Sessão Pim-ball

                 

ÁGUA DE TI

   Percorri em silêncio o nosso caminho. Só pensei em ti. Em nós também, mas agridem-me as lembranças de um tempo que há muito deixei de viver. Em nós, pensei menos um bocadinho. Lembrei-me de como as árvores no horizonte se transformavam por magia em guerreiros gigantes, guardiões da passagem mais nobre para os montes distantes, mesmo na fronteira do paraíso, quando ainda brincavamos ali. E afinal o paraíso eras tu, bem o sei agora.
   Escapa-se das minhas mãos a água do riacho, como por entre os dedos fugiu a última madeixa do teu lindo cabelo negro que tive a sorte de acariciar. O cabelo longo que molhavas com alegria, junto à agua que corria. E eu, encostado a uma rocha, olhava para ti e ficava feliz.
   Na boca amarga-me amor o acre da saudade, mastigada com solidão. A água fresca do riacho não me adoça o coração azedo e não mata a sede, a que mais me atormenta, muita sede de ti.
  
Mas bebo muita, bebo toda quanto posso, que quando o teu sorriso se fez beijo, chapinhavamos os dois, a água já aqui corria. Se for a mesma, aquela mesma que te tocava, prometo todos os dias aqui virei, em silêncio pelo caminho, dar à alma a tua boca e à minha boca uma ilusão.
Jorge Gomes da Silva, Junho 2001

VISÃO ALUCINÓGENA

Andarilho das tenras noites de ilusões palpáveis... Qual o teu destino nestas horas de indefinição concreta? Você que tantas noites alimenta a ilusão de "ser" possível já deu-se conta de que tocar não se faz com a palavra secreta? A vida causa estrondo nestas horas de maior devaneio e o louco no seu martírio ou no seu delírio acredita que tudo na vida ¾ visão alucinógena ¾ possa ser luz concreta... Mas esta luz é apenas mancha na escuridão que clareia o sonho enquanto ele puder ser necessário pra quimera da vida fantástica em que vive sem receios e dúvidas o "ser" poeta...
 
(Alexandre Tambelli ®)
PERSIANA

Passam os foliões, passa a vida.../Não os agarra por quê, meu filho?/Acalma-te, mamãe, que o mundo gira/e os homens constroem casas.//

(O poeta, absorto, visualiza a estante,/buscando nela uma vaga/para o seu próprio livro.)
EDMÍLSON SANCHES
CÉZANNE
Jamais quis pintar                                             

porém
na dimensão que nos dá as coisas
repletas de reservas, inesgotáveis:
a do mundo em sua espessura
(não as só palavras em discurso).

Massa sem lacuna:
um organismo de cores.
A vibração das aparências não é o berço das coisas.
Escrevia como pintor
o que não havia sido pintado ainda.

(A criação do que existe é uma tarefa infinita.)
 
                              ARICY CURVELLO
O poema, ao lado, de Aricy Curvello, foi selecionado por professores de Literatura, da Universidade do Oregon/E.U.A., e traduzido por Leslie Bary para o Inglês e o Espanhol, sendo publicado nesses dois idiomas e em Português no jornal literário  “Helicóptero” n.º 3-4, editado pelos professores da área de Línguas Neolatinas daquela Universidade, com data de Março de 2000. Metade da edição desse jornal circulou como encarte (conseguindo cobrir toda a tiragem) de El País, de Madri, o maior diário espanhol, no dia 12 de Março de 2.000.
O HOMEM DO MACHADO
O golpe seco do machado soava em descompasso com as batidas do coração da floresta.

Os pássaros eram despejados de suas alturas e os filhotes se arrebentavam contra o chão. A seiva se confundia com o suor das folhas em pânico.

As árvores, habitantes milenares, perdiam sua estatura e ficavam minúsculas, do mesmo tamanho do homem do machado.
Héctor Pellizzi (Do livro: A Última Caravana)