marido, exceção a confirmar a regra de que poesia não dá dinheiro próprio ao seu autor.
   O tom de aparente blague esconde, nestas linhas, uma lamentação. O Brasil seria muito melhor se isentasse os poetas do serviço militar ou de qualquer outro serviço. Eles (ou elas), pelo bem que fazem ao espírito, merecem até mesmo a não taxação previdenciária. Faltou aos legisladores da reforma essa inspiração. Até mesmo os bravos guerreiros da dissidência petista, ocupados com o serviço público oficial, esqueceram este outro serviço público, a poesia, exercido sem a mínima recompensa do governo ou de quem quer que seja.
   Gullar - O "maior poeta vivo do Brasil", título que justificou a presença de Ferreira Gullar entre as estrelas daquele evento literário em Paraty, não vive de poesia. Precisa trabalhar duro como requisitado jornalista autônomo.
   Que país é esse que deixa o seu maior poeta vivo sem tempo suficiente para pensar em poesia? Talvez se possa dizer que a obra dele seria muito maior caso não tivesse que fazer outros serviços.
   Voltemos à internet, por onde começamos. Não sei a qual site de Ferreira Gullar a professora Heloísa Buarque de Hollanda se referiu em suas opiniões.
   O que encontrei e recomendo aos leitores (portalliteral.terra.com.br) é muito bom. Tem 40 poemas ditos por ele mesmo, que os aponta como seus favoritos. Uma antologia, portanto, feita pelo próprio autor - o que é raro.
   Completa-se o site com uma biografia resumida, quatro crônicas, dois contos e dez ensaios.
   Em outro site (www.releituras.com/fgullar_menu.asp) há um longo poema em que Gullar fala do seu ofício. Até aí nada de mais, pois outros já o fizeram, e com muito brilho. Mas este poema, Não-coisa, excede tudo que li. Claro, é apenas a opinião do autor destas notas, que não exerce a crítica literária e deseja somente partilhar com os leitores uma boa colheita na web. Nas 13 quadras o poeta vai pela mesma trilha de Octávio Paz quando afirmou que a poesia é "a outra voz".
   Para que não digam que a poesia de Ferreira Gullar está na internet porque lhe falta espaço em jornal, divido aqui o que me cabe para a reprodução das quadras finais de Não-coisa, versando sobre a missão do poeta:
   "Subverte a sintaxe /implode a fala, ousa /incutir na linguagem /densidade de coisa - sem permitir, porém /que perca a transparência /já que a coisa é fechada /à humana consciência. - O que o poeta faz /mais do que mencioná-la /é torná-la aparência /pura, e iluminá-la. - Toda coisa tem peso: /uma noite em seu centro. /O poema é uma coisa / que não tem nada dentro, - a não ser o ressoar /de uma imprecisa voz /que não quer se apagar / - essa voz somos nós."

Aluízio Falcão (O Estado de S. Paulo, 28/08/2003)

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