Sessão Revisão: Haroldo de Campos,
O Cosmonauta Neobarroco!

Haroldo de Campos (1929-2003). Poeta de excepcional erudição e criatividade. Um dos fundadores do movimento da poesia concreta (Grupo Noigandres). Tradutor de textos poéticos considerados de difícil execução, como os versos de Homero, da Bíblia, de Ezra Pound, de Joyce entre outros. Defensor de um conceito de neobarroquismo que caracterizaria uma atitude estética diante da tarefa de se produzir uma literatura de vanguarda--ou transvanguarda- no Brasil. Numa homenagem a sua riquíssima produção poética, o jornaleco Orfeu Spam apresenta nessa sessão alguns poemas de Haroldo de Campos, buscando dar, ao menos, uma tímida idéia de sua produção. A poesia de Haroldo de Campos foi objeto de dois artigos que publicamos no livro Participação & Forma: Algumas reflexões sobre a função social da Poesia (São Paulo, Epsilon Volantis, 2001): "Poesia e Participação Política: O Caso Concreto de Haroldo de Campos" (p.78-95) e "Crisantempo: A Parafísica dum Tesseract Poético" (p.132-147).

começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em miluminoites milumapáginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas mesmam ensimesmam onde o fim é o começo

Haroldo de Campos, fragmento

já aurorescendo rododáctilas
ao toque puníceo do
agílimo pincel capaz de estrias
de vênulas de tachas
de borrões turbinosos
e moventes

monet septuagenário!
-- plus quam:
octogenário!
sob o amplo chapéu de abas-
-quebra-sol
gigante barbibranco
-- o olho convalescendo
de expulsa nivosa ca-
tarata --
é um que pode
olhar de frente para o sol
e reparti-lo
(como a pupila aquilina
que não se esbranca
ao encarar
a fulva combustão do astro
hélio-fogoso)
e reparti-lo em
canteiros de flores-
cores no seu
jardim (não sus-
penso) de giverny
edêneo onde
passando a ponte de
bambu o mestre
(ele)
joga seu jogo extremo --
bate-se
armado de um punhal --
pincel em prisma --
contra o escuro
a iminência do escuro
a negrescente oclusão da
não-cor
e no transcéu então
inscreve a nova
constelação (entre a ursa
-- a menor e a maior -- ) das
ninféias
08/ag./97

Venezia: Santa Maria Dei Miracoli

im-
possível es-
crever um
poema so-
bre
ve-
ne-
za

um excesso de
beleza
espreme todas as
laranjas túmidas do
verão e
então dessangra
-- explode! --
num vidro laborioso de murano

um excesso de
laguna -- de
azul-céu-laguna --
trava a língua
e o canto
emudece antes
mesmo de
ser canto

um excesso de
veneza dói
como uma farpa
aguda de
sol
no olho a-
lumbrado

como no de
polifemo -- único -- o
dardo a pique (ar-
bóreo) do astuto
ulisses

memorou-
a)

surge
toda-mármore
expondo-se dos
quatro lados -- justa
lapidada
exata em sua
canora ar-
quitetura

: enquanto
o canal murmura
e dentro
no fuste ornado
das colunas de
pietro lombardo
pequenas sereias
como que
(entre pâmpanos)
eretas sobre a
cauda bicurva
jubilam
Veneza/ julho 97

O lance de dados de Monet
com monet
a pintura se transfigura
se transpintura
se ruptura:

cores
esse novelo abissal
de cores onde um
sol pode estar
farfalhando luz
na tônica da

palavra nenúfar
ou declinando a sombra
áureo-satúrnea desse
outro (si mesmo) nome
floral: nelumbo
tudo isso vindo a
ser uma
azul pantera sub-
aquática
cujo rugido emerge
como que enjaulado
na câmara de ecos do
roxo do violeta do
cianuro do
cítreo-blau
mitileno: turquesa tirante a
ônix de tão turva
até ao verdeazul
mais suave aqui
(suave) a
ensafirar-se
ruge a pantera submersa
e o que aflora
é a colméia explosiva
das ninféias
em tênebras noturnas ou


mas é uma
dor gozosa
um êxtase bi-
zantino de
mosaicos rosa
e ouro

(o olho en-
ceguecido dói
de luz
e se a-
lucina)

rara

como uma
jóia num
escrínio de
jóias
santa maria dei
miracoli
(pound re-
viveu-a na
câmara es-
cura da re-
tina
de onde a
luz sai
zumbindo
feito abelha
do alvéolo
da colméia
ouro-am-
barino)

(pound re-

Avançar

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