ARQUIVOX: Simbolismo brasileiro (poetas esquecidos)

Dario Velozo
No Reino das Sombras
Plenilúnio. O luar molha as colunas dóricas...
Junto ao pronau medito, evocando o teu rosto.
Que saudade de ti, dessa tarde de Agosto,
De tintas outonais e visões alegóricas!

Saudade!... O coração lembra idades históricas...
Na Atlântida eras tu pitonisa... Ao sol posto,
Dizias da alma irmã os arcanos... Teu rosto
Banhava-se na luz das estrelas simbólicas...

Tantas vezes perdida! Imerso em luz ou treva,
De vida em vida, à flor do céu, te procurava,
Na dor da solidão... e, quando a lua eleva

A lâmpada votiva, eu te procuro ainda,
-Alma branca, alma irmã, alma em flor, alma eslava -,
Na poeira de sóis da solitude infinda.

Emiliano Perneta
Vencidos
Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?... Em mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço.
Hão de os grandes rolar dos palácios, infetos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós! Num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! Inquietando as estrelas dormentes!


Pierre Bonnard, Ventana Abierta a Uriage.

Pedro Kilkerry
Cetáceo
Fuma. É cobre o zênite. E, chagosos do flanco,
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada,
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um largo vôo branco.

Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunida a pele atijolada.

Tine em cobre o zênite e o vento arqueja e o oceano
Longo enfroca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.

E na verde ironia caudalosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d'água ou do sol vermelho.

Maranhão Sobrinho
Interlunar
Entre nuvens cruéis de púrpura e gerânio,
Rubro como, de sangue, um hoplita messênio,
O sol, vencido, desce o planalto de urânio
Do ocaso, na mudez de um recolhido essênio...

Veloz como um corcel, voando num mito hircânio,
Tremente, esvai-se a luz no leve oxigênio
De tarde, que me evoca os olhos de Estefânio
Mallarmé, sob a unção da tristeza e do gênio!

O ônix das sombras cresce ao trágico declínio
Do dia que, a lembrar piratas do mar Jônio,
Põe, no ocaso, clarões vermelhos de assassínio...

Vem a noite e, lembrando os Montes do Infortúnio,
Vara o estranho solar da Morte e do Demônio
Com as torres medievais as sombras do Interlúnio...

Ernani Rosas
Lúcifer
No espelho encantado do destino
Mais de uma vez me vi transfigurado:
As horas tinham timbre cristalino
E erravam opalizadas no passado...

Não me fato de olha-las, no mistério
Tênues e loiras como a corda flébil
Do violino outonal do poente aéreo,
Que amortece em lilás num corpo débil...

Não me farto de olhar, erro inconsciente...
O solo é de diamante e o espaço um astro...
Vivem mármores d'alma no poente!

Foge-me a luz e se antecipam as horas,
No lago azul há cisnes de alabastro,
E o espelho em que me vi é tudo auroras!...