ORFEU SPAM 14

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editor: Jayro Luna

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, julho/agosto/setembro de 2006

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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Sessão  Acadêmica:

Destinada a Artigos de Natureza Universitária no Âmbito da Lingüística e Semiótica Aplicada aos Estudos Literários

A POESIA INTERSIGNOS: CULMINAÇÃO DE UM PROCESSO

Clemente Padín

A obra poética de Philadelpho Menezes constitui uma importante contribuição ao desenvolvimento da poesia experimental, não só latino- americana, mas também mundial. Ela completa e culmina a construção originada com o advento da Poesia Concreta brasileira (1956), selando-a com a Poesia Intersignos que vem sendo criada desde os anos 80. É a cereja que coroa a torta. A poesia concreta constituiria a base, o poema semiótico, o segundo piso, o Poema/Processo o seguinte e, finalmente, a Poesia Intersignos. No meu conceito o caminho é o seguinte: o concretismo literário de tendência matemático-espacial de Wladimir Dias-Pino, desde seus poemas A Ave (1954) e Sólida (1956) até os poemas "espaciais" (1962) que originaram o poema semiótico, o Poema/Proceso (1967), lançado no Río de Janeiro e, por último, a Poesia Intersignos de Philadelpho Menezes (1980).

Como no Poema/Processo, a Poesía Intersignos propõe "retirar do signo verbal a exclusividade na exploração da matéria prima poética" (Menezes,1987). Para Wladimir Dias-Pino, a palavra é o signo de uma das linguagens que pode ser utilizada na expressão poética, porém não é único nem é excludente: "...o Poema/Processo não pretende terminar com a palavra...o que o Poema/Processo reafirma é que o poema se faz com o processo e não com palavras..." (Wladimir Dias-Pino, 1971).

Segundo Menezes, se pode "definir sumariamente à Poesía Intersignos como aquela em que os signos visuais e verbais, cada qual com sua carga semântica própria, atuam conjuntamente na produção do sentido do poema" (Philadelpho Menezes, 1987). Assim, marca suas diferenças com a chamada "Poesia Visual" que se vale da dimensão plástica da linguagem (a linguagem não só se "lê" mas também se "vê"). Sustenta que no poema visual os elementos plásticos não se integram ao significado total do poema mas que atuam como elementos de confusão, de "ruído" para gerar a maior ambigüidade possível. Também podem estar na função de colocar em relevo (la "mise en relieve") ou de reforço da expressão verbal, à maneira dos poemas ilustrados ou os "carmina figurata" latinos ou os "Pattern Poems" como os define Dick Higgins (1987) onde, na grande maioria dos casos, as duas formas de expressão, a verbal e a visual, podem separar-se sem perda de informação poética, o que é impossível no poema intersigno. Menezes retoma o programa da poesía concreta histórica: a construção racional dos signos interatuando na formação do sentido, mediante processos de composição "precisos", quase esquemáticos, ao contrário das tendências mais relevantes na poesia visual, oriundas da colagem e da disseminação semántica.

O distanciamento com a Poesía Visual é notório. Compara ambas as formas, o poema visual e o poema intersignos, com a colagem cubista e a montagem cinematográfica: o primeiro é imotivado, livre e não pretende formulações semânticas claras mas ambíguas, o segundo propõe a articulação visual e verbal (e sonora, numa segunda etapa) que faça possível a apreensão de significados precisos ainda que sua conceituação seja complexa.

Posteriormente em ROTEIRO DE LEITURA: POESIA CONCRETA E VISUAL, 1998, ao caracterizar à Poesía Visual, fala de que, fundamentalmente, existem três manifestações: o poema-embalagem, o poema-colagem e o poema-montagem. O poema-embalagem se caracteriza por una volta ao texto e ao verso ainda que, devido as sofisticadas possibilidades dos novos tipos gráficos e outros recursos, é possível falar, ainda, de integração expressiva na visualidade. O poema-colagem, tem sua origem na técnica artística descoberta pelo Cubismo que tirava os signos de seu ambiente habitual e os colocava em outros gerando ambigüidade e proliferação de sentidos. O poema-montagem, ao contrário dp poema-colagem, ao reunir dois signos de diferentes linguagens geraria não múltiplas representações mas uma ou duas representações na mente do "leitor".

Um importante apoio à sua teoria é a "montagem", técnica expressiva descoberta pelo cineasta soviético Serguei Einsentein, entendida como a integração das áreas visual, verbal e sonora no filme. Sua admiração por Einsentein fop tal que chegou a chamar à Poesia Intersignos como "cine estático". A montagem é um "processo de justaposição" de dois ou mais elementos expressivos que "se combinam en um novo conceito, em uma nova qualidade (...)" (Serguei Einsentein, 1944). Essa "nova qualidade" se origina na instância superior do poema que se formas na mente do "leitor". Na terminologia de Charles Sanders Pierce, o poema se constituiria no representamen que, na interpretação posterior do "leitor", se transforma em "outro signo" ao que chamou interpretante. Menezes chama "sentido do poema" a esse supra-signo.

A ninguém escapa que essa integração (o visual, o verbal e o sonoro que tão bem expressou James Joyce com seu conceito de "verbivocovisual") só seria possível num futuro próximo através dos descobrimentos da técnica, quer dizer, o vídeo e, sobretudo, a multimídia. Assim não foi casual seu CD Rom POESIA INTERSIGNOS onde retoma seus poemas bidimensionais como MÁQUINA e REVER e os reelabora através das novas possibilidades expressivas desse meio, incluindo a chamada quarta dimensão tecnológica, o "hipertexto". Assim o expressava em seu texto anterior UMA ABORDAGEM TIPOLOGICA DA POESIA VISUAL que abria o catálogo da I Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo, organizada por ele em 1988:

"Se criaria uma articulação formal entre verbalidade, visualidade e sonoridade que produziria uma montagem superconductor onde a comunicação exigiría do observador un integral aproveitamento dos sentidos, em função da decodificação da hipótese de leitura do poema".

Fruto destas idéias é o CD Rom INTERPOESIA (1997- 98) realizado conjuntamente com Wilton Azevedo, onde se destaca como um excelente operador de linguagens multimídias de última linha, onde o componente visual se une indissoluvelmente ao componente verbal em um tipo de "intermídia" segundo a caracterização de Dick Higgins: "Uma real interação formal e semântica entre diferentes linguagens, e não puramente sobreposição acumulativa."

Também pode ser destacada sua atuação no redescobrimento da Poesia Sonora, sobretudo na América Latina, onde este gênero tem tido muito poucos adeptos. Assim como a poesia visual se vale das possibilidades pictóricas ou espaciais das letras e palavras, a poesia sonora ou fônica se vale das possibilidades expressivas dos sons e articulações vocais que fazem possível a dimensão sonora da linguagem verbal. A poesía fônica flutua entre a música e a literatura, entre a experimentação fono-verbal e o jogo glossemático *. Sua origem remonta a do gênero humano e, até a aparição das técnicas de gravação eletrônicas, se refugiou, escrita, na poesia visual, dando nascimento ao que hoje se denomina poesia fonética. Logo nos anos 50, com a aparição da fita eletromagnética, a poesia sonora se diversificou notavelmente, em virtude do amplo leque de possibilidades que oferecía o novo meio e, com o advento da tecnologia digital e da multimídia, essas possibilidades aumentaram.

Fruto dessas investigações é a compilação POESIA SONORA: POéTICAS EXPERIMENTAiS DA VOZ NO SECULO XX (1992) que reúne os ensaios mais importantes e valiosos em relação â poesia da voz e ao grupo de seus mais importantes adeptos. Este livro se complementa com o CD Rom POESIA SONORA: DO FONETISMO AS POÉTICAS CONTEMPORÂNEAS DA VOZ (1996) que, além de uma seleção de poesia sonora dos poetas "históricos" do movimento, nos traz os próprios poemas sonoros de Menezes e de outros poetas brasileiros.

Também é autor de un livro capital sobre poesia experimental contemporânea: POÉTICA E VISUALIDADE (Campinas, SP, Brasil, 1991) que, logo, foi traduzido por Harry Polkinhorn e editado pela Universidade de San Diego, California, USA, en 1994, sob o nome de POETICS AND VISUALITY. Ali, se constata e reafirma o carácter decisivo que teve, na poesia de nossos dias, a aceitação das distintas dimensões da linguagem para alcançar finalmente uma concepção "sem barreiras" da Literatura, não só limitada ao "verbo divino" (ou à semanticidade do signo verbal) mas voltada à totalidade da experiência humana, em todas as suas manifestações, sem que a poesia perca sua especificidade frente às demais disciplinas artísticas.

Nota da tradução

* Glossemática é a teoria da linguagem elaborada pelo lingüista dinamarquês Louis Jelmslev, segundo a qual a língua deve ser estudada com um fim em si mesma, livre de considerações fisiológicas, sociais, literárias, etc.

Bibliografía citada

Philadelpho Menezes - POESIA INTERSIGNOS, Timbre, Sao Paulo, Brasil, 1985.

-----GUIA PARA LA LECTURA DE LA POESIA INTERSIGNOS, en compilación de César Espinosa Signos Corrosivos, Ed. Factor, Ciudad de México, México,1987

-----UMA ABORDAGEM TIPOLOGICA DA POESIA VISUAL, in catálogo I Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo, Nobel, São Paulo, Brasil, 1988

-----POÉTICA E VISUALIDADE (uma trajetória da poesía brasileira contemporânea), Editora da UNICAMP, Campinas, Brasil, 1991

-----POESIA SONORA: POÉTICAS EXPERIMENTAIS DA VOZ NO SÉCULO XX, Ed. EDUC, São Paulo,Brasil,1992

-----BRAZILIAN VISUAL POETRY, en revista Visible Language, vol. 27, nr. 4, Rhode Island School of Language, Providence, USA, 1993

-----POETICS AND VISUALITY, Universidad de San Diego, California, USA, 1994, Trad. Harry Polkinhorn.

-----O EXPERIMENTALISMO POÉTICO MODERNO (Poesia visual: em busca da arte atual), capítulo V do livro A crise do passado. Modernidade, vanguarda, metamodernidade, Ed. Experimento, São Paulo, Brasil, 1994.

-----ROTEIRO DE LEITURA: POESIA CONCRETA E VISUAL, Editora Atica, Sao Paulo, Brasil, 1998

-----POESIA INTERSIGNOS (Do impresso ao sonoro e ao digital), en catálogo homónimo, Paço das Artes, Sao Paulo, Brasil, 1998

Serguei Einsentein - EL SENTIDO DEL CINE, Ed. Lautaro, Buenos Aires, Argentina, 1944

Dick Higgins - PATTERN POETRY, State Univ. of New York, New York, USA, 1987

Wlademir Dias-Pino - A AVE, Igrejinha, Cuiabá, Brasil, 1954.

-----POEMA ESPACIONAL, ed. del autor, Rio, Brasil, 1957.

-----SOLIDA, ed. del autor, Rio, Brasil, 1959-62

-----PROCESSO: LINGUAGEM E COMUNICAÇAO, Vozes, Rio, Brasil, 1971.

CD Roms

Phjiladelpho Menezes - POESIA SONORA (do fonetismo às poéticas contempoâneas da voz), LLS, Univ. Catolica de Sao Paulo, Brasil,1996.

Philadelpho Menezes y Wilton Azeredo - INTERPOESIA ( Poesia Hipermidia Interativa), PUC-SP y Univ. Presbiteriana Mackenzie, 1997 - 98.

Escrito para Enzo Minarelli y su número de homenaje a Philadelpho Menezes, Montevideo, Uruguay, Diciembre, 2000

Tradução: Regina Célia Pinto

 

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