ORFEU SPAM 19/20

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editora: Epsilon Volantis

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, jul.ago. de 2008/set out. de 2008.

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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SESSÃO REVISÃO: LUÍS DELFINO!

                               Moinho de poemas

                                                                                                  Wilson Martins

Quem era Luiz Delfino? Mero escritor “de ordem terciária”, praticante do levantismo charlatanesco, caracterizando-se pela “imitação sediça palavrosa, inchada, túrbida do estilo de Victor Hugo, levado ao supremo exagero logomáquico, revestindo umas cenas do Oriente […] que ele nem ao menos conhece como erudito, porque sua ignorância filosófica e histórica é profunda.” E mais: “É um escritor sem livros!… Belo chefe, grande general sem batalhas! […]… poeta palavroso, enfático, desigual, obscuro e áspero. Não tem sentimento, não tem idéias, nem originalidade. […] O estilo é bombástico e martelante; é imitador de Victor Hugo deturpadamente. Atordoa os ouvidos e o bom senso […].”

Mas, afinal, quem era Luiz Delfino? Nascido em Santa Catarina, “é, pela variedade e extensão de sua obra, o maior poeta do Brasil. […] Contentamo-nos em afirmar ser ele de todos os nossos poetas, sem dúvida, o de mais imaginação, o de surtos mais possantes, e talvez o de vocabulário mais rico.” À vista de apreciações tão discordantes, cabe perguntar, não qual era o verdadeiro Luiz Delfino, mas, antes, qual o autêntico Sílvio Romero, autor de ambos os julgamentos a poucos anos de intervalo. São fatos que se prendem à pequena história da vida literária, mais que à história da crítica, relacionados com uma conjuntura em que o pobre Luiz Delfino entrou mais ou menos como Pilatos no Credo.

Tendo velhas contas a ajustar com Machado de Assis desde as críticas desfavoráveis aos seus Cantos do fim do século, Romero encontrou o pretexto em 1882: alegando existir a opinião generalizada de que o poeta e o romancista eram então “legítimos representantes do Naturalismo no Brasil”, escreveu o furibundo panfleto de 50 páginas in-12.º que mandou imprimir nas oficinas da Província de S. Paulo (O Naturalismo em liberatura). Composto em estado de desordem colérica, o panfleto só nos interessa neste momento no que se refere a Luiz Delfino: ridicularizando-o por ser médico e rico, analisa-lhe alguns poemas a fim de demonstrar-lhes a obscuridade ou a verbosidade, para concluir: “não passa de um Leconte de Lisle de dois palmos de altura.”

Daí para ser “o maior poeta do Brasil” na geração de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira (que se referiu aos seus “soberbos sonetos”), além de Raimundo Correia, Rodrigo Otávio ou Teófilo Dias a incongruência mais do que evidente derivou de um daqueles rompantes apaixonados e algo esquizofrênicos nele peculiares, explicação lembrada por Lauro Junkes: com o falecimento de Tobias Barreto em 1889, foi apresentado projeto de lei ao Congresso, concedendo à viúva uma pensão de Estado. Aprovado na Câmara, mas encontrando resistência no Senado, Luiz Delfino, então deputado, “pronunciou um dos seus mais inflamados discursos para defendê-lo, elogiando o pensador e jurista Barreto, mas sem referência ao fato de ter sido poeta. Aprovado o projeto, e tendo Sílvio Romero tomando conhecimento da defesa e elogio partidos de Luiz Delfino, alterou radicalmente sua opinião crítica sobre a poesia deste: de poeta medíocre e palavroso, passou a considerá-lo o maior lírico do Brasil” (Luiz Delfino. Poesia completa. I: Sonetos; II: Poemas longos. Org., est. e bibl. por Lauro Junkes. Rev. e atualização lingüística Terezinha Kuhn Junkes. Florianópolis: ACL. 2001).

Pode-se lamentar que esta edição inverta a ordem natural de leitura num poeta cuja biografia literária vai da sensibilidade e das técnicas românticas para o novo código parnasiano. Se o soneto, de fato, foi a forma por assim dizer espontânea e predileta do Parnasianismo, era no poema longo que os românticos se sentiam mais à vontade, o poema de graves harmônicas místicas, sociais, filosóficas, históricas ou políticas. As “idéias novas” passavam para a temática poética, como, por exemplo, o poema “Solemnia verba”, dedicado por Luiz Delfino à Espanha, em 1879, ou, no ano seguinte. “A morte do Legendário – o Marquês de Herval”: “Montado em seu ginete de batalha, / Ele impunha terror mesmo à metralha […].”

Em 1884, refletindo outro clima social, divulgou alguns poemas abolicionistas, como “À arena”, “À Nação’ e “In excelsis”, em que é, talvez, menos dramático e eloqüente do que Castro Alves: “Eu sou a musa nova, a musa da esperança. […] Vem de lá uma voz, que clama: ó mocidade, / Semear a ciência é ter a liberdade”. Contudo, tanto nos poemas longos quanto nos sonetos, ele se entregava à facilidade e ao descuido, como em “Fiat libertas”, inspirado pelo 13 de maio: “Ao ver que não há mais na pátria um só escravo… / Ouço o rumor de um bravo”. No soneto “Tela apagada”, escreve que em agosto do ano anterior havia “mais calor, menos frio”; em outro, refere-se à mulher amada “enfiando uma idéia noutra idéia”; mais grave é o ridículo da expressão infeliz: “E tudo que ela encerra, e nela abunda, / se esconde […]”, encadeamento constrangedor, se jamais houve algum, apesar da vírgula salvadora.

Até a gramática acaba contundida nessa produção desenfreada. Querendo dizer que fugia de uma admiradora, escreve: “vai fugi-la”, incidindo mais uma vez nas regras de regência. Em outro soneto (“O nariz”), deve-se ler que Cellini “pule”, e não “pole”, o marfim novo (verbo polir); da mesma forma, “todos a fogem”, escreve o poeta a respeito da serpente, desejando certamente dizer: “todos lhe fogem”. No impulso do artifício gratuito, ele descreve todas as partes do corpo feminino (quase todas…), numa série sistemática de sonetos: o cabelo, a fronte, os seios, o cotovelo e assim por diante, e mesmo a “unha do dedo mínimo do pé”, terminando numa tragédia de boneca: “Mas esta unha, num dedo escuso, é certo, / Roça-te a carne, um nada, aos pés… desperto / Logo, logo o teu sangue – às armas – grita”.

Recolhida em volumes pelo filho Tomás entre 1926 e 1943, a obra esparsa de Luiz Delfino soma 1.293 poemas, dos quais 1.157 sonetos, num total de 36.987 versos. Grandioso monumento histórico, a edição da Academia Catarinense de Letras é, apesar de tudo, um ato de justiça com relação ao escritor que, chegando a ser votado Príncipe dos Poetas Brasileiros, não pode ser ignorado na história da nossa poesia.

(Fonte: Gazeta do Povo, Paraná, 1.7.2002 em: http://www.revista.agulha.nom.br/wilsonmartins012.html)

 

Eva


Surge Adão: Eva após; Deus os exorta.
Tinham no Paraíso eterno encanto;
Roubam O fruto, que é vedado, e entanto
Deles toda a ventura é logo morta.

A vista deles Deus já não suporta,
E envolve a face irada em rubro manto;
Cai-lhes dos olhos o primeiro pranto:
Rangeu, o Éden fechando, a brônzea porta.

Tinham lá dentro sândalos e nardos;
O anjo de Deus em fogo a espada eleva;
O Sol golpeia-os com seus áureos dardos;

Urram leões em torno, ao pé, na treva.
Eriça-lhes a terra urzes e cardos...
Mas ao seu lado... Adão inda tem

 

 

 

O DEUS DO SILÊNCIO

Não sei por que; porque dizer não ouso:

Seguindo estância e estância o antigo rito,

No templo de Ísis, adorava o Egito

O deus sem voz, o deus misterioso.

 

Milhões d'olhos de um vago olhar aflito

Cobrem-lhe o corpo; e em lânguido repouso,

Guardando um gesto altivo e desdenhoso,

Pousava à boca um dedo de granito.

 

E como um olho só, tudo isso olhava

Do fundo de uma orelha, que o envolvia:

E aos pés vendo a turba imbele e escrava,

 

O mudo olhar inquieto ardia em lava...

Porém... quanto mais via, e mais ouvia,

Menos falava o deus que não falava.

 

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ÍMPETO DE LOBO

Helena estava em frente da janela,
Por onde o vento francamente entrava;
E a morder-lhe o pescoço, levantava
Os fios de ouro dos cabelos dela.

A cabeça inclinada à luz da vela,
Que ora estava serena, ora oscilava,
Escrevia: — a letra miúda escorregava,
Vermiculando o chão branco da tela.

Eu, atrás dela, em sua alcova estreita,
Como quem um qualquer segredo espreita,
Ardia ao fogo atroz de mil desejos...

Agarrar, como quem fizesse um roubo,
A nuca, e como em fome e em sede um lobo
Tragá-la aos poucos, gole a gole, em beijos...
 
AOS VERMES

Tendes também espaço no horizonte,
Vermes, que o eterno sol redoira e anima;
Dou-vos asas, subi: à minha fronte
Que sombra escassa e vã lançais por cima!...

Eu ato, quando quero, o vale ao monte,
O Olimpo ao Céu, e os deuses que a musa intima:
E estrela a estrela amarro, e lanço a ponte,
Em que anda o grupo harmônico da rima.

É um coche de pérola o soneto:
E quando dentro dele os mundos meto,
A estrofe ala-se, e canta, e canta, e o tira.

No caminho saúdam-no as Quimeras:
E ao vê-lo, a um tempo, calam-se as Esferas,
Aos seios de oiro atravessando a lira.
 
A RIMA

Um sussurro de estrofes, que hás ouvido,
Helena, que te acorda, e leva, e embala,
Essa harmonia foi preciso dá-la
Às canções, como o corpo ao teu vestido.

Ele é sem ele um ser emudecido,
Vivo sim! que respira, e que não fala;
Uma flor que perfumes não exala,
Um pé que pisa e passa sem ruído.

É o vento que mexe o bosque inteiro;
É do hálito teu o aflar e o cheiro:
E o som do fogo a arder não é diverso.

A rima, a rima, a sonorosa rima,
Bater de asas de pássaros, que anima,
E dá vida, e rumor, e vôo ao verso...

 

 

O IMPOSSÍVEL

Queres que fale em Deus? — Que contra-senso!...
Que falar pode a pobre criatura?
Há na semente uma árvore futura;
Equilibram-se os sóis no espaço imenso.

Dentro e fora de nós nevoeiro denso:
Sei que a vida é por mim, por ti, que dura;
Há quem o veja e meça-lhe a estatura?
Não o afirmo, nem nego. — Cismo e penso...

Deus não tem atributo algum humano:
Deus é Deus, porque é Deus, Helena amada...
O seu nome em meus lábios não profano.

A nossa inteligência limitada
Não conhece o arquiteto, a obra, o plano;
E o que sabe melhor não sabe nada...
TELA APAGADA

Como isto aqui mudou!... Agosto, o ano passado,
Tinha mais sol, mais luz, mais calor, menos frio;
Mas tudo o mais é o mesmo: a água do mesmo rio,
A ponte de madeira, as mangueiras, ao lado,

Velhas, grandes, em flor, o lanço esburacado
Do muro, e o líquen nele, e a avenca, e o luzidio
Lacrau, que salta, e vira, e já volta ao desvio;
O cão ganindo; e a um canto, à esquerda, ao longe, o prado.

Bambus em renque, em meio o caminho, e no espaço,
Longe do morro, ao fundo, a casa; e no terraço
Sobre o jardim, talhando o ar cintilante, a imagem

De um anjo, — um áureo nimbo à coma, o olhar humano
Como jamais pintou Corrégio ou Ticiano:
Quem, levando-a, apagou a esplêndida paisagem!...

 

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