ORFEU SPAM 19/20

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editora: Epsilon Volantis

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, jul.ago.. de 2008/set out. de 2008.

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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Sessão Marginália: José Agrippino de Paula

 

José Agrippino de Paula (São Paulo,13 de julho de 1937 – Embu, 4 de julho de 2007) foi um escritor brasileiro.

Dentre os livros de sua autoria se destaca PanAmérica (1967), obra fundamental para o desenvolvimento do movimento da Tropicália. Irreverente, o livro apresenta personalidades como Che Guevara, Marilyn Monroe, Cary Grant, John Wayne, Marlon Brando, Cecil B. de Mille, Andy Warhol, entre outros ícones da cultura de massa. Estes personagens participam de uma filmagem de episódios da Bíblia e atuam com uma narrativa na primeira pessoa, em cenas sem uma sequência lógica e com um viés pitoresco ou cinematográfico.

Fonte: Wikipédia

 

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Resumo: Panamérica

A E(pop)éia PanAmérica, de José Agrippino de Paula (Ed. Papapagaio, 2001), que intitulo aqui de romance, talvez seja uma descrição dos mitos do homem moderno, uma odisséia da superfície e do cotidiano. Não há uma referência sequer à cidade de São Paulo, de onde é originário o autor, mas existe uma preocupação de reunir elementos de toda a América. Os europeus aparecem apenas como turistas. PanAmérica rompeu muitas das mediações com a tradição secular da literatura em português, e não por acaso, no seu livro seguinte, United Nations, Agrippino rompeu mesmo a última instância de mediação literária: o português escrito no Brasil, escrevendo uma narrativa toda em inglês. Resta avaliar onde ele chegou com essa ruptura.
O eu que conduz a narrativa é um anônimo que interage com o Olimpo de Roliúde: Marilyn Monroe, Cary Grant, Carlo Ponti e outros. Mas ele rompe totalmente com o naturalismo: "Eu rasguei com a unha a tampa de papel que era a virgindade de Marilyn Monroe e depois introduzi o membro na vagina apertada e úmida" (Agrippino, 2001, p. 62). Agrippino faz uma transfiguração do capitalismo avançado, com os atores de Roliúde servindo de novos mitos. No texto, Marilyn Monroe e Joe Di Maggio são representações mítico-religiosas de seres sobre-humanos. Nesta epopéia onde o eu não quer voltar ao ponto de partida, a origem é um problema (Marilyn dá a luz a um exército de fetos de orelhas pontudas que ataca o narrador) e o final é o apocalipse nuclear.

 

Resumo: Retorno ao Lugar Público

O relançamento do romance Lugar Público, de José Agrippino de Paula (Ed. 2004) pode ser considerado como ainda produto do interesse a respeito da década de 60 e a consagração de manifestações controversas do período, tais como a arte Pop e o tropicalismo. No entanto, permanece ainda um texto de vanguarda.
Menos badalado que seu sucessor PanAmérica, Lugar Público, escrito por um jovem estudante de Arquitetura e prefaciado por Carlos Heitor Cony, jornalista e escritor que despontava para a luta contra a ditadura, apenas tangencia temas políticos. Em meio a uma cena de sexo, o narrador mistura um comentário político: ?O seu país estava sob um regime fascista e os católicos e burgueses festejavam nas ruas jogando papel picado dos prédios? (Agrippino de Paula, 2004, p. 70).
Romance de arquiteto, em Lugar Público não há muita preocupação com a arquitetura do romance. Além disso, o espaço público é o espaço da degradação por excelência do grupo de amigos com nomes históricos ou bíblicos que convive com o narrador: Napoleão, Cícero, Moisés, Bismarck, Goering, Péricles, Isaías, o próprio Papa Pio XII. Um tema recorrente é a homossexualidade, utilizada como elemento que produz choque: o papa Pio XII, em determinado momento, fecha-se num mictório de banheiro com um colega. O texto agrega descrições minuciosas de atos cotidianos como urinar ou escrever com um material onírico que, surgindo em meio à narrativa, impede que ela se dê numa sucessão lógica ou contínua de acontecimentos.
Frustradas as esperanças num projeto coletivo da fase anterior, em que Agrippino entrou na faculdade e Brasília acabava de ser construída, fixado o pessimismo com a humanidade dado o contexto da ditadura militar, restou a sobrecarga de intenções e experimentos com que Agrippino retalha e tortura os espaços e personagens que descreve. O personagem interage com o grupo de amigo

 

 

Trechos de Panamérica

"Eu apontei para o final da praia onde estava situado o rochedo e eu

e ela continuamos caminhando. O Céu azul servia de fundo para o

rochedo e descemos a longa pedra que se introduzia inclinada na

água do mar. A espuma branca explodiu para o alto batendo no

rochedo. Eu mostrei para ela um grupo de pedras escuras e disse

que lembrava o excremento de um animal. Eram pedras escuras e

verdes que se amontoavam umas sobre as outras. A água verde do

mar deslizava sobre as pedras escuras, penetrava nos cantos das

pedras e escorria retornando para o mar. Marilyn Monroe pediu o

maço de cigarros e eu o retirei do calção enquanto ela se estendia

no dorso da pedra. Ela estava com um biquíni minúsculo e ela

expunha a sua pele branca ao sol. Eu via ao longe as grandes

massas de água avançando e batendo na pedra. Eu deitei ao lado

de Marilyn Monroe e perguntei se ela queria que eu passasse o óleo

de bronzear. Ela respondeu com um movimento de cabeça e voltou

a recolocar o cigarro na boca. Eu destampei o vidro e despejei um pouco

de óleo de bronzear na minha mão. Eu esfregava o óleo na barriga

de Marilyn Monroe, nos ombros, no rosto; e depois eu disse para ela

virar de costas. Ela virou lentamente de costas e apoiou o rosto nos

braços." (Panamérica, p. 66)

 

 

 

"Eu passei óleo de bronzear nas costas de Marilyn, e depois deitei ao

seu lado. A minha cabeça estava inclinada e eu via o rochedo como

uma enorme massa de carne imóvel se introduzindo na água do

mar. A espuma branca explodia para o alto e salpicava de pequenas gotas

o dorso imenso de pedra. A água corria entre as pedras e se

distribuía entre os vãos, e escorria fervendo para o mar. A imensa

massa líquida verde continuava enviando lentamente a série de

pesadas ondas que se aproximavam do rochedo. Eu olhava para as

pedras, que pareciam ter uma consistência pastosa e pareciam ter

sido jogadas do alto. Depois o rosto de Marilyn Monroe estava muito

próximo do meu e a pele branca irradiava a luminosidade do sol. Eu

vi muito próximo dos meus olhos o nariz, a boca, os dentes, os

olhos, os pêlos da sobrancelha e os poros. O rosto era recortado

pela luz azul e brilhante do céu. Ela movimentou a boca lentamente

e eu vi os dentes aparecendo, a língua e depois os lábios se

fecharam. Eu sentia a mesma desproporção da natureza, e o rosto

de Marilyn Monroe iluminado pelo azul do céu, e eu via as

dimensões gigantescas da boca, do nariz e dos olhos fechados." (Panamérica, p.67)

 

 

 

"O juiz entregou uma outra bola branca a Di Maggio, enquanto o rebatedor e o pegador de máscara e acolchoado sobre o corpo

tremiam. O ágil atleta repetiu a observação minuciosa da bola branca e realizou a ginástica inicial de movimentar os pés e os

quadris, girou veloz em torno de si mesmo e lançou a bola em ziguezague. A bola partiu como um foguete e o rebatedor fechou os

olhos e colocou o taco na frente do rosto. A bola bateu violentamente no taco, desmaiou o rebatedor, e a bola desapareceu

no céu do estádio de beisebol. A multidão de espectadores se mantinha timidamente em silêncio, mas pouco a pouco alguns riram

e depois toda a multidão estava rindo de Di Maggio. O herói, que se mantinha isolado no centro do campo, permaneceu imóvel alguns

instantes observando a irreverência da multidão, e depois emitiu um olhar de fúria para a multidão, que gradativamente foi silenciando e

se entregando a um pavor que irradiava dos dois olhos de fúria de Di Magio. (...) A multidão se encontrava paralisada nas

arquibancadas e todos pressentiam que iriam ser esquartejados. Di Maggio deu um segundo grito potente e terrível saltando para cima

e agitando a foice. Di Maggio partiu veloz contra a multidão de espectadores, que fugia em pânico. Di Maggio degolou os quarenta

guardas que ocupavam o alambrado com um só movimento de foice, e depois partiu esquartejando os espectadores. Saltavam

cabeças, pernas, braços, corpos para todos os lados e aqueles que não eram esquartejados pela foice eram esmagados pelos pés de Di

Maggio. Di Maggio, depois de ter exterminado todos os espectadores, juízes, fotógrafos, repórteres, cinegrafistas,

vendedores de coca-cola, destruía o estádio a pontapés. (...) O atleta, coberto de suor, sangue e cinza, olhou para Marilyn Monroe,

que se encontrava indefesa no centro do campo entre os destroços do estádio de futebol e entre as cabeças, pernas e braços dos

cadáveres esquartejados. (...) Di Maggio olhou para Marilyn e cresceu o seu falo, suspendendo a calça de Di Maggio. O herói

rancou violentamente a roupa e saltou para fora o seu falo imenso de dois metros de comprimento. Di Maggio correu nu entre os

escombros balançando o seu falo imenso de dois metros de comprimento e abraçou Marilyn. Marilyn soltou um pequeno gemido

e se abandonou nos braços do herói." (Panamérica, p.85-87)

 

 

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