ORFEU SPAM 14

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editor: Jayro Luna

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, julho / agosto / setembro de 2006.

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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Afonso Henriques da Costa Guimarães nasceu em Ouro Preto (MG). Estudou Direito em São Paulo, onde se dedicou ao jornalismo.

Toda a sua obra foi marcada pela presença da amada - Constança - que morreu às vésperas do casamento.

Misticismo, Amor e Morte - eis o triângulo que caracteriza toda obra de Aphonsus de Guimaraens, sendo comum à crítica literária considerá-lo o mais místico poeta de nossa literatura. A morte da noiva é um motivo sempre retomado em sua poesia.

Em contrapartida, escreveu poemas de um humor fino e requintado. Essa é uma parte pouco conhecida de sua obra, visto que não a publicou em volume.
Em 1906 foi nomeado juiz na cidade de Mariana (MG). Lá ele casou, teve quinze filhos, e permaneceu até sua morte em 1921.

(fonte: http://www.geocities.com/Paris/Loft/7380/alphonsus.html)

 

Afonso Henriques da Costa Guimaraens (Ouro Preto MG, 1870 - Mariana MG, 1921). Formou-se bacharel em Direito, em 1894,  em Ouro Preto. Na época já colaborava nos jornais Diário Mercantil, Comércio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S. Paulo e A Gazeta. Em 1895 tornou-se promotor de Justiça em Conceição do Serro MG e, a partir de 1906,  Juiz em Mariana MG, de onde pouco sairia. Seu primeiro livro de poesia, Dona Mística, 1892/1894, foi publicado em 1899, ano em que também saiu o Setenário das Dores de Nossa Senhora. Câmara Ardente, cujos sonetos atestam o misticismo do poeta. Em 1902 publicou Kiriale, sob o pseudônimo de Alphonsus de Vimaraens. Sua Obra Completa seria publicada em 1960. Manteve contato com Álvaro Viana, Edgar Mata e Eduardo Cerqueira, poetas simbolistas da nova geração mineira, e conheceu Cruz e Souza. Considerado um dos grandes nomes do Simbolismo, e por vezes o mais místico dos poetas brasileiros, Alphonsus de Guimaraens tratou em seus versos de amor, morte e religiosidade. A morte de sua noiva Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas.

(fonte:http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/poesia/index.cfm?fuseaction=Detalhe&CD_Verbete=382)

 

 

A Catedral

Entre brumas, ao longe, surge a aurora.
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu risonho,
Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a bênção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a lua a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu tristonho,
Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
E a catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.

E o sino geme em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Publicado no periódico Vida de Minas (Belo Horizonte, 30 set. 1915).

 

O Lago de Tai-Hu

(Poesia chinesa de Yang-Pi)

Uma após outra (os ares são tranqüilos)
As gôndolas deslizam suavemente.
O espaço cortam sons de flauta... e a gente
Tem o ouvido encantado só de ouvi-los.

Oh Lago de Tai-Hu! Poente vermelho...
O vento morre em calmaria e o undoso
Céu, repleto de azul, vem luminoso
Refletir-se no movediço espelho.


Publicado no livro Poesias (1938). Segundo João Alphonsus, tradução de poema que se encontra como parte inicial da terceira novela, Mariage Forcé, em Trois Nouvelles Chinoises traduites pour la première fois par le Marquis D’Hervev-Saint-Denis (1885).

 

LXXIV - A Cláudio Manuel da Costa

Às margens destas águas silenciosas,
Quantas vezes berçaste a alma dorida,
Esfolhando por elas, como rosas,
As suaves ilusões da tua vida!

Vias o doce olhar das amorosas
Refletido na linfa entristecida,
E, ao pôr do sol das vésperas lutuosas,
Erguer-se o vulto da mulher querida...

Se é tão dolente o Ribeirão do Carmo,
Onde com as mãos proféticas armaste
Os castelos de amor que ora desarmo!

O teu sonho deixaste-o nestas águas...
E hoje, revendo tudo que sonhaste,
Por elas também deixo as minhas mágoas.


Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923). Poema integrante da série Os Sonetos.

 

A CRUZ E SOUSA


No Mosteiro, da velha arquitetura, de era
Remota, vão chegando os poetas exilados.
A porta principal é engrinaldada em hera...
Os sinos dobram nos torreões, abandonados.

Uns são bem velhos, e há moços, na primavera
Da idade humana. Alguns choram mortos noivados.
Sem esperança, cada um deles tudo espera...
Outros muitos tem o ar de monges maus, transviados.

E ninguém fala. O sonho é mudo: e sonham, quando
Ei-los todos de pé, estáticos, olhando
A branca aparição de hierático painel.

Chegaste enfim, magoado Eleito! Olham. Vermelhos
Tons de poente num fundo azul... Dobram-se os joelhos:
É Cruz e Sousa aos pés do arcanjo São Gabriel.


In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 513. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Outras Poesias.

 

Ária do Luar

O luar, sonora barcarola,
Aroma de argental caçoula,
Azul, azul em fora rola...

Cauda de virgem lacrimosa,
Sobre montanhas negras pousa,
Da luz na quietação radiosa.

Como lençóis claros de neve,
Que o sol filtrando em luz esteve,
É transparente, é branco, é leve.

Eurritmia celestial das cores,
Parece feito dos menores
E mais transcendentes odores.

Por essas noites, brancas telas,
Cheias de esperanças de estrelas,
O luar é o sonho das donzelas.

Tem cabalísticos poderes
Como os olhares das mulheres:
Melancoliza e enerva os seres.

Afunda na água o alvo cabelo,
E brilha logo, algente e belo,
Em cada lago um sete-estrelo.

Cantos de amor, salmos de prece,
Gemidos, tudo anda por esse
Olhar que Deus à terra desce.

Pela sua asa, no ar revolta,
Ao coração do amante volta
A Alma da amada aos beijos solta.

Rola, sonora barcarola,
Aroma de argental caçoula,
O luar, azul em fora, rola...


Publicado no livro Dona Mística, 1892/1894 (1899). Poema integrante da série V - Árias e Canções.

 

Terceira Dor

 VI

 É Sião que dorme ao luar. Vozes diletas

 Modulam salmos de visões contritas...

 E a sombra sacrossanta dos Profetas

 Melancoliza o canto dos levitas.

 

 As torres brancas, terminando em setas,

 Onde velam, nas noites infinitas,

 Mil guerreiros sombrios como ascetas,

 Erguem ao Céu as cúpulas benditas.

 

 As virgens de Israel as negras comas

 Aromalizam com os ungüentos brancos

 Dos nigromantes de mortais aromas...

 

 Jerusalém, em meio às Doze Portas,

 Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos

 Evoca ruínas de cidades mortas.

Ismália

 Quando Ismália enlouqueceu,

 Pôs-se na torre a sonhar...

 Viu uma lua no céu,

 Viu outra lua no mar.

 

 No sonho em que se perdeu,

 Banhou-se toda em luar...

 Queria subir ao céu,

 Queria descer ao mar...

 

 E, no desvario seu,

 Na torre pôs-se a cantar...

 Estava longe do céu...

 Estava longe do mar...

 

 E como um anjo pendeu

 As asas para voar. . .

 Queria a lua do céu,

 Queria a lua do mar...

 

 As asas que Deus lhe deu

 Ruflaram de par em par...

 Sua alma, subiu ao céu,

 Seu corpo desceu ao mar...

 

 Aspectos Gnósticos da poesia de Alphonsus Guimaraens

Por: Jayro Luna

A poesia de Alphonsus Guimaraens já foi amplamente comentada como exemplo de poética voltada para o Cristianismo, notadamente seus poemas acerca da Virgem Maria (Setenário das Dores de Nossa Senhora). Gladstone Chaves de Melo, fazendo a apresentação da poesia de Alphonsus para a coleção Nossos Clássicos nos diz que:

 

     "Não se tem notícia realmente de que Alphonsus Guimaraens freqüentasse os sacramentos da Igreja, o que de resto era muito raro nos homens daquele tempo confuso e de decadência religiosa. No entanto, ele tinha Fé, tinha razoável notícia da Doutrina, perlustrava a Bíblia, e em latim, e sobretudo possuía um conhecimento de Liturgia extraordinário para a época, sob este aspecto muito medíocre. Chama a atenção, por exemplo, a circunstância de ele saber que as virtudes teologais têm primazia e grande sobre as virtudes morais, coisa que até hoje muito católico considerado instruído ignora. Quanto à oração e à presença de Deus no pensamento e no coração, temos sinais por onde julgar que não faltavam em Alphonsus. O tom de amor e de intimidade com que ele fala de Jesus e de Deus, a ternura por Nossa Senhora, vista e celebrada como Mãe de Deus e dos homens, são fatos que, por numerosos, não deixam dúvida." (MELO, Gladstone C. Nossos Clássicos, p. 13)

 

Comentando acerca da poesia religiosa e de seus aspectos místicos em Alphonsus, o crítico e estudioso do simbolismo brasileiro, Andrade Muricy assim comenta em seu Panorama do Simbolismo Brasileiro:

 

     "Continuada confissão, ela é entretanto de ressonância restrita e velada, animada dum sentimento místico sem arroubos nem iluminações fulgurantes. Quando, porém, Alphonsus dominava a obsessão funérea, que lhe tinge em grande parte da obra, é que vislumbramos a qualidade de sua alma, tão afim como a daquele Aleijadinho das igrejas de sua terra." (MURICY, A. Panorama do Simbolismo Brasileiro, v. 1, p. 450)

 

O gnosticismo, enquanto conhecimento doutrinário cristão de característica mais hermética e que eventualmente leva a considerações diversas do pensamento dominante da Igreja acerca do sentido da mensagem de Cristo e de seus apóstolos não devia ser um elemento característico da poesia de Alphonsus Guimaraens, porém, alguns de seus poemas permitem uma interpretação por um viés mais gnóstico e místico. Vejamos, p.ex., o poema "Catedral"  cujo eco do sino reproduz em termos rítmicos o nome do poeta: "Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!". Segundo os ensinamentos doutrinários rosacrucianos advindos do livro de Christian Rosenkreuz, a catedral ou o templo é o próprio corpo. No poema de Alphonsus se repete por três vezes o verso "A catedral ebúrnea de meu sonho", tal catedral está na mente / alma do poeta, assim como Jan Van Rijkenborgh analisando o livro de Christian Rosenkreuz diz que "São seu amor, sua vida exterior e seu amor ao próximo perfeitamente puros? Não tem ele ainda diversos desejos mundanos? Ele foi tocado de modo singular, porém, pelas misteriosas palavras a respeito dos três templos cujo significado ele não compreende." (Jan Van Rijkenborgh, As Núpcias Alquímicas, vol. 1, p.33). Como um sol essa catedral ebúrnea do sonho de Alphonsus aparece, segue um caminho pelo céu e se põe ao fim, no horizonte; metáfora da vida, mas também da busca de iluminação e de conhecimento acerca da vida.

No poema "O Lago de Tai-Hu" a mística religiosa cristã é substituída por um toque de orientalismo budista, em que natureza serve de metáfora do templo antes aludido em "Catedral", assim o poeta "tem o ouvido encantado" só de ouvir os sons que ressoam no interior sidéreo deste templo-natureza.

No soneto "A Cláudio Manuel da Costa" a atitude contemplativa diante da correnteza do "Ribeirão do Carmo", rio simbólico para o poeta inconfidente, representativo da contradição entre  a cultura européia e a tropicalidade brasileira, Alphonsus transfere como fazia o poeta de Nise, sua melancolia lírico-amorosa para a natureza, agora não apenas repetindo o sentimento pré-romântico de Cláudio, mas também colocando sobre essa natureza uma tradição que se converte em sentimento místico originalmente ligado ao cenário da natureza local: "Se é tão dolente o Ribeirão do Carmo, / Onde com as mãos proféticas armaste / Os castelos de amor que ora desarmo!"

Na "Ária ao Luar", o poeta escreve que a Lua "tem cabalísticos poderes", e destaca o aspecto da "eurritmia" do astro associada às cores, insinuando um conhecimento numérico e cíclico do céu. Em "Ismália" - uma de suas peças mais conhecidas - o poeta compõe com a Lua uma cena de profundidade esotérica. De fato, a imagem da Lua refletida nas águas é referência ao aparente, ao falso conhecimento. Ismália, vítima de seu desejo e de sua loucura, busca a todo custo satisfazê-lo sem, no entanto, ter a preparação do espírito para essa tarefa. A morte que lhe sobrevém só é compensada pelo amor de Deus: "As asas que Deus lhe deu /  Ruflaram de par em par... /  Sua alma, subiu ao céu, /  Seu corpo desceu ao mar..." Nos poema do "Setenário das Dores de Nossa Senhora", não raras vezes encontramos um efeito de sublimação da melancolia existencial, porém, também, com um pouco mais de atenção, podemos perceber uma complexa teia simbólica de caráter gnóstico, por exemplo, no soneto VI da terceira dor, em que a cidade de Jerusalém referida, não é a cidade terrena, circunscrita no mapa geográfico do planeta, mas uma outra, etérea, celestial, assim o "Luar" que surge na noite da cidade terrena serve de signo para lembrar da transitoriedade das cidades criadas pelos homens, ao passo que a cidade celestial é eterna e atemporal.

Alphonsus Guimaraens pode não ter tido o brilho de outros grandes poetas simbolistas que se notabilizaram pela exploração de elementos místicos com maior clareza e brilho, porém, um dos pontos mais característicos do conhecimento gnóstico não é sua transparência mas sim sua sutileza, muitas vezes disfarçada, dissimulada.

 

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