ORFEU SPAM 19/20

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editora: Epsilon Volantis

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, jul.ago. de 2008/set out. de 2008.

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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Apostilas de Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa

 

Os vagabundos iluminados
A Geração Beatnik e seu desprezo

pela sociedade norte-americana dos anos 50

Em meio à prosperidade econômica dos Estados Unidos da década de 50, e na contracorrente do otimismo delirante da classe média frente às novas possibilidades de conforto pessoal, surge essa que é a primeira manifestação consistente da crise que estava latente na América do pós-guerra. Conhecida posteriormente como Geração Beatnik, sua importância é enorme pelo fato de ser o primeiro movimento de contra-cultura a surgir nos Estados Unidos, com forte impacto histórico e cultural.

4 de novembro de 2007

Após o término da Segunda Guerra Mundial, com o fim da economia de guerra, os Estados Unidos vêem-se diante de uma grave crise econômica, que caso não fosse contornada, levaria o país a uma recessão sem precedentes. A classe operária, então em franco ascenso, realizava greves que chegaram a 5.000 em 1946. O governo, sob grande pressão, aprovou o Ato do Emprego, que garantia o pleno emprego a diversos setores da indústria. A lei se mostrou bem sucedida, superando-se até mesmo os níveis de emprego alcançados durante os anos de guerra. Entretanto, ainda existia um sério problema inflacionário no país, e à medida que os salários desvalorizavam, as greves cresciam cada vez mais. A situação chegou a tal ponto que o governo, considerando que elas haviam se tornado uma ameaça à própria estabilidade do capitalismo norte-americano, reagiu introduzindo uma nova legislação contra a classe operária, que dificultava a realização das greves e usurpava uma parte do poder dos sindicatos. Mesmo assim, a pressão popular garantiu que os salários fossem reajustados proporcionalmente com aumento da inflação. 

A política repressiva do governo à classe operária atingiu seu ápice em 1948, com a intensificação da perseguição política depois da formação de um comitê permanente para investigação de "atividades antiamericanas", que na prática cassou diversos direitos políticos da população trabalhadora e promoveu uma caça às bruxas contra toda atividade política, intelectual e  cultural dentro do país. O clima de histeria repressiva, aliada a aplicação de uma série de medidas econômicas e estímulo do consumo interno, entre elas a introdução dos planos de compras a prazo e financiamentos; contornaram o fantasma da recessão e permitiram um período de expansão da economia que muitos ideólogos capitalistas não acreditavam possível depois da hecatombe econômica promovida pela guerra, e que ficou conhecido um período de ouro da economia norte-americana. Essa repressão às tendências revolucionárias levaram a um refluxo da classe operária, e criou um quadro de relativa calmaria nas mobilizações políticas dentro do país.

A expansão econômica proporcionou uma série de transformações, como a expansão  do mercado imobiliário, que acarretou na suburbanização do país, o surgimento das modernas auto-estradas, as redes de supermercados, a expansão da indústria do turismo, a produção em série de novos eletrodomésticos "linha branca", carros populares, televisões, rádios, diversos bens de consumo que, entre outras coisas, criaram profundas ilusões nas possibilidades de ascensão social entre a classe média. A grande imprensa bombardeava os novos consumidores com os ideais do "american way of life" e a realidade do sonho americano. 

Os interesses de um típico cidadão de classe média norte-americano giravam em torno da aquisição desses bens, e uma ideologia definida pelas suas ambições por melhorias materiais e conforto pessoal.

 O resultado disso foi uma confiança ilimitada na prosperidade do país e o enrijecimento da mentalidade conservadora entre parcelas expressivas da pequena burguesia.

Com a política de caça aos comunistas, disseminou-se também uma desconfiança generalizada com relação aos intelectuais. Ficou popular o termo "egg-head", literalmente, "cabeça de ovo", como linguajar padrão para insultar intelectuais, acadêmicos, homens de idéias, ou qualquer pessoa que demonstrasse um senso mais crítico com a realidade do país. Em outras palavras, era o império da mediocridade que vigorava nessa América dos anos 50.

 

O formalismo crítico do new criticism

Nesse sentido, seria natural que a literatura oficial até então, fosse de um extremado rigor formal, encontrando ecos no academicismo das análises do new criticism, a nova crítica que surgiu nos Estados Unidos durante a década de 1920, mas que se tornou corrente principal apenas entre as décadas de 40 e 60. A nova crítica rejeitava a análise literária a partir de contextos sociais ou culturais, promovendo assim uma visão artificial das obras como objeto "autônomo", completo em si mesmo, desvinculadas do contexto em que foram escritas, além da própria biografia do autor, como se não sofressem influências externas. Um dos principais dogmas da nova crítica era o de desprezar a discussão sobre as intenções do autor perante a obra, ou o significado pretendido por ele. Para eles, as palavras no papel eram tudo o que importava, e a importância dos significados de fora do texto eram considerados irrelevantes. Disseminou-se assim, uma divisão burocrática entre literatura e vida, como se as obras só tivessem valor pelos seus aspectos formais e, conseqüentemente, esses críticos estavam fechados para novos conceitos e novas formas literárias. Os principais defensores e teóricos desse pseudo-modernismo crítico, foram William K. Wimsatt, Monroe Beardsley, William Empson, John Ransom, Robert Warren e Cleanth Brooks. Colocando em prática suas teorias, eles impuseram um obstáculo à dezenas de escritores do período que não apresentassem o padrão formal exigido, e viam suas publicações serem rechaçadas em jornais e revistas literárias, formando uma opinião pública conservadora entre editoras e potenciais leitores.

 Em contrapartida, favorecendo os estilos técnicos mais sofisticados, normalmente um naturalismo convencional, a despeito das qualidades dos escritores como críticos da sociedade, baseavam suas análises puramente nos aspectos formais dos livros. Como conseqüência, ignoravam voluntariamente o fato de que se tratava de toda uma geração que foi testemunha da guerra e expressava em suas obras justamente sua visão desesperada de uma sociedade em colapso e trágica decadência. Era uma vastíssima literatura que expunha o pessimismo e desencanto da parcela mais intelectualizada da população. É importante ressaltar o fato de que, a despeito da prosperidade e do conservadorismo daqueles anos, existiu uma intensa produção literária crítica nos Estados Unidos entre as décadas de 40 e 50, que trouxe à luz nomes importantes como Saul Bellow, John Hersey, James Jones, J. D. Salinger, John Updike, Nelson Algren, Carson McCullers,James Bladwin, Truman Capote, Flanery O´Connor, Norman Mailer, Langston Hughes entre inúmeros outros. Daí, o sentido da nova crítica acabar sendo o de encobrir as mazelas sociais através suas análises puramente formais e estilísticas das obras.

 Entretanto, a tentativa de conter as experiências da época dentro de uma embalagem formal e moral, não iria agüentar muito mais tempo, e os teóricos do new criticism, tiveram que engolir em seco após o fenômeno editorial da publicação de “On The Road”, romance desenvolvido sob um estilo literário que rompia com os padrões acadêmicos em favor de uma escrita mais livre e expressiva. 

O sucesso de vendas de “On The Road” não poderia ser explicado de maneira nenhuma apenas do ponto de vista do estilo, denotando a insuficiência das análises literárias da nova crítica

 

Os “vencidos pela vida”

Tendo vivido uma adolescência difícil durante a depressão nos anos 30, esses jovens, na década de 40, encontravam-se em um momento histórico obscuro, quando a hecatombe da Segunda Guerra, em sua extensão e brutalidade sem paralelos, introduziu o perigo real do extermínio de cidades inteiras num piscar de olhos, após a explosão da primeira bomba atômica. A partir daí, as tensões só se acumularam com o advento do fenômeno da Guerra Fria. Esses fatos combinados provocaram um sentimento crônico de descrença na moral e no progresso da civilização capitalista. À revelia desses fatos, essa geração também foi testemunha do florescimento de uma nova burguesia conformada, submissa e zelosa de seus valores, transbordante de um otimismo que se estruturava tão somente nas novas possibilidades de conforto material que a economia proporcionou.

 Inserido nesse gélido cenário social, os beatniks surgem a partir de uma angústia existencial não muito definida, mas que clamava por novos valores e um estilo de vida mais autêntico, longe a artificialidade dos moldes vigentes. Formavam um grupo de jovens enérgicos e talentosos, que tendo se conhecido no campus da Universidade de Columbia, estenderam sua convivência para dentro dos bares de jazz e apartamentos pobres do subúrbio de Nova Iorque. Posteriormente se entregaram a diversas viagens cruzando o país, sem outro sentido aparente, a não ser o de empreender uma busca por uma nova maneira de ver e entender a vida. As três figuras mais destacadas dessa geração são o veterano da Marinha e ex-esperança do basquete juvenil, Jack Kerouac; o tímido e deslumbrado estudante universitário, Allen Ginsberg; e o enigmático mentor do grupo, William Burroughts. Em torno deles, surgirão uma série de figuras desgarradas como Hubert Huncle, Neal Cassady, David Kammerer, Carl Soloman, Lucien Carr, Gregory Corso, Gary Snyder e Lawrence Ferlinguetti dentre inúmeros outros.

 

“On The Road”: O surgimento de uma nova mentalidade

 O interesse que o romance de Jack Kerouac despertou entre a juventude, só poderia ser explicado do ponto de vista social, como um reflexo da modificação de postura de uma parcela da população perante o convencionalismo extremado e do moralismo quase vitoriano que ainda imperava na sociedade. Diversos setores, especialmente entre a juventude, já manifestavam um forte desprezo pelos ideais insossos do sonho americano, e esse descontentamento encontrará sua expressão mais acabada entre os jovens beatniks. Negando os moldes da vida convencional, os beats se entregam a um estilo de vida que o "american way of life" não poderia comportar, e em sua ânsia por mudanças, promoveram uma ruptura não apenas dentro da literatura, mas também na própria postura de encarar a vida e a maneira de vivê-la. Nesse sentido, On The Road, apresentava uma alternativa ao modo de vida tradicional, e propunha um rompimento com ele, que na visão dos beats, deveria ser feito através da entrega completa a uma vida marginalizada e romântica, que incluía viagens pelo Oeste americano e a busca por uma nova maneira de compreender a vida através de um misticismo não muito definido. Essa nova moral é expressa no romance por uma modificação em termos de conteúdo.

 O herói do livro é Dean Moriarty (personagem inspirado em Neal Cassady), um jovem marginalizado, preso diversas vezes por roubos de carros, bebedeira e vadiagem, que arruma uma série de sub-empregos para sustentar seu estilo de vida boêmio e desgarrado. Moriary é um jovem rebelde e apaixonado pela vida, que ao lado de Sal Paradise (alter ego de Kerouac), embarca em uma série de viagens de carona através da América, sempre em busca da beleza no mundo, exaltando a “pureza” inerente que ele via na população pobre do país.

Essa identificação com figuras marginais se tornaria o eixo central da literatura beat. Kerouac era fascinado pelos vagabundos e andarilhos que atravessavam o país em trens de carga; Ginsberg era atraído por homossexuais, delinqüentes e incompreendidos em geral; Burroughs, por sua vez, vivia entre criminosos e viciados. Na visão dos beats, os párias da sociedade conheciam alguma verdade a respeito da existência que normalmente ficava encoberta pela formalidade dos valores sociais. Eles acreditavam que arrancando essa embalagem civilizada, a verdade viria à tona. Segundo os beats, as pessoas seriam essencialmente puras, “santificadas”, e que acabaram corrompidas pelo trato social, mas poderiam ainda ser salvas e redescobrir a sua natureza original se desfazendo de todos os artifícios da vida civilizada e “bem comportada”, e retornando ao básico. Algo parecido seria feito quase trinta anos depois pelo movimento punk.

 A partir daí, na contracorrente do otimismo, os beatniks desencadearam um dos maiores fenômenos culturais da segunda metade do século, que culminaria com a explosão das movimentações revolucionárias dos anos 60 e 70. Pode-se dizer que foram o primeiro sintoma, manifestado por uma pequena boemia, do descontentamento geral que levaria às mobilizações dos anos posteriores, mas que já estavam latentes no interior da sociedade norte-americana dos anos 50.

Um precursor literário dos escritores beats, certamente é o norte americano Henry Miller, que começou a escrever na década de 30. Desde essa época, sua escrita se caracteriza pela crítica aos valores da pequena burguesia e a abordagem inovadora de temas, como liberalidades sexuais e uso de drogas, com a presença constante de personagens marginais e anti-heróis, ressaltando freqüentemente o aspecto grotesco em suas personalidades. Outra característica em comum nas duas literaturas é o misticismo indefinido e o interesse pelas filosofias orientais. De seus livros, o que estabelece a relação mais clara com a literatura beatnik, é “O Pesadelo com Ar Condicionado” (1945), que narra à exemplo de “On The Road” uma série de viagens feitas pelos Estados Unidos entre 1940 e 1945, cujo eixo central é a crítica aberta ao estilo de vida da classe média, e a partir daí,  sua busca por uma “outra América”. Fica claro seu repúdio pelo moralismo americano pelo fato de suas obras terem permanecido censuradas no país por quase 30 anos, devido ao conteúdo sexual das obras, inclusive seu livro mais importante, “Tropico de Câncer”, que só foi publicado no país em 1961.

Miller, ao contrário dos beats, ao invés de se entregar a uma vida de andarilho viajante nos Estados Unidos, prefere ir mendigar nas ruas de Paris, lugar onde concebe a parte mais significativa de sua obra.

 

Em busca de um “novo olhar”

 

Daí vem a identificação desses jovens com o termo beatnik, cuja origem é confusa. A palavra beat foi utilizada pela primeira vez por Jack Kerouac no livro “On The Road”, como abreviação de beatitude, ou beatífico, remetendo ao estado de espírito que ele e seus companheiros buscavam. Outros, principalmente críticos literários e estudosos, atribuíram o termo à infuência direta do jazz, responsável por diversos termos e gírias surgidos na contra-cultura da época, assim, beat remeteria às batidas aceleradas do bebop. Outra possibilidade seria a conotação de "vencido pela vida", de acordo com gírias como "dead-beat" ou "beat-up". Daí, unindo-se o radical "beat" com o sufixo do satélite russo Sputnick, fora lançado ao espaço em 1957, com uma conotação de movimento,velocidade, surgiu o termo beatnik, que seria usado para designar todos os seguidores do movimento. Também algumas  vezes eram denominados hipsters, termo aplicado às pessoas que viviam à margem da sociedade, em geral delinqüentes juvenis, usuários de drogas e brancos que se relacionavam mais intimamente com a cultura negra. Uma corruptela dessa palavra deu origem ao famoso termo "hippie", para designar os jovens da contra-cultura dos anos 60. No entanto, todas essas variações se relacionam diretamente com o conceito geral do que é na essência a geração beat, e que exprime o desalento e o frenesi de uma vida dissoluta, que procurava através das viagens e da boemia, uma alternativa ao que eles consideravam uma ausência de vida da classe média norte-americana. O termo beat também significaria “perceptivo”, “de olhos abertos”, justamente pela sua busca por uma “nova visão”, que na concepção deles só poderia ser alcançada através de uma vida marginalizada, fora dos esquemas tradicionais.

A fim de exprimir esse “novo olhar”, os beatniks também irão desenvolver uma nova forma de descrever sua maneira de ver o mundo. Essa nova forma teria necessariamente que estar em consonância com o sentido de deslocação e movimento que os animava. Em conseqüência, irão criar uma escrita fluída, frenética e impaciente, tentando apreender numa mesma passagem os diversos universos que os interessavam. Para isso irão buscar influências nas teorias surrealistas de fluxo espontâneo do pensamento, e inspiração nos enérgicos e intermináveis saltos harmônicos dos improvisos do bebop, a corrente mais progressista do jazz da época, representado pelo virtuosismo de personalidades como Charlie Parker, Max Roach, Bud Powell, Dizzy Gillespie e Thellonious Monk. O ritmo de jazz seria, segundo Kerouac, uma prova de esforço da livre associação das palavras “nadando num mar  de inglês sem qualquer outra disciplina à exceção do ritmo ou exaltação retórica e declamação de protesto.”. Daí a designação dos vários estilos literários dos beats, como “prosódia bop”, expressão que foi cunhada por Kerouac, e definida por Gregory Corso como “a utilização de misturas espontâneas, imagens surrealistas, saltos, batidas, compassos, longas e rápidas vogais, versos longo, muito longos, e a alma como principal conteúdo”.

Kerouac e a “prosa bop espontânea”

Essa busca por uma nova forma de dizer as coisas foi incansavelmente perseguida, de maneira metódica e consciente por Jack Kerouac mais do que qualquer outro escritor beat, através de seu experimentalismo literário. Ele rejeitava a literatura mais intelectual vigente, e em busca de uma escrita intensamente emocional, ele vai desenvolver um estilo próprio que desprezava as regras gramaticais tradicionais. Esse estilo se cristalizou de forma mais ou menos acabada em “On The Road”. Seu método literário é explicitado na própria maneira de conceber suas obras. “On The Road” foi escrito em um rolo de papel contínuo, durante 20 dias e noites de transe permanente sob o efeito  de benzedrina durante o mês de abril de 1951. Outro exemplo interessante se refere à criação de seu livro “Os Subterrâneos”, escrito em 3 dias e noites, igualmente sob o efeito de estimulantes. Seu método de criação tinha muito em comum com a maneira de W. B. Yeats escrever sob transe, de Charlie Parker improvisar no seu sax, e de Jackson Pollock executar sua pintura de ação

Ele chegou a teorizar seus métodos de escrita em ensaios como “Essentials of Spontaneous Prose”, de 1956; e “Beliefs & Techniques of Modern Prose”, de 1957. Nesses textos, são recorrentes expressões como “prosódia bop”, “prosa espontânea”, e “forma selvagem”. Em um desses textos ele afirma que escreve “no sentido de um saxofonista tomando fôlego e soprando uma frase em seu sax, até ficar sem ar novamente e, quando isso acontece, sua frase, sua declaração foi feita... É assim que separo minhas frases, como separações respirantes da mente.”

Esse estilo pode ser definido como uma tentativa de veicular a riqueza do seu campo de percepção imediata, no momento em que pensamento se desenvolve, sem qualquer espécie de censura ou elaboração intelectual  prévia, tentando captar a fluidez do pensamento, da maneira mais fiel possível, sem restrições, com todos os desvios e associações que acontecem durante o processo. Kerouac via nisso, o método mais sincero de captar os sentimentos e as experiências por que ele passava, sem recorrer a subterfúgios formais. Um outro romancista beat, John Clellon Holmes, descreve o estilo de Kerouac como “frases longas e intricadas, que se desenrolam a direito através de um denso labirinto de nuvens; frases espantosas, que tinham a obsessão de descrever simultaneamente a migalha do prato, o prato na mesa, a mesa na casa, a casa no mundo, mas que, para ele, ficavam sempre emperradas no engarrafamento da sua própria retórica”

Acreditava que cada pensamento expressava uma verdade sobre a totalidade se sua personalidade, e ele via como artificial a tentativa de corrigir as frases, ou evitar tocar em qualquer assunto que fosse. Uma amputação de algum dado fundamental sobre a essência da pessoa. Era uma busca pelo que ele achava haver de mais sincero na vida, e uma tentativa de cristalizar um determinado momento com toda a expressividade possível.

 Daí também o desprezo dos beats pelo formalismo acadêmico e por obras ficcionais, que consideravam artificiais. Seus romances e poemas eram baseados diretamente e suas experiências pessoais, sem adulterações ou invenções de personagens. Se alguns deles recorriam a imagens surrealistas, seria por que algumas experiências não poderiam de maneira alguma ser apreendidas de forma naturalista. Tudo estaria a serviço da expressividade. É notória a afirmação de Kerouac; “Minha obra constitui um único livro enorme, como a de Proust, só que minhas recordações são escritas na estrada e não depois, num leito de doente.” E acrescenta que todos os seus livros “não passam de capítulos da obra como um todo, que eu denomino ‘A Lenda de Duluoz’”. Durante sua carreira, o estilo sempre experimental de Kerouac apresentou modificações e evoluções na maneira de apresentar sua escrita automática, são igualmente  importantes obras como “Os Subterrâneos” (1958), “O Vagabundos Iluminados” (1958), “Maggie Cassady” (1959), “Tristessa” (1960), “Big Sur” (1962), e aquele que é considerado por muitos, inclusive pelo próprio Kerouac, como sua obra-prima, “Visions of Cody” (1972).

 

A poesia marginal de Ginsberg

 

Outro importante autor beat, é o poeta Allen Ginsberg, que em sua obra, igualmente procurou resgatar a ligação entre a poesia e a vida, afirmando a sua individualidade criadora através de poemas em primeira pessoa e se utilizando de acontecimentos reais como matéria prima. Buscou uma comunicação direta com a expressividade intrínseca à poesia de Rimbaud, Whitman e os românticos.

Um traço da obra de Ginsberg que ainda hoje é desprezada, é a intensa pesquisa sobre a qual ela se estrutura, tornando sua poesia uma legítima herdeira dos experimentalismos vanguardistas da primeira metade do século XX. Estabeleceu uma ligação entre os movimentos europeus de vanguarda, destacadamente o surrealismo, e a literatura modernista norte-americana de Ezra Pound, Gertrude Stein e William Carlos Williams, efetuando assim uma importante atualização da criação literária norte-americana. Ao contrário das descrições de Ginsberg como um representante do  espontaneísmo inculto, mas expressivo da poesia; lendo sua obra é possível encontrar ecos dos mais diversos vanguardismos, como o futurismo de Maiakovski, o cubismo de Apollinaire, o dadaísmo de Schwitters e o surrealismo de Artaud. Incorporou tanbém a influência dos hai-kais orientais, além de Garcia Lorca, Hart Crane, o fluxo de consciência de Joyce, Stein e o objetivismo de Williams.

Sua obra máxima, “O Uivo” se tornou, ao lado de “On The Road”, um emblema da produção literária beatnik. É o mais expressivo manifesto dessa geração, cuja inovação temática de exaltação ao estilo de vida marginal, o uso de drogas e a sexualidade liberal; aliadas às suas inovações formais, demonstram a grande importância do poema. Suas primeiras linhas são ontológicas: “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, /arrastando-se pelas ruas do bairro negro em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, /hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato com o dínamo estrelado da maquinaria da noite/ que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz...”

Seu ritmo veloz e escrita altamente fluída remetem à intensidade das experiências narradas, influenciado diretamente pela “prosódia bop espontânea” de Kerouac. Assim como os demais beats, Ginsberg considerava que o único fermento para a criação era a entrega total a uma vida marginal intensamente vivida e a aceitação das experiências mais miseráveis como “necessárias para o processo de purificação da existência”.  Seu poema chegou a sofrer uma tentativa de censura, e após sua publicação em 1956, seu editor, sofreu um processo por pornografia.

Depois de sua faze heróica durante os ano 40 e 50, Ginsberg ainda participou ativamente das mobilizações dos anos 60 época em que se manteve ainda uma figura popular, freqüentemente presente em eventos hippies declamando seus poemas ao lado de outros poetas beats. Ao lado de Thimoty Leary ajudou a divulgar os “benefícios do LSD”, além de sua participação em uma série de protestos pacifistas contra a Guerra de Vietnã.

 

O experimentalismo de Burroughs

Porém, o mais importante experimentador a geração beat foi William Burroughs, cuja literatura se relaciona mais diretamente aos métodos derivados das colagens cubistas e procedimentos dadaístas e surrealistas. Desenvolveu técnicas como os “cut up” (para recortar) e “fold in”(para dobrar), cuja aplicação era bastante variada. Burroughs recortava algum manuscrito seu já pronto, e dividindo em parágrafos, embaralhava toda seqüência da trama. Outro prodedimento era recortar passagens e frases de diversas fontes diferentes, como versículos da bíblia, reportagens de jornais, comerciais de revistas, passagens de Shakespeare ou diálogos de um filme. A seguir ele  fazia alguns enxertos com essas passagens em seus textos e reescrevia o resultado. Aplicando esses métodos, Burroughs concebeu suas obras mais importantes, como “Almoço nu” (1959), “A máquina mole” (1961), “O bilhete que explodiu” (1962), e “O expresso Nova” (1964). O experimentalismo de Burroughs, porém, não se limita puramente a novos métodos formais, envolvia também uma busca por “novos estados de consciência”, através do uso de diversos entorpecentes. Referia-se a seu vício em heroína, como um “experimento” que ele realizava. Os temas de seus romances, como uso de drogas, o submundo marginal das grandes cidades, violência urbana, experiências homossexuais e a ampliação da consciência através de formas não discursivas causaram grande escândalo na época. Sua intenção, finalmente, era romper com os sistemas dominantes de linguagem, empreendendo uma jornada pelos “espaços infinitos da consciência”, na busca por “uma realidade mais profunda e verdadeira do sentido da existência”. Ele se descreveu certa vez como um “cosmonauta do espaço interior”. Sua concepção mística do universo era  uma estrapolação dos interesses de seus colegas beats pela iluminação religiosa através do zen budismo. Mais velho do que os demais beats, o estilo de Burroughs também pode ser considerado único, e apesar da aparente densidade de sua obra, ele entretanto se considerava um autor satírico. Kerouac se referia a Burroughs como “o maior escritor satírico desde Jonathan Swift”.

Além destes três escritores, participaram dessa geração literária inúmeros outros nomes, cujos mais importantes seriam Gary Snyder, Gregory Corso, Clellon Holmes, Carl Solomon, Lawrence Ferlinghetti, Barbara Guest, Denise Levertov, Frank O’Hara, John Ashbery, Keneth Patchen, entre outros.

Os interesses dos beatniks, que giravam em torno de idéias como a libertação do corpo e da sexualidade, o anti-autoritarismo não só no plano político, mas na vida em todas as suas instâncias, a ampliação da consciência e a busca por novas formas de se viver em sociedade, tudo isso irá encontrar eco já no  início dos anos 60, com a explosão do movimento hippie, que irá exaltar a predominância do  instinto, das experiências efêmeras, o espontaneísmo, o pacifismo e a iluminação mística como projeto de vida ideal. Apesar de todo o romantismo intrínseco a essas idéias, o fato de milhões de jovens em toda a América terem aderido a esse movimento, denotava o estado de esgotamento em que vivia a ideologia burguesa dominante, pela oposição direta que as mobilizações dos anos 60 e 70 representavam, tanto do ponto de vista da organização social, quanto do conjunto de valores alimentados pelo regime capitalista.

 

Fonte: Caderno Cultural: http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=1287

 

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