ORFEU SPAM 14

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editor: Jayro Luna

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, julho / agosto / setembro de 2006

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

Voltar  

   Home Page

  Capa Orfeu Spam 14  

   Home Page

  Avançar

Nas trilhas de JJ Gallahade: leitura crítica da obra poética de Jayro Luna

Organizado por Eliana Nagamini - São Paulo, Vila Rica, 2006.

Apresentação: Jayro Luna ou Jayro Jhade Gallahade: o poeta e a máscara

Por: Eliana Nagamini

 

Os poemas de J.J. Gallahade, pseudônimo de Jayro Luna, contém uma diversidade na composição da forma e do conteúdo, do soneto à poesia concreta, do esoterismo à cibernética. Intertextualidade e confronto com o mundo contemporâneo são marcas presentes em poemas como “O Exílio da Canção” (Infernália Tropicalis). Há também muitas referências daquela geração que viveu sob o prisma do rock, da contracultura, da rebeldia, do desbunde, como em “Rock-poesia” (Infernália Tropicalis). Influenciado pelo movimento Tropicalista, pelo mundo do rock, os poemas de Jairo revelam sua busca pela natureza da produção poética e se transforma, no presente, em  poesia ainda marginal.

Jayro Luna iniciou corajosamente a publicação de seus poemas, nos idos dos anos 80, em plaquettes, peregrinando com eles debaixo do braço entre editores e pessoas ligadas ao universo literário. Nem sempre encontrou uma resposta positiva; muitos elogios, mas sem a esperada publicação. Assim poucos conhecem a obra poética de Jayro Luna.

O pseudônimo J.J.Gallahade revela muito mais sua busca por uma identidade poética do que para escondê-la. Não é à toa que na composição do próprio pseudônimo contenha o nome do poeta: Jayro que se funde com Jhade Gallahade, situando o poeta num mundo fictício em que está presente/ausente, que o lança para um vir a ser, na tentativa de encontrar o seu espaço como poeta. No pseudônimo está o desejo expresso por um lugar predestinado, como o cavaleiro da Távola Redonda; o cavaleiro, no entanto, é um cavaleiro errante, um poeta marginal.

Segundo Glauco Mattoso, “do ponto de vista literário, marginal seria toda poesia que se afasta dos modelos reconhecidos pelos críticos e professores, pelo público leitor e, conseqüentemente, pelos editores[1]. A geração-mimeógrafo encontrou seu públicopequeno - por ser itinerante. O conceito de marginal aplicado aqui não se restringe, no entanto, somente à sua circulação, mas principalmente pela transgressão aos modelos tradicionais. Em JJ Gallahade essa transgressão ultrapassa a mera negação desses modelos, pois eles fornecem elementos estéticos na composição de seus poemas, ou seja, o poeta assume a liberdade de expressão, de criação para compor sonetos com uma temática incomum para uma forma clássica (“Cavaleiro Menestrel Errante”, em Bagg’Ave).

Mesmo sendo marginal, o que implica em dificuldades na publicação de seus poemas, o poeta quer ser lido. Aliás, o fenômeno literário se efetiva na existência da trilogia autor/obra/leitor. Porém como afirma Mattoso, citando Carlos Alberto Messeder Pereira, autor da tese Retrato de época: poesia marginal anos 70 (Funarte/1981), a autonomia do poeta marginal contribui negativamente para seu ingresso no mercado editorial, tornando-se cada mais distante a conquista por um prestígio literário. No contexto dos anos 70, o poeta vivia umgrande dilema”, isto é, “de um lado existe o obstáculo de submeter seu trabalho a intermediários (editores, conselhos consultivos, comissões julgadoras), que exercerão sobre o mesmo algum tipo de seleção ou censura; de outro, a necessidade de atingir um público cada vez mais amplo para se tornar um nome popular e, por que não, badalado. Tal contradição não fica resolvida pelaopçãomarginal. Ao contrário, mesmo entre os poetas marginais porconvicção” prevalece o mito da consagração e da fama, a luta pelo status cultural, ainda que o alcance desse status fique restrito a um público muito reduzido”[2].

Esse paradoxo entre a marginalidade e a consagração também ocorre com Jayro Luna. Das cartas fornecidas pelo poeta aos textos acadêmicos, acompanhamos a trajetória da produção literária do poeta e sua tentativa em estabelecer um diálogo com o meio editorial, literário e acadêmico.

Assim, esta coletânea sobre a produção poética de JJ Gallahade apresenta textos de caráter informalparte da correspondência recebida pelo poeta – , de caráter públicocomo artigos de jornais e revistas- e de caráter acadêmicocomo a dissertação de mestrado e tese de doutorado.

A primeira parte conta com uma série de cartas enviada para o poeta, cujo diálogo nos permite compreender a trajetória de Jayro na conquista de um espaço não apenas no meio editorial mas também entre aqueles envolvido com a Literatura. Vale destacar que a reunião dessas cartas não tem como objetivo apenas o resgate da luta do poeta para ser reconhecido.Trata-se, numa esfera mais ampla, de considerarmos o impacto de algumas mensagens contidas nelas, principalmente tendo em vista o seu interlocutor. Pois, de acordo com Valverde, “a carta contém uma possibilidade intrínseca de provocar modificações no destinatário, o poder de influenciar idéias, atitudes, de enriquecer e permitir reflexão[3].

Tanto o conteúdo como o grau de intimidade entre o emissor e o receptor são fatores importantes na reconstituição do perfil artístico de JJ Gallahade, embora esse não tenha sido o critério seguido para a organização das cartas, pois elas foram organizadas a partir de dados cronológicos para situar o leitor no processo de formação do poeta: do jovem estudante de Letras da PUC ao professor de Literatura em instituições de nível superior.

O leitor notará que a informalidade ou não da linguagem utilizada nas cartas revela o grau de aproximação ou distanciamento do interlocutor. Fator decisivo no impacto da mensagem apresentada pois, de modo geral, elas se constituem cartas-comentário, na medida em que o conteúdo apresenta apreciações críticas sobre algum poema ou plaquette enviado por Jayro. As cartas trazem à luz a insistência do poeta para publicar seus poemas e dialogar com outras personalidades ligadas ao meio literário. Entre elas constam nomes como Paulo Leminski, Caio Graco, Haroldo de Campos, todos escritores reconhecidos pelo meio artístico-literário. Outros nomes de poetas, com propostas literárias muito próximas de Jayro, como Antônio Carlos Lucena[4], conhecido como Touchê, Álvaro de Sá[5], Rubervan do Nascimento[6] . E ainda de pessoas ligadas ao meio acadêmico como Uilcon Pereira[7], Philadelpho Menezes[8],

alguns comentários precisos sobre os poemas de Bagg’Ave como os de Antônio Carlos Lucena, em quedestaque para a composição da estrutura dos poemas e do caráter underground, elementos que valorizam a produção poética de Jayro. Outros comentários como os de Paulo Leminski são incentivadores por destacar a importância das escolhas vocabulares, mas na opinião do escritor revelam a imaturidade do poeta que precisa construir seu caminho (“Espero que os caminhos da poesia sejam para você uma espécie de na estrada com direito a definição de itinerário”).

Talvez a carta-comentário de Caio Graco seja a que mais tenha causado impacto no poeta pela recusa de seus poemas para publicação e pela ambigüidade: “talvez eu pudesse propor estudar a publicação de seus poemas para outro ano, mas para ser franco, embora tenha gostado de sua poesia e entendido o espírito de contracultura que a domina, ela me parece muito comprometida”. Apenas a possibilidade de publicação dos poemas seria uma conquista, porém essa possibilidade é anulada posteriormente com termo “comprometida”, pois não há o complemento necessário para que a idéia seja apresentada na sua totalidade. O próprio Jayro vai levantar algumas conjecturas a este respeito em seu livro Participação e forma. Algumas reflexões sobre a função social da poesia, publicado pela Épsilon Volantis,2001.

O comentário de Phipladelpho Menezes acerca do poemaPoema semiótico para Ziggy” também apresenta uma observação que em princípio pode parecer negativo (“o seu poema tem um quê de improvisação e desarranjo”) mas que corresponde com a linha poética adotada por Jayro, isto é, o do experimento visual apoiado na liberdade de criação, na “irreverência”, no “desbunde”, com o espírito da poesia marginal.

Em todas as cartas, o leitor encontrará como traço semelhante indícios da preocupação do poeta JJ Gallahade ou Jayro Luna com o processo de produção literária, tanto em relação à forma quanto ao conteúdo, e sua proposta na construção do conceito de “metamodernidade”.

As cartas-artigo de jornal são assinadas por Zanoto, cujo diálogo se divide entre a correspondência enviada por Jayro e as respostas ou comentários publicados no jornal Correio do Sul (Varginha – MG), na década de 80. Elas trazem mais uma face do poeta Jayro, com sua poesia marginal, voltada para a contracultura, o rock e com referências ao Mimeógrafo Generation, editado por Jayro. Aqui o leitor deixa de ser somente o poeta, visto que a publicação num jornal propaga a existência de um JJGallhade e de seus poemas.

Na segunda parte da coletânea, a publicação de comentários sobre os poemas de Jayro em artigo de revistas ou de jornais representam a conquista de um espaço, ainda que pequeno. Jayro Luna deixa de ser um leitor solitário, como nas cartas, para compartilhar com outros leitores o comentário sobre seus poemas, pois o poeta continua enviando seus plaquettes, na década de 80 e em livro, na década de 90. Os comentários, nem sempre tão breves, se compõem a partir de pressupostos teóricos mais precisos.

Douglas de Almeida, da Revista Sem Perfil, ressalta importância da diversidade na composição poética de Jayro e destaca a perfeição de “sonetos que matariam Petrarca de inveja”, mas que surpreendentemente trazem o rock como temática. Tal característica é “fruto de pesquisas e trabalho”, que seria possível, como observa Antônio Miranda, em resenha eletrônica, porque Jayro “deve ter lido todos os livros de seu sebo fino, de suas estantes iluminadas. Tragou-os todos numa cuia de açaí como néctar puro, como de guaraná!”. Para quem não sabe Jayro Luna teve um sebo entre 1992 e 1997; chamava-se Sebo Paulista e continha um acervo de 50.000 livros, além de partituras e discos.

Nos artigos, o leitor encontrará um olhar um pouco mais analítico e que revelam a busca de Jayro por uma teoria poética do metamodernismo. É o caminho para o meio acadêmico.

As anotações de Jayro durante a realização do cursoRedação e poesia”, ministrada pelo Prof. Dr. Carlos Felipe Moisés, na FIG (Faculdades Integradas de Guarulhos), abrem a terceira parte desta coletânea e marcam a entrada dos poemas de Jayro no meio acadêmico, em que a questão da metamodernidade foi debatida. O “metamoderno”, para Jayro, é “uma estratégia, mais do que um conceito de escola”.

Jayro Luna chega ao meio acadêmico quando seus poemas passam a constituir objeto de estudo em trabalhos monográficos, dissertação de mestrado e tese de doutorado, cujo aporte teórico está voltado para estudo da Semiótica, devido ao diálogo entre a linguagem visual e verbal que encontramos nos poemas. Mesmo no meio acadêmico, o poeta não deixou de ser underground, beat, integrante da geração mimeógrafo...um poeta marginal!

JJ Gallahade é o “cavaleiro menestrel errante”, “com sua espada elétrica”, de “jeans azul”, que lutacontra o rei e sua filha”, tem a experiência de um leitor apaixonado pela linguagem poética. JJ Gallahade é tão misterioso quanto seu “Bagg’Ave”, embebido no “Ópium”, viajando no “Infernalis Tropicalis”...é um verdadeiro “Florilégio de Alfarrábio”.

 

 

 


 


[1] MATTOSO, Glauco. O que é poesia marginal. São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 31.

[2] Idem, p.74.

[3] VALVERDE, Maria de Fátima. “A carta, um gênero ficcional ou funcional?”. In: Anais do IV Congresso Internacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada,Universidade de Évora (www.eventos.uevora.pt/comparada/VolumeI/A%20CARTA_UM%20GENERO%20FICCIONAL%20OU%20FUNCIONAL.pdf - acesso em 9 / 8/2006)

 

[4]Foi poeta da geração marginal dos anos 70, começo dos 80, publicou dois livros: "Jujubas Essenciais"(1979) e "Pílulas de Vida do Dr. Touchê" (1980), participou como um dos líderes de um grupo de poetas marginais chamado "Sanguinovo" do qual também participaram outros como Tanussi Cardoso (também compositor), Réca Poletti, Fred Maia (atualmente professor universitário e crítico de música e literatura), entre outros.

 

[5] Poeta do chamado movimento do poema-processo, década de 70, junto com Wlademir Dias Pino, Moacy Cirne, Joaquim Branco, entre outros; participou de uma antologia de poesia visual na qual Jayro também fez parte. Jayro conheceu o poeta na ocasião do lançamento e mantiveram correspondência durante um tempo até a morte de Álvaro.

 

[6] Editor de fanzines de poesia voltados para a poesia visual e concreta, e também a versificada de caráter regional e marginal; ele é do Nordeste e Jayro não o conhece pessoalmente.

[7] Foi professor da Unesp e da Ufscar, entre outras, ministrando aulas sobre Literatura, publicou nos anos 80 dois romances,"O Livro do Biúte" e "A Implosão do Confessionário". O crítico carioca Aricy Curvello fez uma compilação de parte da sua correspondência crítica, em que há algumas referências ao Mimeógrafo Generation, editado por Jayro.

 

[8] Foi professor da PUC-SP, atuando na graduação e na pós-graduação. Especializou-se no estudo e na crítica da poesia visual, sonora e concreta. Autor de Roteiro de Leitura: poesia concreta, publicado pela Ática.

 

 

Voltar  

   Home Page

  Capa Orfeu Spam 14  

   Home Page

  Avançar