ORFEU SPAM 15/16

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editor: Jayro Luna

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, out.-dez. de 2006 / jan.-mar. de 2007

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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Júlio Salusse (Bom Jardim RJ 1872 - Rio de Janeiro 1948)- Nascido na antiga Província do Rio de Janeiro e falecido no Rio de Janeiro. Conquistou a celebridade com o soneto "Cisnes".  Foi um poeta de técnica perfeita, de lirismo admirável, autor de páginas encantadoras, repassadas de ternura, desilusão, mágoa, êxtase, solidão, amor platônico. paixão, mas tudo isto formando raros instantes de grande sensibilidade. Nilo Bruzzi, que conviveu com ele, escreveu um livro significativo, "Júlio Salusse, o último Perarca". Segundo Bruzzi, o poeta escreveu o soneto célebre "impressionado com a beleza de Laura, filha do Conde de Nova Friburgo, pela qual concebeu amor platônico, e que se casou com outro". Orgulhosos, os friburguenses mostram o chalé do poeta, Júlio Salusse, que compôs "Cisnes", um dos sonetos mais populares do Brasil. Carlos Heitor Castello Branco escreveu o livro Salusse, o poeta dos cisnes (Hucitec, 1979) e Antônio Carlos Secchin escreveu acerca da poesia do poeta dos cisnes (Obra poética de Júlio Salusse. Rio de Janeiro: Anais da Biblioteca Nacional, vol. 113, 1993. p. 149-188. Organização, introdução e estabelecimento de texto).

Elson Froés assim comenta a obra de Julio Salusse: "Sua produção é reduzida, mas nem por isso lá muito preciosa. Destacou-se com o soneto dos cisnes mas não o superou em nenhum outro. Foi o suficiente, porém, para situá-lo entre os nomes de relevo do parnasianismo, o que já é bastante coisa." Evidentemente tal opinião pode ser relativizada se levarmos em conta os apontamentos de Péricles Eugênio da Silva Ramos, de Antônio Carlos Secchin e de Heitor Castello Branco.

 

Comentário sobre o poema "Os Cisnes"

O poema "Os Cisnes", o mais conhecido de Julio Salusse, começa com uma definição de vida com dois apostos: "manso lago azul algumas vezes", "algumas vezes mar fremente". O poeta afirma a seguir que sua vida tem sido "Um lago azul sem ondas, sem espumas". Observemos essa metaforização da vida em lago, quando na poesia, mais comumente se associa a vida ao rio, em razão da analogia entre o curso fluvial e do tempo; ao considerar a vida como um lago, se conota a idéia de uma circularidade do tempo e da vida, assim como de um represamento. Essa circularidade é reforçada pelo cotidiano calmo e de paz na estrofe seguinte, em que o Sol "vermelho e quente" apenas ilumina o passeio dos cisnes amantes "Nós dois vagamos indolentemente".

A técnica de apreensão das cores pelo simbolismo aqui se destaca pela relação entre o vermelho do Sol e as alvacentas plumas dos cisnes nadando num lago azul.

Numa ruptura dessa circularidade do domínio da paz paradisíaca, vem a morte de  um dos cisnes, anunciada pela certeza do tempo futuro diante da mortalidade dos seres vivos. O poeta, sugere aos amantes que na falta do outro, se demonstre a fidelidade ao amor de ambos, recuperando a circularidade e o represamento diante do tempo, pela memória ao ser amado: "Nunca mais cante, nem sozinho nada / Nem nada nunca ao lado de outro cisne!"

A rima rara, aliás preciosa, "cisne/tisne" foi muito bem colocada pelo poeta, uma vez que após a morte, a água do lago se enegreceria, mesmo diante do sol, pela ausência de um dos cisnes. O ideal da imortalidade do amor aqui se prenuncia.

Jayro Luna

Os cisnes

 

A vida, manso lago azul algumas

Vezes, algumas vezes mar fremente,

Tem sido para nós constantemente

Um lago azul sem ondas, sem espumas,

 

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas

Matinais, rompe um sol vermelho e quente,

Nós dois vagamos indolentemente,

Como dois cisnes de alvacentas plumas.

 

Um dia um cisne morrerá, por certo:

Quando chegar esse momento incerto,

No lago, onde talvez a água se tisne,

 

Que o cisne vivo, cheio de saudade,

Nunca mais cante, nem sozinho nade,

Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

 

 

(Sem Título)

— "A minha vida é a planta, que as procelas
Sacudiram, torcendo-lhe a raiz...
Tive ambições e a mais ardente delas
Foi a da glória — e a glória não me quis!

Vi, como sombras, poéticas donzelas,
Sombras que se apagaram, como o giz...
Os sonhos meus eram batéis sem velas!
Perdi-os todos... Fui, talvez, feliz!

Sempre o destino olhei com tédio e medo,
Pois vim ao mundo muito tarde ou cedo...
Rosas plantei e a flor do mal colhi!

Ainda que pudesse, eu não quisera
Voltar à Mocidade, à primavera
De um tempo, que passou, mas não vivi!"


Visões do Mar

Uns argonautas, pálida senhora,
Ambicionando o velocino d'oiro,
Para a conquista do ideal tesoiro
Fretaram naus, partiram mar em fora...

E sobre o oceano, que marulha e chora,
Abrindo a cada vaga um sorvedoiro,
Lá vão elas, buscando o ancoradoiro,
Quer morra o dia, quer desponte a aurora!

Dizei qual d'essas naus aventurosas
Há de aportar às plagas misteriosas
Da voss'alma — o sonhado velocino...

Qual será pelos deuses protegida?
Todas soçobrarão no mar da vida
Ou chegará alguma ao seu destino?

 

 

A Vingança

Atravessei uma floresta um dia,
Ao galopar de alígero murzelo:
Era negra, fantástica, sombria
E terminava às portas de um castelo!

Na mão tinha um punhal que reluzia
E nos olhos a cólera de Otelo...
As árvores o vento sacudia,
Tornando tudo horrivelmente belo!

Harmoniosas e vibrantes árias
Eram cantadas pela voz dos ventos
E também longas marchas funerárias...

E pios tristes, pios agoirentos,
Partiam de altas torres solitárias
E dos muros vetustos dos conventos!


Fantasias (I)

Vi em sonhos as fadas — e uma d'elas,
Invejosa talvez do nosso amor,
Transformou-nos em flores amarelas
Na China, nos jardins do imperador.

Achou-nos este poéticas e belas,
Porém muito mais viva a tua cor...
Debruçava-se às vezes nas janelas
Por tua causa, amarelenta flor!

Num dia de verão pendeste na haste,
Fugiu-te a vida, lânguida murchaste,
Murchaste ao sol do exótico país!

E — seria ilusão ou não seria? —
Pareceu-me que um raio de alegria
Fulgurava no olhar da imperatriz...


Fantasias (V)

Jesus de Nazaré, vives no céu, contudo
Não vives lá melhor do que viveste aqui,
Pois em Jerusalém tiveste um dia tudo
E eras então somente um pálido rabi...

As filhas de Israel, quando passaste, mudo,
Rosas de Jericó jogaram sobre ti...
A Madala mostrou-te as tranças de veludo,
Foste aclamado rei do trono de Davi!

Que mais puderas ter sobre a face terrena?
Aclamaram-te rei, amou-te Madalena
E passaste depois às páginas da história...

Para qualquer mortal julgar-se venturoso
Dos gozos que tiveste é bastante um só gozo:
O amor de uma mulher ou um dia de glória!


Baile de Máscaras

Por essas tardes pálidas de Agosto,
À minha mente o teu consórcio vem:
Naquele dia revelei no rosto
O desespero que só doidos têm...

O véu de noiva, em tua fronte posto,
Não me vedava que te visse bem:
Choraste de alegria — eu de desgosto...
E me perdeste e te perdi também!

Quando te vi de súbito perdida
Completamente para toda a vida,
Fechei os olhos para não te ver.

Tornou-se a terra para mim vazia
E desde aquele doloroso dia
Comecei de repente a envelhecer.

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