Sessão Revisão: Franklin Américo de Meneses Dória

        Franklin Dória nasceu na Bahia, em 1836, formou-se em Direito no Recife (1856). Presidiu as províncias do Piauí, Maranhão e Pernambuco, foi ministro por três vezes, parlamentar e magistrado. Conselheiro, recebeu em 1888 o título de Barão de Loreto e acompanhou a família imperial ao exílio. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 25. Morreu em 1906, no Rio de Janeiro. Como anota Péricles Eugênio da Silva Ramos, o poeta foi dos primeiros a utilizar o verso de 11 sílabas com acentos nas sílabas ímpares, foi também um dos precursores da poesia romântica de caráter social, antecipando-se a Castro Alves. Franklin recebeu influência de Álvares de Azevedo, Longfellow e de Lamennais. Teve fecunda amizade com Junqueira Freire. Seus poemas estão reunidos no livro Enlevos (1859) e fez também a tradução de Evangeline de Longfellow. Fez um Estudo Sobre Junqueira Freire (1868) e foi, talvez, o primeiro romântico a tentar definir as características do Realismo que ainda não havia chegado ao Brasil, em 1878 com sua tese para a cadeira de Retórica intitulada "Realismo e Idealismo" (1878)

SOL NASCENTE (fragmento)
Quão belo é o sol nascente! Olhos abertos,
Penetra os pólos de cristal cobertos,
Devassa nunca vistos areais;
Farol do tempo, leão de áureas crinas,
Diz, topando nos crânios das ruínas:
- Aqui foram impérios colossais! -

Pêndula que se agita no infinito,
Que ouve talvez da eternidade o grito,
Atalaia de todas as ações,
Anelado, redoira na memória
Era feliz, que eternizou a glória,
Sempre amada dos grandes corações.

Quão belo é o sol nascente! Ele afugenta
Do ar a cerração grossa e cinzenta,
D'alma a tristeza e os pensamentos vis:
Aos homens todos ao lavor convida;
E dá força, e vigor, a alento, e vida
Ao que é desgraçado, ao que é feliz.

Ao mendigo, que fina-se, consola
Com a promessa de abundante esmola,
Ou de algum protetor bom, liberal;
Ao pobre manda um raio de ventura;
Ao órfão, desvalida criatura,
Faz sonhar doce afago maternal.

Ele diz ao que é forte: - Hoje clemência!
Ao fraco: - Mais um dia paciência!
Àquele que lamenta-se: - Esperai!
Aos tristes ele diz: - Sede contentes!
Ao meu influxo borbulhai, sementes!
Preciosas idéias, borbulhai!

Ele diz ao poeta: - Alevantai-vos!
Dos grandes pensamentos inspirai-vos!
Ide, correi, correi às multidões!
A fé levai-lhes no queimar dos hinos,
Como outrora os Apóstolos divinos
Levaram graça e luz a mil nações.

Aos lábios todos ele diz: - Sorri-vos!
A toda flor e coração: - Abri-vos!
Lançai perfumes, transbordai de amor!
Para tudo o que nasce e vive e sente
É belo, sempre belo o sol nascente,
Reverberando aos pés do Criador

REALISMO E IDEALISMO (fragmento)

Ora, de todos os princípios estéticos o que, por assim dizer, serve de base à teoria da arte, refere-se ao objeto da arte ou à maneira de concebê-la.
O objeto da arte é assunto sobremodo controvertido; de sorte que desde tempos remotos, a começar de Platão até hoje, não teve ainda solução definitiva.
No meio, porém, das divergências podem assinalar-se duas opiniões principais, a que as outras mais ou menos se prendem. São opiniões exclusivas e opostas. Uma faz consistir a arte na imitação da natureza ou da realidade exterior: é o realismo. A outra contempla a arte com a interpretação da natureza pelos meios mais expressivos, ou como a representação ideal do belo: é o idealismo.

O POVO (excertos)
O povo é como o oceano
Se erguendo livre do chão
Majestoso e soberano
Como a cruz da Redenção (...)

O rei sem povo é paládio
Sem santuário e sem grei:
O povo é o primeiro dono:
O povo é quem molda o trono:
O povo é que faz o rei! (...)
O povo é como uma barca,

Que em alto mar se perdeu,
E sem farol, astro ou marca,
Luta co'o vento, o escarcéu:
Senhor Deus! olhai pra ela,
Não a deixeis, rota a vela,
Sobre as rochas se partir (...)
A idéia que agita o mundo
Afinal sazonará:
Como as colunas pesadas,
Por Sansão desmoronadas,
O patíb'lo cairá.