ORFEU SPAM 13

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editor: Jayro Luna

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, abril / maio / junho de 2006

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

Voltar  

   Home Page

  Capa Orfeu Spam 13  

   Home Page

  Avançar

Sessão Marginália: Márcio Almeida

Márcio Almeida nasceu em Oliveira - MG, 1947. Formado em Letras, atuou como jornalista.

Em 1964 cria o grupo VIX com Hugo Pontes, Márcio Vicente e Waldemar de Oliveira. No ano seguinte sai a revista ReVIXta. Em 1977 Márcio Almeida vence o concurso Emílio Moura de Poesia. Entre suas publicações, destaco os livros Assassigno (1986) e Falúdica (1987). No mesmo ano a Revista Dimensão (n.° 15) tem capa com reprodução de seu poema visual "Orwelhas Negras". Na década de 80 desenvolve o conceito de "didEYEtica" que é uma análise do poeta dos elementos importantes do processo de abordagem da poesia visual: "A didEYEtica tem por intenção pôr o poema em trânsito, itinerante, espetacular e mallarmaico, fora da gaveta (não inédito), fora do espaço livresco."

A poesia de Márcio Almeida é marca pela invenção vocabular, pelo trocadilho, pela blague e pelo inusitado da montagem verbal em paradigma e sintagma. Poesia da constante desconstrução canônica, mas também da constante referência e intertextualidade. Márcio Almeida nos apresenta um panorama do poema maldito, do poeta excluído e marginalizado, mas que utiliza essa própria marginalidade como energia criativa, como contestação - não apenas do sistema político e ideológico - filosófica e poética da condição humana.

 

ASSASSIGNO

NAS FILEIRAS DAS ESTANTES

S-OBRAM PALAVRA E TRAÇAS:

NÃO REVERSE O VEIO DANTES

E POR MELHOR QUE O FAÇA.

 

A LINGUAGEM SÓ SE INVENTA

E JOGA COM DADO LANCE:

NÃO POETE DE REQUENTA,

POR MAIS ILUSÃO ALCANCE.

 

NÃO AMARELE ROLLS-JOYCE,

NÃO FAÇA MALLARMELADA,

NÃO EUFEMÍSSIL A COICE,

E NÃO CANTE POR CANTADA.

 

NÃO REBOQUE BARROCÁVILA,

NÃO CONFISQUE MAIS DE CLÁUDIO,

NUNCA RE(X)CLAME DAH! VIDA,

NÃO SE CORROMPA POR GÁUDIO.

 

NÃO PANFLETEIE IDEOLOGIA

NÃO HOLOGRAFE EM ATARI,

NÃO LOVERSONHE AS MARIAS,

NÃO PALAVRE: SIGNATARI.

 

NÃO VENHA COM REQUEVEDOS,

NÃO LENHE EM TOM DE GREGÓRIO,

NÃO ORDENHE OFÍCIO DO AEDO,

NEM PÚBLICO NOTÓRIO.

 

NÃO SAQUE A 45,

NÃO INVERSE POEMA-PROCESSO,

NÃO USE MEL, GOMA OU, EM VINCO,

DIVÃ-GUARDE RETROCESSO.

 

NÃO PROVENCIE A GOLIARDO,

NÃO REENLOQUEÇA OS AR(T)NAUDT,

NÃO FAÇA DA FALA FARDO,

NÃO INSUME COM O COCÔ.

 

NÃO VÁ, NÃO FIQUE NA ONDA,

NÃO CÁIA NAQUELE OU DE PORRE,

NÃO REFAÇA PLAGIOCONDA,

NÃO SUJE O MARFIM DA TORRE.

 

NÃO PUBLIQUE O POETEGO,

NÃO BAJULE A PANELINHA,

NÃO SE DESENHE DE CEGO,

NÃO FALE NAS ENTRELINHAS.

 

NÃO TRADÚZIA O NEO DOS CAMPOS,

NÃO ANTIUGUE BACHSTIANUNES,

NÃO ENTRE - LINGUAGEM É GRAMPO,

NÃO JULGUE A POESIA IMPUNE.

 

NÃO OSWALDOLATRE PERJURAS,

NÃO VÁ DE BANDEIRA-DOIS,

NÃO RELATE AS ESCRITURAS,

NÃO ESQUEÇA DO NOME AOS BOIS.

 

NÃO LERÊIE POUNDERAÇÃO,

NÃO GELÉIE DE CUMMINGS-KAZE,

NÃO REESTRÉIE RIMAR EM ÃO,

NÃO COQUETÉIE A NOVA FASE.

 

NÃO SE DISTRAIA, LENDO VICO,

NÃO SE TRAIA, SENDO OVÍDIO OU

SUBTRAIE OBRA DO PINICO,

NÃO VAIE NUNCA VERSUICÍDIO.

 

NÃO BISSEXTE PELO RETO,

NÃO SE ILUDA SEM VER GÍLIO,

NÃO DISCURSOBRE O CONCRETO,

NÃO PURGUEVARA OU IDÍLIO.

 

NÃO ALMAMINHE VAZ CAMÕES,

NÃO REDOBREGUE HUIDOBRO,

NÃO PROSOPOPEIE OS SERMÕES,

NÃO ESTRUTURALIZE O ADOBO.

 

NÃO TRANSUJE O BALNCO-PAZ,

NÃO URBANIZE JOÃO CABRAL,

SEJA PER-VERSO: ABRA O GÁS,

E CHEIRE AS FLORES DO MAL.

 

NÃO DRUMMONDEIE SUBSTANTIVO,

NÃO SE CORDEIRE EM ESCOLA,

NÃO ACADEMIZE LEDIVO,

NÃO STANISLAUDA O QUE ASSOLA.

 

NÃO SUGARANA DE ROSA,

NÃO CHANTEIE A ÉLUARD,

NÃO DIZ QUE A ROSA É ROSA,

NÃO LIBERTE QUE SERÁ TARDE.

 

NÃO DÊ UMA DE ALCAGOETHE,

RESOUSÂNDRADE O DISCURSO,

NÃO BEST-SELLER OU VERBETE,

NÃO DESMAIAKOVSKI OS RUSSOS.

 

NÃO ENVIE DESC-ARTE POSTAL,

NÃO DEIXE DE RE-LEMINSKI,

NÃO DERRAME ODE EM SARAU,

DÉCUBO-VERSAL, KANDINSKY.

 

NÃO PSEUDOGRAFE PESSOA,

NÃO FREUDELIRE BRETON,

NÃO ESCREVA, A SÉRIO OU À TOA,

NÃO UNTE A LÍNGUA DE BATON.

 

NÃO FAÇA KILKERRELEASE,

NÃO PASSE POR ELIOTÁRIO,

NÃO (SE) BANALIZE EM SILK,

NÃO SUPLEMENTE LITERÁRIO.

 

NÃO PASSE REPLEI, DESISTA,

NÃO HÁ VÍTIMA OU LIÇÃO:

VERSEJAR, ORA!, NÃO INSISTA,

O MELHOR POEMA É O NÃO.

 

 

OU LIXO OU A KG

 

O FÁCIL E O MÍSSIL

O POEMA DE PIJAMA

BANDIDISMO DE ESTILO

LITERATURA MUCAMA

CONTRA-VERSÃO DE ÉSQUILO

OBRAS-PRIMAS DE FALSÁRIOS

E VAMPIROS DE NEURÔNIOS

CRITI-KIT & PANFLOTÁRIOS

RIMANTES D'AMOR & HORMÔNIO

DISTOPIA DO PARADOXO

DISCURSISMO -IGREJINHA

SACOF´CIO ORTODOXO

PASTORES & ALMAMINHAS

 

 

 

DISCURSO DO SIGNO

 

Eu, signo, signor,

digo e assigno

embaixo

sobre a morte de Sonetho:

afogado em um tacho,

morto por um concreto.

Eram velhos os mitos, os tropos e os nomes,

aves epicuras, bruxos e epicestos

trágicos na funda canção da fome

do gentio das neuras, absurdo e no cabresto.

Lógico, diria Platão republicano,

que o mito seja dados aos da infância.

Eis que Nool restaura a fala e os danos,

que a vida não tem eternidade de herança.

 

 

FILOSOEMA

 

NÃO À FÁCIL LEITUREBA

AO OLHO GORDO & VIDIOTA

A FALA NÃO É AMEBA

POEMA NÃO É LOROTA

NÃO À FÁCIL LEITERÁRIA

AO MOLHO DO VÃO REQUENTE

POEMA NÃO É MARIA

ONETE VAI COM A GENTE

NÃO À ROTINA DO FASCISMO

DE GIGOLÔS DOS ESPELHOS

POEMA NÃO É UM ISMO

A FALA VEM COM PENTELHOS

NÃO AO FÁCIL LIVRO IMPRESSO

À EDIÇÃO DA VA(N)IDADE

POEMA NÉ REPÓRTER ESSO

NEM DEUS DE QUALQUER VERDADE

NÃO À MÍDIA BESTEIROL

CARTAZÓIDE & PANFLOTÁRIA

POEMA NÃO É TAROL

POETA NÃO TEM SALÁRIO

NÃO AO AFAGO DO ELOGIO

ÀS TETAS HERMENEUTAS

POEMA: FALA SEM BRIO

POETA: METAPHUDEUTA

 

 

 

 

 

 

 

BH, 27, DEZEMBRO DE 86.

Meu caro GALLAHADE [pseudônimo de Jayro Luna],

                          muito grato pela publicação de "OU LIXO OU AKG", no "MG", o xeropoético penetrável. Hoje, em anexo, exemplar pra você do ASSASSIGNO, recém-lançado, aqui em Bh, pela Arte-Quintal, que é pra você, se possível, fazer uma leitura e uma puta chamada pra moçada fazer o pedido (meu endereço); o livro custa 100 cruzados.

                          E o que é ASSASSIGNO? Uma discriminação poética, depois de 22 anos de luterária, das linguagens-exemplos que ser-viram nem ser-vís, do barroco de Quevedo ao concreto de Augusto de Campos. Livro-linguagem de reabilitação e de reavaliação da "tradição do novo" (via Affonso Ávila), na inovação. Metalinguagem contra o toteslismo lingüístico do poema beco-sem-saída de si mesmo e a mesmice da camõenidade literária. Poesia sobre poesia.

                        Considerando, p.ex., que "há uma gota de sangue em cada poema" (Mário de Andrade), a intenção é chegar a conclusões profundas, como a de o poeta ser "operário das ruínas" (Augusto dos Anjos), de ser necessariamente o assassigno na luterária para surpreender a emoção sob o estigma do precário, do transitório, impetrando sua "estranha potência" (C. Meireles) como a única arte - a poesia - a recusar-se a ser mercadoria.

                        Octavio Paz diz que "o poema acolhe o grito, os trapos vocabulares, a palavra gangrenada, o murmúrio, o ruído e o sem-sentido; não é o homem que pergunta; a linguagem nos interroga."

                        ASSASSIGNO é isto aí.

                        Muita força, muita energia em 87.

                       Abração e agradecimentos por sua atenção poética, de mídia e tanto.

 

 

Voltar  

   Home Page

  Capa Orfeu Spam 13  

   Home Page

  Avançar