Sessão Marginália: Glauco Mattoso



SONETO 341 BOQUIRROTO

Convicto estou que muitos advogados
são inda mais bandidos que o cliente.
Também creio que os réus têm costa quente,
e vendem a sentença os magistrados.

Certeza tenho acerca dos telhados
de vidro sobre a casa dessa gente.
Políticos, do alcaide ao presidente,
são cornos ou, no mínimo, viados.

Ainda que nenhum deles assuma,
passíveis todos são dum tribunal.
Agora o bicho pega e a cobra fuma!

Só julgo porque sei mais que o jornal.
Porém, como não tenho prova alguma,
jamais declararia coisa tal.



SONETO 166 OPORTUNISTA

A paremiologia tem ditados
pra situações contrárias, a calhar.
Pergunta-se: a verdade é peculiar?
Sectária? Relativa? Ou são furados?

Responde-se que os réus são sentenciados
porque cada juiz tem seu olhar.
Segundo alguns, você pode falhar;
Pra outros, inocentes são culpados.

Um diz: "Cada cabeça, uma sentença.";
Diz outro: "...tem cem anos de perdão.";
E um outro diz que "O crime não compensa."...

Assim, também eu tenho meu refrão,
que aplico com poética licença:
"Versão de ocasião faz o ladrão."

SONETO TORRESMISTA


Não basta  a ditadura que já é dura
e vem a ditadura antigordura! 
Resita! Coma! Abaixo a ditadura!
A luta tem um símbolo: FRITURA!

Trabalho, horário, imposto, compromisso.
Orgasmo não se tem como se quer.
Só sobra o bom do garfo e da colher,
e os nazis nariz metem até nisso.

Maldita seja a mídia, sempre a dar
espaço à medicina que reprime!
Gestapo da "saúde" e "bem-estar"!

Saímos do regime militar,
caímos no regime do regime.
Censuram-nos até no paladar!

Glauco Mattoso--um dos principais nomes da chamada poesia marginal dos anos 70 e 80. Autor de publicações marcadas pela originalidade e pela irreverência, como o Jornal Dobrabil.  Sua poesia é marcada pelo erotismo temperado com humor, ironia e uma certa dose de escatologia. Seus últimos livros têm sido baseados na recuperação da técnica do soneto. Seus sonetos--como os que reproduzimos nessa página-- lembram um pouco da poesia barroca de Gregório de Matos, com a diferença que aqui existe o tema da homossexualidade. Indicamos, dentre esses últimos livros, Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos. São Paulo, Edições Ciência do Acidente, 1999. E-mail: terron@uol.com.br

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