ORFEU SPAM 13

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editor: Jayro Luna

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, abril / maio / junho de 2006.

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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Sessão Metamoderna: Poesias de Jayro Luna

 

Demoiselle

                A Sacadura Cabral, Marcos Pontes e Bartolomeu de Gusmão

“Santa Clara, clareai / Estes ares. / Dai-nos ventos regulares, / De feição.” Manuel Bandeira, “Oração Para Aviadores”.

“Inda até hoje eles pensam / que Santos Dumont é francês.” Murilo Mendes, “Homenagem ao Gênio Francês”.

 

Veja uma pequena obra-prima

Da história do sonho de Ícaro,

Belo e leve quanto uma rima,

Desafiando os céus como um pícaro...

 

Suspenso em cordas de piano,

E longarina de bambu,

Tecido em seda o aeroplano

Mais delicado que o céu azul...

 

Vôos de Saint Cyr ao Wideville

Nesta alva diminuta célula

Faz Santos Dumont um desfile

 

De graça e suave, uma umbélula,

Dutheil et Chalmers: um Aquiles;

Primeiro reide du’a libélula...

 

Sindicato do Crime

            Para Jorge Mautner, Baudelaire e Nietzsche

I

Sou filiado a uma facção criminosa,

Faço tráfico de idéias e de versos,

Nossa organização é mafiosa,

E atacamos de modo perverso!

 

Incendiei o ônibus dos Beatles,

Lutei a la Stones in Street Fighting Man!...

Participei de vis macabros ritos,

Queimei bandeiras de outros clãs!...

 

Já preso na cela da realidade,

Com um celular comandei assaltos

Às pobres bibliotecas da cidade

 

Para que queimassem os bíblicos livros!

Em minha ciência a violência exalto,

Se aos livres prendo-os, já preso me livro!

II

Sou filiado a uma facção criminosa,

A dos Poetas das Cantigas Cruas,

E anarquistas, nossa loa venenosa,

À milícia dos críticos nas ruas,

 

Buscamos atingir com molotovs,

Fechamos escolas, débeis arcádias,

E arrombamos ‘té cânones imóveis!...

E à Igreja e Nação, o Caos invade-as!...

 

Porém, seja só isto sutil metáfora,

Porém, seja só isto uma metonímia,

Porém, seja só isto breve anáfora!...

 

Meu crime é escrever a antinonímia

Da realidade violenta que há cá fora,

Mudando os acentos du’a heteronímia!

 

O que é a Metamodernidade?

O que chamo de Metamodernidade é o conjunto de idéias que giram em torno de dois pólos básicos – estrela dupla de minhas concepções estético-filosóficas – em que esses dois pólos são definidos por:

a) – conceitos diversos de Arte Poética;

b) – sistemas de recuperação de informação estética.

Pelo pólo "a" entenda-se que desde os ideais gregos e dos épicos de Homero, a poesia tinha através de diferentes épocas somado um conjunto de conceitos sobre si mesma, somados aqui com um sentido mais cronológico que qualitativo e quantitativo, pois sob diversos aspectos é discutível se uma obra recente seja melhor ou pior que a antecessora, ou a de séculos passados. Aliás, bom e mal não se aplicam senão como redutores ideológicos de uma análise estrutural e maniqueísta da descontextualização dessas obras. É nesse ponto que se faz necessário a compreensão do segundo pólo da metamodernidade. A análise de um produto estético só se faz completa mediante a escolha adequada de elementos que repertoriem a obra objetivamente, no entanto, pela disparidade de processos e escolas existentes, uma obra pode ser repudiada por uns e aclamada por outros. Discussões que no fundo só acabam em igrejinhas e frases-happenings. Exige-se um procedimento (a metamodernidade) em que tanto o criador (artista) quanto o crítico (leitor) tenham um parâmetro: a formulação de repertórios compatíveis. Compatibilidade essa definida por elementos tradutores na obra, estes constituem as ferramentas básicas para recuperar informações no âmbito da apreciação estética, da percepção para a análise perceptiva. A leitura estética é sempre uma tradução transcriativa. Tradução do artista para a obra, da obra para os sentidos do leitor, dos sentidos para o intelecto. Em todos estes níveis a tradução se realiza por elementos que caracterizam unidades de medida estética. Unidades com alta dose de imprecisão em operacionalidade matemática, mas no nível do intelecto é possível que tais unidades se coadunem num repertório conciso, característico da mente humana, fruto de uma busca em fontes adequadas de informação. Mas isso já é assunto de outro escrito... Por ora deixo a pista: Sistema.

(originalmente publicado em Bat-Girl e Biblioteca de Gotham City. São Paulo, edição do autor, 1991. Também editado em LUNA, Jayro. Participação e Forma. São Paulo, Epsilon Volantis, 2001, p. 204-205).

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