ORFEU SPAM 14

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editor: Jayro Luna

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, julho/agosto/setembro de 2006

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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Sessão Marginália: Samaral

Samaral, pioneiro do poema independente no Rio de Janeiro. Fundador e editor da Revista "Urbana Poema Fanzine", com mais de 10 anos de existência.Como produtor cultural, produziu inúmeros eventos como o "Segundas Urbanas - poesia luzidia no ar da veloz cidade" no Centro Cultural Oduvaldo Vianna Filho - Casterlinho do Flamengo, que tinha por finalidade divulgar o trabalho das diversas correntes poéticas vigentes no Rio de Janeiro, fomentando o intercâmbio entre os artistas. (Aimberê César)

Por volta de 1974/75, um grupo de poetas - entre os quais Samaral, João Carlos, Dico, Peo, Ronaldo, Sandra Moreno, Dayse Lacerda - na trilha aberta pelo poema processo, agora em "EM/AÇÃO-PRÓ/EMOÇÃO", lança diversas publicações tais como envelopes, cartazes e folhas soltas que experimentam tanto o limite da forma tradicional do livro quanto da palavra impressa. (Heloísa Buarque de Hollanda / Carlos Alberto Messeder Pereira).

 

    A poesia de Samaral tem aquela capacidade rara de sintetizar a influência da contracultura dos anos 60 e 70, com seu desbunde, improviso, liberdade criativa e escrita automática com o experimento plástico de pesquisa dos limites da poesia visual, da concreta e do poema-processo. Seus poemas visuais transitam assim numa confluência de linhas em que a crítica ao sistema consumista, à mídia e à coisificação se apresentam estruturados num espaço cujo limite é para além da liberdade absoluta e sem limites, o reencontro com a ordem, não mais agora a ordem da tradição ou da norma gratuita, mas o rigor transcendente do universo multidimensional. Associado ao fato de que boa parte da produção poética de Samaral se dá num momento pré-internet e ante-pc-pessoal, em que a produção do poema ainda se via dominada pelo âmbito dos recurso físicos de uma pequena gráfica: off-set, xerox, mimeógrafo, máquina de escrever e quando não, tesoura, revistas velhas e papel, seguindo de perto a receita de um Tristan Tzara mais por recondicionamento das condições sociais, do que por filiação dadaísta; os poemas de Samaral têm uma atmosfera envolvente de desarranjo aparente, de névoa de pub londrino com gafieira carioca, que marca um momento da jovem poesia marginal brasileira da década de 70 para 80 que poucos críticos têm prestado atenção, mas que essa poesia fez por enriquecer a dinâmica e o imaginário poético da cultura brasileira de uma forma que chegamos hoje a compreender muito do que aplaudimos em um Caetano Veloso, Waly Salomão e Jorge Mautner - para citar os mais velhos - e num Skank, Legião Urbana, Arnaldo Antunes - para citar os mais novos, devido às ousadias pioneiras de poetas como Samaral e sua luta pela poesia marginal no Rio de Janeiro. (Jayro Luna)

 

 

 

   

 

BH, 27, DEZEMBRO DE 86.

Meu caro GALLAHADE [pseudônimo de Jayro Luna],

                          muito grato pela publicação de "OU LIXO OU AKG", no "MG", o xeropoético penetrável. Hoje, em anexo, exemplar pra você do ASSASSIGNO, recém-lançado, aqui em Bh, pela Arte-Quintal, que é pra você, se possível, fazer uma leitura e uma puta chamada pra moçada fazer o pedido (meu endereço); o livro custa 100 cruzados.

                          E o que é ASSASSIGNO? Uma discriminação poética, depois de 22 anos de luterária, das linguagens-exemplos que ser-viram nem ser-vís, do barroco de Quevedo ao concreto de Augusto de Campos. Livro-linguagem de reabilitação e de reavaliação da "tradição do novo" (via Affonso Ávila), na inovação. Metalinguagem contra o toteslismo lingüístico do poema beco-sem-saída de si mesmo e a mesmice da camõenidade literária. Poesia sobre poesia.

                        Considerando, p.ex., que "há uma gota de sangue em cada poema" (Mário de Andrade), a intenção é chegar a conclusões profundas, como a de o poeta ser "operário das ruínas" (Augusto dos Anjos), de ser necessariamente o assassigno na luterária para surpreender a emoção sob o estigma do precário, do transitório, impetrando sua "estranha potência" (C. Meireles) como a única arte - a poesia - a recusar-se a ser mercadoria.

                        Octavio Paz diz que "o poema acolhe o grito, os trapos vocabulares, a palavra gangrenada, o murmúrio, o ruído e o sem-sentido; não é o homem que pergunta; a linguagem nos interroga."

                        ASSASSIGNO é isto aí.

                        Muita força, muita energia em 87.

                       Abração e agradecimentos por sua atenção poética, de mídia e tanto.

 

Samaral - Anônimos

Samaral - Ar

Samaral - Rede Lobo

DIAS DUROS

depois daquela noite

a população espantada

viu no muro da av. principal:

 

palavras

como clandestinas

ficaram lá dentro (vivas)

Samaral - em "Sol Vermelho", 1972.

 

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