Sessão Revisão: Manuel Botelho de Oliveira

Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711)
O primeiro escritor nascido no Brasil a ter um livro publicado. Sua principal obra é a coletânea de poemas Música do Parnaso (1705), em que se destaca o poema "À Ilha Maré". Este poema é um dos primeiros a louvar a terra, descreve com todo o esmero de vocabulário típico dos barrocos os muitos frutos brasileiros, lembrando sempre a inveja que fariam às metrópoles européias. Sua lírica tem vários poemas, principalmente sonetos, dedicados à musa Anarda. Em sua obra, faz uso constante de analogias (campos semânticos) e acentua os contrastes através de antíteses e paradoxos. Para Péricles Eugênio da Silva Ramos: "O poeta, dentro do seu culteranismo, não é de modo algum insignificante; seus defeitos nascem antes da futilidade de seus assuntos do que propriamente do estilo e do modo como os versa." (Antologia Poesia Barroca, Melhoramentos,1967, p.57)

A UM ILUSTRE EDIFÍCIO DE COLUNAS E ARCOS - Soneto XVII
Essa de ilustre máquina beleza,
Que o tempo goza, e contra o tempo atura;
É soberbo primor da arquitetura,
É pródigo milagre da grandeza.

Fadiga da arte foi, que a Natureza
Inveja de seus briuos mal segura;
E cada pedra, que nos arcos dura,
É lingua muda da fatal empresa.

Não teme da fortuna os vários cortes,
Nem do tempo os discursos por errantes,
Arma-se firme contras as leis das sortes.

Que nas colunas e arcos elegantes,
Contra a fortuna tem colunas fortes,
Contra o tempo fabrica arcos triunfantes.

AO ASTROLÁBIO INVENTADO E FABRICADO PELO ENGENHO DO REVERENDO PADRE MESTRE JACOBO ESTANCEL, RELIGIOSO DA COMPANHIA - Soneto VII
Artífice engenhoso da escultura,
Famoso Mestre da cerúlea via,
Que quanto discorreis na Astrologia,
Tudo fácil fazeis na Arquitetura;

Neste astrolábio a famos vos segura,
Que pouco se há mister ver meio o dia,
Que no Zênite está da mor valia,
Quando a ciência luz na mor altura.

Tomais o sol com pensamento leve;
Dédalo sábio o mundo vos aclama,
Quando invento tão raro se vos deve.

E quando vosso nome mais se afama,
Sendo a terra a seus vôos orbe breve,
Tomais o sol por orbe à vossa fama.
Download: Ilha da Maré
Nos dois poemas que aqui apresentamos buscamos demontrar uma característica não muito conhecida de Manuel Botelho de Oliveira que era sua admiração para com a ciência e a arquitetura de seu tempo. Embora por definição, o espírito barroco se comporte de modo ambíguo e, por vezes, contraditório em relação à ciência e à técnica, o fato é que muitos poetas do barroco,
e Botelho aí se inscreve, demonstraram em seus versos uma intenção de cantar a engenhosidade humana como meio não apenas metafórico do próprio engenho poético, mas como crença na capacidade da ciência do homem em desvendar os segredos do mundo e do universo.