Sessão Marginália: Donizete Galvão

"Sigo uma estradinha de atalho, já que sou dos poucos poetas que têm imaginário fincado na terra, na pequena cidade, na vida interiorana e no choque com a vida da megalópole. Minhas escolhas estão longe do minimalismo, de uma poesia do olhar, cinematográfica, ou do neoparnasianismo.
Não consigo ter uma idéia clara sobre os rumos de minha poesia. Sei que ela está cada vez mais relacionada às coisas, à paisagem, ao quotidiano; sem perder uma certa visão de ligação delas com o cosmo, com o lado sagrado da existência." Donizete Galvão.
Auto-retrato como boi

Eu boi.
Boi de mim mesmo.
Boi sonso.
Boi de canga.
Boi de carro.
Boi de ônibus.
Boi de arado.
Boi sangrando por ferrão.
Boi de carreto.
Boi em prédio de vidro.
Boi com crachá
e carteira assinada.
Boi comprovado.
Boi indistinto
na boiada da cidade.
Boi tangido.
Boi bernento.
Boi de joelhos
sem um mugido
na escuridão.
No curral da insônia,
rumino palavras pastadas
na ribanceira dos dias.
   (de Ruminações,1999)

Rumor das águas
   "Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer".
Mário de Andrade.

Se o Rumor é também um deus,
nas águas dessas grotas é que ele mora.

Nasce, reverbera e estertora.
Rompe estreitos de rocha. Lambe seixos.
Espumas saltam-lhe dos cantos da boca.

Da fricção das águas, surge uma ópera.
Glossolalia divina. Protomúsica.
Que soava desde o princípio
antes da entrada do homem na paisagem.
        (de Do Silêncio da Pedra, 1996)
Trilhas
Caminho
de vacas,
cascos
cavando
trilhas
na grama.
Traços
de terra
batida,
Balada Soul
De madrugada, as ondas do rádio
quebram-se nos ouvidos de quem não dorme.
Jogam-lhe rosas vinho nos lençóis
e os espinhos espetam-lhe as costas.
Despido do seu terno de amianto,
fica exposta a ferida na cintura.
A nostalgia da balada faz com que ele toque
a costela que já não é dele
e chore a queda e o paraíso perdido.
   (de As faces do rio, 1990)
rentes
aos cupins.
Sintaxe
bovina,
pontuada
por bostas
Dia da caça
Arco e flecha no dorso.
Feito Oxóssi dentro da mata.
Silêncio entre as folhas,
nunca se diz o nome da caça.
Cerre os olhos,
pois Shiva passa:
raio e seta no seu galope.
Restam o susto
e o vento de sua fuga
que balança de leve a ramagem
  (de As faces do rio, 1990)
verde-capim.
(de As faces do rio,1990)
"Donizete Galvão é um jovem poeta nem um pouco deslumbrado com o próprio talento, que ele não faz nenhuma questão de exibir, ao contrário, esconde, por trás das ricas ironias e sutilezas de uma linguagem apurada e concisa." Carlos Felipe Moisés.