ORFEU SPAM 19/20

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editora: Epsilon Volantis

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, jul.ago.. de 2008/set out. de 2008.

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Sessão  Acadêmica:

 

Agrippino, o profeta da Tropicália

A epopéia pessoal do autor de PanAmérica, o livro fundador do movimento que comemora 40 anos

Ronaldo Bressane

O que acontece quando some um buraco negro? É o que me pergunto em 4 de julho de 2007, aniversário dos EUA - e dia da morte de José Agrippino de Paula e Silva, o autor de PanAmérica. Faria 70 anos em 13 de julho. Desde o início dos anos 80, quando tem diagnosticada sua esquizofrenia, Agrippino é uma espécie de monolito de 2001, a separar a cultura brasileira em antes e depois - sem que ele mesmo jamais explicasse essa divisão. A história pessoal talvez lance alguma luz.
'Meu pai ensinava solfejo para mim. Movimentava as mãos para o lado e dizia alto: um, dois, três, quatro; um, dois, três, quatro.' A presença paterna é poderosa no romance de estréia de Agrippino, Lugar Público. Não no nível psicológico: novidade na época, o romance propõe uma escrita em que os fatos surgem limpos aos olhos do narrador, sem justificativa social, psicológica, metalingüística, simbólica - e não se trata de literatura realista. 'No romance já está presente a voz narradora não-identificada de PanAmérica - Eu, personagem melíflua fundida à multidão -, remetendo à máxima rimbaudiana je suis un autre, eu é um outro', anota o escritor mato-grossense Joca Reiners Terron em seu depoimento na segunda Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em 2005.
O pai de Agrippino, o advogado Oscavo de Paula e Silva, é figura central na família: severo, conservador, positivista. A mãe do escritor é a professora de história Claudemira Vasconcelos. Nascido em São Paulo em 1937 e batizado em homenagem ao tio paterno, Agrippino ganha um irmão sete anos depois, o arquiteto Guilherme Henrique de Paula e Silva, 63. Segundo este, o lar presidido por Oscavo é iluminado pela mãe, que nunca deixa faltarem na casa da Lapa paulistana livros de história, literatura, filosofia, bem como aulas de música.
'Era freqüente conversar sobre literatura russa e francesa', lembra Guilherme. A família vive em harmonia até que o doutor Oscavo morre, em 1957. Um abalo de que os Paula e Silva não se recuperam. Agrippino, que estuda arquitetura na FAU/USP, vai morar no Rio de Janeiro, onde retoma a prancheta na UFRJ até 1964. Neste período carioca, em que jamais trabalha e vive da pensão da mãe (aliás, nunca terá um emprego regular em toda a vida), Agrippino lê dramaturgia, arquitetura e filosofia, atua no teatro amador, freqüenta o cinema, namora intensamente, vive num quarto-e-sala do Leme. E escreve Lugar Público.
Se, entanto, o autor recuse psicologia em sua prosa, é importante notar coincidências entre escrita e vida. 'O seu pai dizia que a ele, o seu filho, faltava qualquer coisa de fundamental, como a falta dos braços.' Antes de a mãe morrer, diz ao filho Guilherme que o pai sempre achava algo 'estranho' em Agrippino. A estranheza do romance causa impacto e logo o paulistano é figura cultuada. Na orelha do livro (Civilização Brasileira), Carlos Heitor Cony, que o compara ao nouveau roman de Alain Robbe-Grillet, não economiza: 'Estamos diante do que de mais moderno existe em matéria de ficção.' Finda a faculdade, Agrippino vem a São Paulo lançar o livro, em 1965. Contata o núcleo que mais tarde ganhará o nome de Tropicália: o escritor Jorge Mautner, o designer Rogério Duarte, os compositores Gilberto Gil e Caetano Veloso. Dirige o primeiro show d'Os Mutantes, O Planeta dos Mutantes. E, principalmente, conhece a futura companheira, a bailarina Maria Esther Stockler.

RITO DO AMOR SELVAGEM

Mulher bela e altiva, olhos verdes, herdeira de família quatrocentona paulista - que irá falir nos anos 80 (o dinheiro vem da célebre casa financeira Haspa), Esther quer montar um espetáculo e Agrippino propõe-se diretor. É o início de uma parceria artística e amorosa que formará o epicentro da cena tropicalista. Em seu Verdade Tropical, Caetano Veloso aponta Agrippino como guru da geração - ao lado do físico Mario Schoenberg e do parceiro Gil, é o nome mais citado na obra. 'Quando falava, todos silenciavam', recorda Jorge Mautner. A grave, doce e lenta voz de Agrippino soa xamânica durante as psicodélicas festas patrocinadas pelo casal - que seriam inesquecíveis não fossem propícias ao esquecimento as muitas substâncias consumidas pelos convivas.
Enquanto bola o espetáculo com Maria Esther, com quem passa a viver na Bela Vista, sempre às expensas da bailarina, Agrippino escreve um dos livros mais citados e menos lidos da literatura brasileira do século 20: PanAmérica (Tridente, 1967). 'Eu sobrevoava com o meu helicóptero os caminhões despejando areia no limite do imenso mar de gelatina verde', abre o romance, todo sedimentado em frases diretas centradas num anônimo Eu. Pela natureza íntegra e radical, o romance impõe-se como óvni na cultura dos 60. O escritor carioca Sérgio Sant'Anna reflete: 'Havia um murmúrio no Rio, em Minas, em São Paulo: 'Tem um cara aí com uma literatura absolutamente inovadora'', diz. 'Ao ler PanAmérica, meu coração começou a bater diante de uma grande revelação, o conhecer de uma literatura cósmica, a partir de uma primeira pessoa pronunciada por um diretor de produções hollywoodianas, filmando nada menos que a Bíblia. Toda a mitologia adolescente surgia como numa tela: James Dean, Marilyn Monroe, John Wayne e os grandes astros, numa linguagem que tirava sua força de uma repetição obsessiva até chegar ao Caos', exalta o autor de Vôo da Madrugada.
A narrativa anti-realista de PanAmérica bebe na pop art norte-americana - mas seu mérito, conforme o próprio Agrippino afirmará a este repórter em 2003, é trazer ao centro da narrativa nacional a urbanidade: 'Não tem muitos escrevendo literatura urbana hoje', dirá, em sua prosa sempre apoiada no tempo presente. 'Só o Mautner, o João Antônio e eu.' O romance, mais imagem que linguagem, mais urdido em mitos midiáticos que em personalidades psicológicas, contaminará toda a literatura experimental brasileira das décadas seguintes - pode ser pressentida nas ficções de André Sant'Anna, de Manoel Carlos Karam e do próprio Terron.
Incensado como gênio tropicalista, Agrippino dirige em 1968 o média Hitler III Mundo, coadjuvado pelo diretor de fotografia Jorge Bodanzky. No filme, o Coisa, um Jô Soares vestido de gueixa e PMs reais atuando como militares (!) caçam Hitler pelas ruas do centro de São Paulo. Em 1969, Agrippino estréia Rito do Amor Selvagem, espetáculo fundado no happening, propõe o conceito de 'mixagem' entre texto, música, cenografia, luz - e platéia. A figura-chave é o ator Stênio Garcia, que contracena com um grupo de dançarinos e uma banda. 'Entre os personagens podiam ou não estar, já que não tinha um texto definido, Marlon Brando, Mussolini, Eva Braun e o Super-Homem', lembra Stênio. 'Se um espectador tinha um sonho ou um insight, o material ia pro palco e o elenco improvisava em cima. Uma bola gigante de plástico caía na platéia... a seqüência das ações era imprevisível.' Sucesso de público no Rio, a peça é montada várias vezes por dia até ser censurada - e o casal volta a São Paulo, indo morar numa casa no Pacaembu.
Palco de festas psicodélicas - 'é como se o irracionalismo do Rito tivesse virado realidade', observa Guilherme -, a casa recebe seguidas batidas da polícia. Vivem ali Agrippino, Maria Esther e a amiga Maria do Rosário, pivô de brigas no casal. Certa vez, Agrippino recebe voz de prisão: sua foto algemado estampa a primeira página da Última Hora (Guilherme esconderá o jornal para que a mãe não veja o filho preso). Assustado, o casal foge para a África. Passam por lugarejos em Mali, Senegal, Marrocos, onde realizam em super-8 filmes oníricos, baseados em coreografias de Maria Esther. O casal se separa: Agrippino vai a Londres (onde perde uma mala cheia de escritos, um deles um romance), Nova York (onde experimenta pela primeira vez a mescalina, 'mais forte que ácido', conforme contará a este repórter), depois gira pela Europa.
No retorno ao Brasil, Agrippino, reconciliado com Maria Esther, vai viver na Bahia. Da África, o escritor traz a indumentária com que fixará sua imagem até o fim: um parangolé beatnik, jaqueta jeans recosturada que usa como fraldão em torno do corpo. Agrippino descobre-se pai - a amiga Maria do Rosário dera à luz Chara do Rosário (o nome é referência ao charo de maconha), hoje única herdeira do autor. E em seguida, Maria Esther descobre-se grávida - imagens de sua barriga boiando no mar podem ser vistas no curta Céu sobre a Água, de 1972. Em 1973, o casal recebe a vinda de Manhã, que nasce na Boca do Rio, próxima à ilha de Itaparica.
Nessa época conhece a crítica literária baiana Evelina Hoisel, autora de um solitário estudo sobre Agrippino, Supercaos: 'Ele parecia um gigante mítico, um profeta bíblico. Gostava de andar de branco e ficava muito bonito com as túnicas indianas que vestia, sua figura se avolumava naquele contraste do corpo queimado de sol com as vestes brancas, a cabeleira cheia. Chegava em minha casa vindo de Itaparica ou de Arembepe, com Esther ou sozinho, comia alguma coisa, sentava no chão ou na rede, ficava quieto, ouvíamos música, e logo começava a falar, horas seguidas...', lembra. 'Não era fácil acompanhar a lógica da sua narrativa oral, o fluxo da sua conversa era como a narrativa de PanAmérica: um jorro incessante de palavras, um fluir contínuo de imagens, diferentes assuntos embaralhados simultaneamente.'
O idílio baiano é breve. O casal novamente se desata - Agrippino vai morar em Salvador, Maria Esther no Rio, e Manhã fica aos cuidados do tio Guilherme. Os anos seguintes são erráticos; o profeta oferece novidades dispersas - escreve a peça Nações Unidas, mas não a publica (a editora Papagaio pretende editá-la ainda em 2007). Desse tempo surgem contos como Cigana Prateada da Lua, escrito durante viagem de ácido no Marrocos. Agrippino retorna a São Paulo, onde tenta conviver com a mãe. Porém, ocorrem surtos violentos e delírios persecutórios em que gritava que Antonio Carlos Magalhães tentava matá-lo (ironicamente, ACM morreria apenas duas semanas após Agrippino), destruía TVs e rádios ou investia contra a mãe com uma espada do CPOR. O irmão Guilherme é chamado, convoca psiquiatras, afinal vem o veredicto: esquizofrenia.

MADAME ESTEREOFÔNICA

Mas a história não termina aqui. Inicia-se uma rotina de visitas a clínicas, fugas, medicações, até que Agrippino passa a viver em uma casa no Embu das Artes, subúrbio paulistano. A doença justifica a crescente apatia. Mesmo visitado por leitores, escritores, fãs, amigos, Agrippino segue recluso na casa da Avenida Elias Yazbek, 1.640. Entre 2001 e 2004, são relançados PanAmérica e Lugar Público (Papagaio). Em 2005, a psicanalista Miriam Chnaiderman tenta co-dirigir com Agrippino um curta, Passeios no Recanto Silvestre - porém ele refuta usar de novo uma super-8. Segue leal à sua fala sempre no tempo presente - mesmo quando se referia aos anos 60 -, ao seu parangolé e à sua dieta básica de arroz integral (certa vez o irmão o flagrou comendo uma mistura de Sustagen, leite integral e aveia: Agrippino afirmou que era a única coisa que o estômago o deixava comer). E ganha novo sentido o que havia escrito em Lugar Público:
'Falta qualquer coisa em mim. E eu estou relegado a segundo plano na ordem do tempo, onde as coisas possuem a ordem do tempo. Estou numa confusão absoluta de palavras e de sentido (...). Construir a ordem da falta de ordem.' Em 1992, a filha Manhã, então uma lindíssima aspirante a atriz, é vitimada em acidente automobilístico. Quando ouve a notícia, Agrippino vira o rosto e pede ao irmão 'que resolva isso'. O baque causado pela perda da filha parece ser somente sentido por Maria Esther - que, retirada da vida artística e vivendo em Paraty, alternará dali em diante momentos de euforia e períodos de depressão. 'Ela parecia ter os olhos voltados para dentro', reflete Guilherme. Em 2006, Maria Esther morre - um câncer de que nunca tentou se curar. E nove meses após a ex-mulher, o profeta sofre enfarte fatal. É encontrado na cama pelo fiel irmão, o corpo enrolado à sua túnica.
Mas a história não termina aqui. Em 2008, PanAmérica afinal será traduzido - para o francês, pela editora Léo Scheer. A história não termina porque Agrippino jamais parou de escrever. No Embu, além de livros encimados por toneladas de pó, sacos de arroz e parangolés, o artista deixa cerca de 500 grandes cadernos, lotados de notas para o romance que escreve até seu último dia - Os Favorecidos de Madame Estereofônica. Enfim, a história de Agrippino parece nunca terminar porque... o que acontece quando some um buraco negro?

Ronaldo Bressane é autor de Céu de Lúcifer (Azougue) e redator-chefe da revista Trip

Fonte: O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 2/09/2007.

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