ORFEU SPAM 13

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editor: Jayro Luna

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, abril / maio / junho de 2006.

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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Sessão Pim-Ball: Poesias de Mão Branca, Juliana Oliveira, Artur Gomes, Leila Míccolis, Antônio Miranda e Cláudia Pastore

 

Jura secreta 12

(De: Artur Gomes)

a vida é jogo de risco
não fosse o mar são francisco
santa clara guaxindiba
praia dos sonhos sossego

ou fosse lagoa doce
o tempo matéria precisa
fronteira à vista pudesse

meus pés molhados na areia
prender o tempo eu soubesse
poema palavra marisa

meus olhos na lua cheia
o sol bateu meio dia
amor era quem fazia

beija flor na rosa amarela
grafite - arco íris - jasmim

stela em sua janela:
nada sabia de mim

Long Hair

(De: Cláudia Pastore)

O meu cabelo cresceu
E não viestes
Do fundo do mar
A me ensinar
Sobre os segredos
Do amor

Os meus olhos
Secaram
E não recolhestes
O orvalho da relva
Para mim

Por que de tão só
Submersa em poemas
Este destino sem fim?

Por que não me apresentas
Tua face
Oh! Deusa loura
Das sete faces do amor?

 

Geração Inde(x)pendente

(De: Leila Míccolis)

 

Em vez de me deitar na cama,
resolvi criar fama.
E aí comecei a fazer versos, a mendigar editores,
como se eles fizessem grandes favores
em nos publicar...
E de tanto batalhar, virei... poeta
— um grande passo em minha meta,
porque em poetisa todo mundo pisa.
E quando me consideraram menina prodígio,
consegui que um crítico de prestígio
analisasse minha papelada.
Ele deu uma boa folheada,
pensou, pesou e sentenciou:
— "Incrível... não tem nível..."
Juro que fiquei com muita mágoa
porque, afinal, quem precisa de nível
é caixa d'água..

 

O ENIGMA DE PORTINARI

(De: Antonio Miranda)

Quando eu era menino
via as coisas maiores do que eram
mas fui crescendo e as coisas também
e são cada vez maiores
- paradoxalmente – maiores do que são!

Em tom enfático, ou emblemático
eu vejo o nosso Cândido Portinari
magnificando nossas mazelas
para que elas se tornem inteligíveis.

No Realismo Soviético de seu tempo
os intelectuais tinham cérebros gigantescos
e os trabalhadores exibiam musculaturas
desproporcionais.

Portinari ensinou-nos a lição
pela exacerbação da realidade
para reduzir-nos à nossa real dimensão:

mas não é demais reconhecer, em contraposição
que o nosso Ego é sempre maior que o Eu.

Entendeu???


Chácara Irecê, l8/9/2005

Cinco de Dezembro - (De: Juliana Oliveira)

 

Cinco de dezembro,

Dia da ruptura...

Será o fim da inocência?

E por onde andará a consciência?

 

Cinco de dezembro

Rima com onze de setembro,

Dia da tragédia coletiva.

Cinco de dezembro:

Eis a tragédia subjetiva.

 

Cinco, que antecede seis,

Seis de dezembro,

Dia do terceiro mês!

Neste dia, comemoremos

A ignorância da inexperiência,

Que, como presente,

Recebe apenas os espinhos do que era flor...

 

Setembro, outubro, novembro...

Vem, dezembro, traga o cinco

E, junto dele, a lembrança

Dos sonhos nutridos

Pelo ar de primavera de setembro,

No qual uma flor

Começara a desabrochar...

 

 
Uma coisa que gosto é mixórdia e que detesto é falastrão. (De: Mão Branca) 

Uma coisa que gosto é mixórdia.
O garoto conheceu a prima de uma amiga, engraçaram-se e entabularam um breve
romance. A moça voltou para sua cidade e o garoto, como todo homem, contou
os detalhes do flerte aos amigos. Os acontecidos e também os que não
aconteceram.
- Seu mentiroso. - A amiga o acusou. - Você falou que transou com minha
prima.
O rapaz congelou. De alguma forma a amiga soube de suas lorotas.
- Não foi bem assim. - Respondeu ainda sem saber o que dizer.
- Então como foi?
Sua mente trabalhou tão rápido que temeu queimar alguma pestana, porém
elaborou um plano perfeito de escape.
- Foi um truque. - Tentou usar sua voz mais calma. - Um ardil.
- Anda, explica!
Enrolou um pouco, para atar os nós da desculpa.
- O negócio é o seguinte: tenho três amigos e desconfiava que um deles não
mantivesse segredo das coisas que eu contava. Assim, para cada um contei
detalhes diferentes da história com sua prima. Se vazasse, pelo detalhe que
aparecesse eu saberia quem abriu o bico. - Ele respirou e esperou para
finalizar. - Foi isso.
A amiga sorriu.
- Muito bem bolado. - Olhou para o fundo dos olhos do rapaz. - Mas para qual
dos seus amigos você contou que havia transado?
Ela o colocara numa sinuca. Ele nem desconfiava quem tinha contado sua
mentira para a amiga e, se errasse a resposta, seria humilhantemente
desmascarado.
- O Deco. - Chutou o amigo mais falastrão.
A garota sorriu novamente.
- Certo? - Ele perguntou com uma quase imperceptível dúvida na voz.
- Bem, - Pausou antes de falar. - você é quem preparou a armadilha. - E nada
mais disse, afinal, a dúvida estava na voz do rapaz e não na sua.

Uma coisa que detesto é falastrão
- Vamos almoçar? - Perguntou-me o colega.
- Não! Você fala demais. - Lasquei seco.
- Credo! - Assustou-se. - Bastava dizer que não tava com fome...
- Calma. - Tentei explicar. - Não é uma crítica. - Não? - É apenas uma
constatação. Você fala muito e eu gosto de ler no almoço.
- Ah, tá. - Fingiu convencer-se. - Vamos almoçar? - Perguntou para a
secretária, que ouvia nossa conversa.
- Sai pra lá, falastrão, ninguém te agüenta. - Fugiu a mulher.
Ri e concordei. Não agüento gente que fala demais. Tanto no detalhe quanto
no assunto. Tem coisas que não só não preciso saber como não quero.
Deixem-me em paz com meus pensamentos, eles são mais interessantes.
- Minha mulher, cara, nem te conto... - Continuou o colega após o almoço.
- Ok.
- Ok o que? - Olhou-me interrogativo.
- Ok, não me conte.
- Mas não quer saber? - Sua voz era sincera.
- Você me ouviu perguntar alguma coisa?
Depois disso ele ficou amuado, andando pelos cantos, taciturno. Passou dois
dias meio choroso. No terceiro perguntei como estava a vida.
- Cara, minha mulher, nem te conto... - Parou e me olhou como se lembrasse
de algo. Fiquei propositadamente calado. Ele continuou. - Ela tá me deixando
louco. Noutro dia ... - E discorreu longamente sobre a morte da bezerra, ou
sobre aquilo que falasse, pois eu já não o ouvia. Com meu tácito
consentimento ele voltou a tagarelar. Uma necessidade, compulsão, que não
consegue conter. Falastrões não são más pessoas, pelo contrário, são tão
simples que não conseguem dialogar com os próprios pensamentos, precisam
ouvir a própria voz para entender-se, como se escutassem alguém lhes
contando sobre a própria vida. Gosto de pessoas simples.
Mas os falastrões continuam muito chatos.
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