ORFEU SPAM 12

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editor: Jayro Luna

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, janeiro / fevereiro / março de 2006

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

Voltar  

   Home Page

  Capa Orfeu Spam 12  

   Home Page

  Avançar

Sessão Marginália: Antônio Miranda

Antonio Lisboa Carvalho de Miranda é maranhense nascido em 5 de agosto de 1940. Membro da Academia de Letras do Distrito Federal, foi colaborador de revistas e suplementos literários como o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil e também o La Nación (Buenos Aires, Argentina) e Imagen (Caracas, Venezuela). 

Professor e chefe do Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília, Brasil, ministra aulas e cursos por todo o Brasil e países ibero-americanos. Também é consultor em planejamento e arquitetura de Bibliotecas e Centros de Documentação. 

Doutor em Ciência da Comunicação (Universidade de São Paulo, 1987), fez mestrado em Biblioteconomia na Loughborough University of Technology, LUT, Inglaterra, 1975. Sua formação em Bibliotecologia é da Universidad Central de Venezuela, UCV, Venezuela, 1970.

Poeta, escritor, dramaturgo e escultor,  já publicou romances, poesias e peças para teatro (gênero pelo qual é conhecido lá fora) em vários países. Em 1967, por decisão própria, exilou-se para viver intensamente um período de efervescente agitação cultural na América Latina, dedicando-se à produção literária e artística. Sua criatividade foi reconhecida com prêmios pela crítica internacional (Medellin - Colômbia, San Juan de Puerto Rico). Miranda viveu e publicou em Buenos Aires (Argentina), Caracas (Venezuela), Bogotá (Colômbia) e Londres (Inglaterra). Tu País Está Feliz, peça de teatro estreada em 1971, foi representada em mais de 20 países  e só publicada no Brasil em 1979. 

 

AUTO-RETRATO

 

Às vezes sou um, às vezes sou outro:

todo mundo é assim, ou é assado.

 

Eu, sem fugir à regra, transgredi.

 

Fui, ao mesmo tempo, eu e o outro

-um para dentro, outro para os outros

mas, confesso, sou igual a todos

num disfarce que é a outra face

de uma falsa dicotomia.

 

Nem religioso eu sou, nem romântico ,

muito menos ideólogo ou assumido

de qualquer coisa, na minha infidelidade,

falta de fé. E, no entanto, obstinado

quase otimista porque realista

-na reversão da contradição.

 

Sou um pouco o Orlando da Virginia Woolf

o Patinho Feio disfarçado de Dorian Gray.

 

Li uma montanha inexpugnável de livros

tentei reescrevê-los, sem qualquer humildade

subi, letra a letra, degraus estonteantes

delirantes, construindo arquiteturas etéreas

 

no círculo vicioso das virtualidades banais.

 

Deveria rasgar todas as frases deletérias

todas as imprecações, todas as contrafações

verbais e venais que produzi – lixo execrável.

 

Deveria envergonhar-me de minha falsa polidez

de minha insensatez, minhas impropriedades

mas sempre tenho a firmeza dos inseguros

enquanto os crédulos, os convictos

não resistem às próprias contradições.

 

Transgredi mas, juro, apenas verbalmente.

No mais, sou casto na minha perversidade.

Sou beato na minha mais íntima heresia.

E mais despretensioso do que a minha soberba.

 

 

Deu para entender? Nem Deus pressente

aquela dor que finjo que deveras sinto

ao plagiar aquele poeta que nem mesmo venero.

 

MEU NOME

Antonio, menino, vamos conversar:
por que foges do castigo, se ele vai te alcançar?

 

Prá que tanta rebeldia, socando ponta de faca?

 

Aonde te levam estas pernas de caminhar

tantas fugas, recusas, tanto ensimesmar?

 

Antonio, menino, por que blasfemas?

 

Que te leva ao prazer do sofrimento

ao pensamento avesso ou travesso

a contradizer o sim e a reiterar sempre o não?

 

De onde vêm estas idéias de suicídio

enquanto amas saturado e satisfeito?

 

Tantas páginas escreves! Tantas leituras

apressadas, tanta angústia de ser

tantas perguntas impossíveis, desejos

sonhos absurdos, planos inconseqüentes!

 

Que amigos são esses que não voltarás a encontrar?

Que lugares tu buscas que deixarão de existir?

Que amores te queimam que se vão dissipar?

Que idéias te movem que logo vais superar?

 

Acaso essa birra vale o que a motiva?

 

Frente a frente, somos dois desconhecidos

que se negam, contradizem, se acusam.

 

Espelho maldito a revelar o nosso estranhamento.

 

Não me acuses do que não fostes capaz!

Nada sou daquilo que pretendias ser!

 

Nunca fui amado tanto quanto querias!

Nem amei tanto quanto querias que eu amasse...

 

Antonio, por favor, reconheça o teu fracasso

e deixa espaço para eu existir

sem ter que justificar-me diante de ti!

 

Deixa eu ser feliz no meu conformismo

- de achar que tenho o que mereço

enquanto tu deliras e deliras!

 

Por que estragas o meu sossego tão frágil

azedas a minha felicidade tão precária?

 

A partir de hoje o meu nome é Outro.

 

BORGES

Para Elga Pérez Laborde

I

No labirinto dos espelhos

por caminhos multiplicados

ao infinito; lá no fundo

ou no começo.

 

Onde o tempo e o espaço

se confundem, porque

coexistem memórias

do olvido.

 

Em território ampliado

extensivo, além dos planos

e altiplanos sucessivos,

transformados.

 

Paisagens mutantes, antes

miragens, talvez passagens

ou descaminhos entre tudo

e o nada absoluto.

 

Lá está aquela máscara disforme

que encobre uma outra face

que oculta outras tantas mais:

metamorfoses.

 

Desvendamentos, desvelamentos.

Excertos, estratos, desconcertos.

Um ser que não mais existe,

nunca mais.

 

Ou que existe em transição.

Um ser de superfícies, camadas

numa couraça de resistências

impossíveis.

 

II

Um ser em que não me reconheço

que em sendo deixa de existir

que não tem começo e nem

princípio(s).

 

Um ser em precipício, levitando

sobre os espaços e os tempos

de um esclarecimento - o sentimento

do universo.

 

Num território de realidades

que seriam transfigurações

encontro Borges, onírico, flutuando

entre as palavras.

 

Ou pelos sentidos, pressentimentos

pairando sobre mitos e ruínas

latentes, no sentido dos sonhos

consentidos.

 

Referências, transparências,

transcendências. Sonhos sonhados

ou ruminados, ou imaginados,

essências.

 

Borges confessa: a realidade

não interessa; sua visão

perpassa as tessituras

do fabulário.

 

Na ceguidade iluminada

- origem e devenir das formas -

ele me vê bem além de mim,

ele se vê.

 

Eu não consigo vê-lo, apenas

me aproximo de sua substância

de símbolos e de significados

- se isso é possível.

 

Ele dialoga com os mortos

e enxerga além das evidências

e, negando a própria existência,

nos descobre.

 

Pois é de descobertas e dessassombros

que construímos nossos espelhos

no labirinto infinito e imperfeito

das revelações.

 

Como Dante e seu Poeta preferido

indo aos epicentros da condição

humana, às suas projeções

e representações.

 

Com Borges, o mago, o vidente

um pré-socrático, um demiurgo

um transgressor por via dos questiona

mentos.

 

 

Obras de Antônio Miranda:

 

Canções Perversas
Libreto com os poemas e as letras das canções do recital lírico-musical "Canções perversas". Texto-programa do espetáculo. Brasília: Thesaurus, 2005. 32p. Ilustrações de José Campos Biscardi. Leia texto integral.  

Retratos & Poesia Reunida
Livro com poemas recentes e outros de fases anteriores que estavam dispersos em publicações avulsas. Apresentação de Xavier Placer, poeta e membro da Academia Niteroiense de Letras (RJ). 1ªEd. 104p.Livro de poesia. Brasília, Thesaurus, 2004. Patrocínio do Fundo de Amparo à Cultura - FAC/DF. 

São Fernando Beira-Mar
 A primeira edição (2004) da coleção de cantigas de escárnio e maldizer da série "Leia e passe adiante", lançada pela Editora Thesaurus. É pra ler, dar risada ou chorar e passar para quem precisar saber... 
San Fernando Beira-Mar - versão em castelhano com tradução de Sofia Vivo

Perversos
Perversos é uma experiência de conjugação de sentidos e formas sem pretender ser ideogramática, partindo da sensação para a formulação verbal, palavras coisas, substantivadas, para serem lidas, salivadas. Escritas numa simulação de iras e humores, de possessões e fugas, numa intimidade com os ritmos e volumes das palavras mesmas porquanto o poema é uma realidade vivencial na sua criação, o poema instaura se no mundo como algo que se pode manipular, usufruir, fantasiar, consumir e participar o poema é sempre lúdico e ditirâmbico, algo hedonista, alienante e paradoxalmente também denunciante. Umas vezes sugere, noutras é óbvio, mas o universo da leitura é também o da recriação, depende de nossa capacidade de apreender, da nossa própria abertura e tolerância. 1ªed. 2003. 93p.R$ 25,00

A Senhora Diretora
As três primeiras histórias de A Senhora Diretora desenrolam-se no âmbito de repartições ligadas ao livro– bibliotecas, fundações de fins culturais– e suas personagens são bibliotecários, professores, assessores. Mas o livro não é monocórdio. Variam os ambientes. O mais belo dos contos será, talvez, Atemporal – resgate de situação feliz perdida nos idos da juventude. Rivaliza com ele Memórias de Adolescente ou As Confissões do Absurdo, sobre as incertezas e os descobrimentos da iniciação sexual, com destaque para as variações biolingüísticas do Autor a partir do verbo –de sua invenção– aindar. O penúltimo, Happy Hour, Happy End, é um mélange curioso e fantástico das histórias anteriores. Funciona como fecho, pois o último conto, Memória da Pele, é, embora isso não se explicite, reclame do próximo livro, que se prefigura da qualidade deste – forte e ressumante de vida. Brasília, Thesaurus, 1a Edição, 2003, 150p. Ilustrado. 

Canto Brasília
Brasília: Thesaurus, 2002, 93p. Livro de poesia em edição especial comemorativa do centenário de Juscelino Kubitschek. 
Horizonte Cerrado
Brasília: Thesaurus, 2002, 143p. Novela publicada sob os auspícios da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal - FAC/DF, .
Manucho e o Labirinto
São Paulo: Global, 2001. 182p. Romance centrado em diálogo com o escritor argentino Manuel Mujica Láinez. 
Brasil, Brasis.
Poema-livro composto de 7 Cantos revelando impressões e visões de um país de contradições e valores em conflito, em que a ira e o humor tecem imagens e idéias em torno de nossa "unidade na diversidade". Publicado durante as comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. 1ªEd. 1999. 72p.Livro de poesia. Brasília, Thesaurus, ilustrado. R$ 15,00. 
Tu País Está Feliz
Brasília: Thesaurus, 2001, 94p. Poemas originai,s nas versões portuguesa e espanhola, com edições na Venezuela, em Porto Rico e no Brasil. . O espetáculo musical baseado nos textos apresentou-se em muitos países.Décima Edição Comemorativa dos 30 anos do lançamento original.
Relógio, não marque as horas: crônica de uma estada em Porto Rico 
É segundo o autor "Um texto profundo sobre coisas superficiais, uma obra irresponsável sobre questões sérias". Irônico com sua própria geração, Miranda aposta (debochado) numa literatura cheia de sutilezas e bom humor. Vale a pena conferir o texto de uma obra esgotada no mercado livreiro.

Brasília, capital da Utopia: visão e revisão
Uma visão ampla de aspectos pouco tratados na literatura sobre Brasília, até à retomada de Brasília pelo povo após a morte de Tancredo Neves. A rica bibliográfica muito ajudará todos os que desejam ter uma visão completa do que foi e do que é a Capital de Brasília. 1ª 1985. 233p.Brasília, Thesaurus, 1993, ilustrado, 223p.R$ 22,00

A quadratura do Ó; ou a maravilhosa história do fanzoca que idolatrava Emilinha Borba. Romance com capa de Inácio da Glória. 
Um texto irreverente e provocativo centrado nas figuras de travestis que vivem suas vidas marginais desde os tempos dos programas de auditório da Radio Nacional (Rio de Janeiro) até a repressão do movimento militar de 1964, onde surge o personagem Mércio que, depois, continua no romance Horizonte Cerrado (ver). No julgamento de um crítico, é um texto almodovariano antes do surgimento do próprio Almodóvar.

Calzoncillos con Nubes o si prefieren SOS Colombia. 
Poemas e textos originais do espetáculo musical montado na capital colombiana em momento conturbado da vida política do país vizinho, com ameaças partidas de grupos militares e da extrema esquerda para impedir a estréia, por causa de seu caráter um tanto anárquico conforme os padrões doutrinários do período. Bogotá: Teatro Popular de Bogotá, 1973. 

Jesucristo Astronauta; auto sacramental sobre lo profano y lo divino.Texto inédito utilizado na montagem de espetáculo musical montado por Carlos Gimenez para o grupo Rajatabla, de Caracas (Venezuela), 1972. O título original - La Consagrada Família - será mantido na versão em português.

De Creencias y Vivencias. Uma plaquete com o texto original do longo poema que depois foi transformado em programa de rádio pelo produtor venezuelano Napoleón Bravo, sob a direção de Ibrahim Guerra. Caracas, Venezuela. Tipografia Remar, 1969. 17p. Livro de poesias com capa de Carlos Poveda.

De Crenças e Vivências. (Versão em português)

La Fuga: anticuento. Tradução de Lucrecia Manduca. O anticonto com seu estilo vanguardista, de metalinguagem, escrito originalmente no Rio de Janeiro (1966) cujos originais em Português estão desaparecidos. Caracas, Tipografia Remar, 1969. 33p. Veja e versão em português: A Fuga

Cuerpo que los dias.Coletânea de poemas escritos entre 1958 e 1967, a maioria de viés mais líricos, outros de crítica social.  Poemas publicados em Caracas. Faculdade de Humanidades, Universidade Central da Venezuela, 1967. 31p.

Versos Itinerantes. Amazônia.Versos escritos a partir de uma viagem pela região amazônica no início da década de 60 do século passado, vertidos ao castellano por amigos do poeta.  Caracas, 1967. 61p. Com ilustrações de Rubem Chávez.
Vatemago. Poemas lúdicos verbo-visuais.

(Fonte: http://www.antoniomiranda.com.br)

Voltar  

   Home Page

  Capa Orfeu Spam 12  

   Home Page

  Avançar