ORFEU SPAM 13

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editor: Jayro Luna

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, abril / maio / junho de 2006.

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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Auta de Souza

 

Nasceu em Macaíba (RN), em 12 de setembro de 1876, filha de Eloy Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina de Souza e irmã de dois políticos e intelectuais, Henrique Castriciano e Eloy de Souza. Aos 14 anos apareceram os primeiros sinais da tuberculose, obrigando-a a abandonar os estudos e a iniciar uma longa viagem pelo interior em busca de cura.

Auta de Souza deve ser considerada a poetisa norte-rio-grandense que mais ficou conhecida fora do Estado. Sua poesia, de um romantismo ultrapassado e com leves traços simbolistas, circulou nas rodas literárias do país despertando sempre muita emoção e interesse, e foi fartamente incluída nas antologias e manuais de poesia das primeiras décadas. Como a maioria dos escritos femininos, sua obra poética deixou-se contaminar pelas experiências vividas, o que, aliás, não compromete o lirismo e o valor estético de seus versos.

Aos 24 anos, no dia 7 de fevereiro de 1901, Auta de Souza morria tuberculosa. No ano anterior havia publicado seu único livro de poemas sob o título de Horto, com prefácio de Olavo Bilac, que obteve significativa repercussão na crítica nacional. Em 1910 saía a segunda edição, em Paris, e, em 1936, a terceira, no Rio de janeiro, com prefácio de Alceu de Amoroso Lima.

Antes de serem reunidos em O Horto, parte de seus poemas foram publicados em jornais como A Gazetinha, de Recife, O Paiz, do Rio de Janeiro, e A República, A Tribuna, o Oito de Setembro, de Natal, e nas revistas Oásis e Revista do Rio Grande do Norte. Os poucos poemas inéditos que deixou foram recolhidos e publicados nas edições seguintes de o Horto.

 

SIMBÓLICAS
                                           A Emília Guerra.
 
 

Quando Deus criou Além
As estrelas em cardume,
Na terra criou também
As flores, mas sem perfume.
 

Um dia, ao mundo de abrolhos
A virgem pura desceu,
Com um manto da cor dos olhos
E uns olhos da cor do Céu.
 

No Céu azul de seu manto
Brilhava um astro: Jesus!
E, em seu olhar sacrossanto,
Boiava a Inocência, a Luz...
 

Maria! - os anjos clamaram
A chorar, vendo-a partindo... -
Tu levas nossa alegria...”
Mas da terra lhe acenaram
As flores todas, abrindo:
          “Maria!”
 

E Ela deixou do Infinito
Os resplendentes fulgores,
Para acudir ao bendito
Aceno doce das flores.
 
 

E teve pena de vê-las
Formosas, mas sem ter brilho:
Olhou sorrindo as estrelas
Dos cabelos de seu Filho...
 

Ah! fora Ela que as fizera
Com a graça de seu sorriso,
N’um dia de Primavera,
Na glória do Paraíso!
 

E seus olhos procuraram
Algum oculto tesouro: 
“Para as flores, que faria?”
Quando do Céu a chamaram
Os Anjos todos, em coro:
          “Maria!”
 

Ia partir... Que lembrança
Podia deixar no campo?
Dera o sorriso à criança,
Estrelas ao pirilampo!
 

Nos meigos olhos perpassa
Não sei que lampejo doce...
E a Virgem, cheia de graça,
Do mundo triste evolou-se.
 

Mas, Ela, que dera o encanto
Do riso sagrado à infância,
Da dobra azul de seu manto
Deixou cair a fragrância.
 
 

Desde esse dia, na terra,
As flores sabem falar...
A voz da flor é a ambrosia
Que tanta doçura encerra
Quando murmura ao luar:
          “Maria!”

Jardim - Agosto de 1897.

LYDIA
A Esther
 

Feliz de quem se vai na tua idade,
Murmura aquele que não crê na vida,
E não pensa sequer na mãe querida
Que te contempla cheia de saudade.
 

Pobre inocente! Se alegrar quem há-de
Com tua sorte, rosa empalidecida!
Branca açucena inda em botão, caída,
O que irás tu fazer na eternidade?
 

Foges da terra em busca de venturas?
Mas, meu amor, se conseguires tê-las,
De certo, não será nas sepulturas.
 

Fica entre nós, irmã das andorinhas:
Deus fez do Céu a pátria das estrelas,
Do olhar das mães o Céu das criancinhas.

 

NO ÁLBUM DE EUGÊNIA
 

Quanta dor a boiar nos olhos das crianças,
Quanta gota a tremer no cálice das flores...
E aqui neste jardim, plantado de esperanças,
Eu venho inda depor a lágrima das dores.
 

A lágrima é o meu nome escrito entre as formosas
Páginas de teu livro, um berço de boninas!
Pois não bastava o orvalho a tremular nas rosas,
Nem o pranto a rolar nas faces pequeninas?

MORENA

                      À moça mais bonita de minha terra

Ó moça faceira,
Dos olhos escuros,
Tão lindos, tão puros,
Qual noite fagueira!

Criança morena,
Teus olhos rasgados
São céus estrelados
Em noite serena!

Que doces encantos
No brilho fulgente,
No brilho dolente
De teus olhos santos!

E eu vivo adorando,
Meu anjo formoso,
O brilho radioso
Que vão derramando.

Em chamas serenas,
Tão mansas e puras,
Teus olhos escuros,
Ó flor das morenas!

NOEMI
 

Eu quisera saber em que ela pensa,
Esta mimosa e santa criatura
Quando indeciso o seu olhar procura
Alguma estrela pelo Azul suspensa;
 

E que tristeza, indefinida, imensa,
Do seu olhar na flama, ardente e pura,
Intérmina e suave se condensa
Como as brumas no Céu em noite escura.
 

Pobre criança! Que infinita mágoa
Punge-te o seio e te anuvia os olhos
- Benditos olhos sempre rasos d’água! -
 

Choras... E o mundo te oferece flores...
Deixa os espinhos, lágrimas e abrolhos,
Só para mim, que só conheço dores!

DOLORES
 

Já vão caminho no cemitério
Meus louros sonhos em visões negras,
E vão-se todos no Azul sidéreo
Como uma nuvem de toutinegras.
 

A noite de ontem levei chorando
Todo o passado de meus amores;
E o dia ainda me achou rezando
No imenso terço de minhas dores.
 

Vejo na vida longo deserto
Sem doce oásis de salvação.
Dentro em minh’alma, doida, chorosa, 
De pobre moça tuberculosa,
Cheio de medo, trêmulo, incerto
Bate com força meu coração.
 

E assim morrendo, coitada, aos poucos,
Convulsa e fria, louca de espanto,
Solto suspiros, soluços roucos,
Olhando as cruzes do Campo Santo;
 

Porque me lembro que muito breve
Leva-me a ele tanta dor física.
E dentro em pouco, branco de neve,
Verão o esquife da pobre tísica.

 

 

Breve Comentário Acerca da Temática Feminina Na Poesia de Auta de Souza

Prof. Dr. Jayro Luna

 

A poesia de Auta de Souza se destaca como uma das principais representações da poesia feminina no Brasil. Embora a poesia feminina tenha tido até o presente pouco espaço e repercussão na crítica nacional, isto devido a uma série de fatores hexógenos, não podemos deixar de comentar aqui e ali a riqueza dessa produção. No caso específico dessa poeta (ou poetisa) uma das características que me chama a atenção é o modo como se apresenta a figura feminina. Vários poemas têm nomes de mulher ("Dolores", "Lídia", "Antonieta", "Noemi", "No Álbum de Eugênia", "Angelina", "Benedita", "Clarisse", "À Eugênia", "À Júlia", etc.) Existem sim não poucos poemas com nomes masculinos, como "Renato", "Sylvio", "Irineu", mas são em menor quantidade do que os de nomes femininos. O comum de todos esses nomes é a associação com a infância. Em geral, são as personagens são apresentadas como crianças pobres, às vezes adoentadas, mas que ainda assim passam uma imagem de inocência e de pureza, como se tal imagem pudesse abrir uma janela mística para a compreensão do oculto, do que está além da realidade opressiva circundante. Em "Noemi", por exemplo, se lê: "Eu quisera saber o que ela pensa /  Esta mimosa e santa criatura / Quando indeciso o seu olhar procura / Alguma estrela pelo Azul suspensa". Em "Lydia": "Fica entre nós, irmã das andorinhas: / Deus fez do Céu a pátria das estrelas, /
Do olhar das mães o Céu das criancinhas.". Desse modo, a infância como signo da pureza da ingenuidade se concretiza na imagem de crianças, principalmente meninas de aspecto físico frágil ("Porque me lembro que muito breve / Leva-me a ele tanta dor física./ E dentro em pouco, branco de neve, / Verão o esquife da pobre tísica" - em "Dolores"). A morte parece rondar essas indefesas crianças assim como a pureza se vê constantemente ameaçada no mundo pela malícia e pela esperteza. É claro que podemos associar essa imagem com aspectos biográficos da poeta, que morreu jovem (com apenas 24 anos) final de uma angustiante luta contra a tuberculose que contraíra aos 14 anos. Mas um dos trabalhos de crítica mais profícuos é conseguir ver além do óbvio e apresentar uma contextualização ou abordagem ressignificativa da obra. No caso de Auta de Souza também podemos ligar essa imagem da criança frágil, doente com o estado social da infância no Nordeste no início do século XX em que o índice de mortalidade infantil era um dos mais altos do Mundo. Tais imagens de pureza, de ingenuidade transformam-se assim no retrato cru e real de uma situação de desamparo, de abandono e de marginalização. Em "Simbólicas", p.ex., a santa ao descer à terra resolve deixar uma lembrança de sua presença aqui e por isso coloca o perfume do paraíso nas flores ("As flores sabem falar... / A voz da flor é a ambrosia"), mas também se conota que este perfume é apenas uma tênue mostra do que a criança encontrará no céu: "Quanta dor a boiar nos olhos das crianças, / Quanta gota a tremer no cálice das flores..." ("No Álbum de Eugênia"). Desse modo o Simbolismo presente na poesia de Auta de Souza contém os símbolos de uma forma que a ponte entre realidade e mundo oculto se faz numa contínua via de mão dupla, em que a realidade se vê constantemente criticada pelo mundo simbólico e nessa crítica se percebe como o Simbolismo pode ser mais participante e analítico da realidade do que o oportuno engajamento de ocasião.

 

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