ORFEU SPAM 10

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editor: Jayro Luna

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, abril/maio/junho de 2005.

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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Sessão Pop-Up: Fragmento e Paródia:

O Rum dos Piratas de Jayro Luna

Por: Simone Rossinetti Rufinoni

(Prof. de Literatura Brasileira na FFLCH/USP e na Fac. Guarulhos)

[artigo escrito acerca da obra publicada apenas parcialmente, O Rum dos Piratas. Dessa obra foi publicada a secção "Terra do Brasil" no livro Florilégio de Alfarrábio de Jayro Luna. O restante do texto permanece inédito. Simone Rufinoni teve acesso à leitura integral de O Rum dos Piratas]

 

Após inúmeras aventuras, os heróis anti-heróicos de Jayro Luna descobrem a história de um livro-mapa-enigma cujo entendimento leva a um tesouro perdido. Tal recompensa será dada àquele que desvendar o livro de enigmas composto pelo escrivão do navio do capitão James Lancaster. É assim que o livro "Terra do Brasil" entra na narrativa como mais uma peça no texto-jogo que é Rum dos Piratas, como mais um jogo dentro do jogo, mais um enigma dentro de outro enigma... sucessão de estratégias de encobrimento que ocultam a decifração e fazem das camadas superpostas de enigmas o eixo da obra. A decifração do livro-mapa levará as personagens ao tesouro, ao passo que a decifração do drama desafia o leitor a enfrentar o nível de interpretação. Mas a própria linguagem em alta voltagem formada de fatos, mitos, história e referências literárias afasta qualquer descobrimento fácil e erige o ponto de vista do jogo como centro, talvez insinuando que há uma só decifração e que o próprio jogo encerra uma camada opaca de sentido no não-sentido de um mosaico inquietante e perturbador.

A decifração levará também à confecção do último ato, deixado em aberto como que a sugerir que o enigma pode se fazer mistério e não ser mais desvendável ou a sugerir que a obra se constrói pelos leitores e pelo tempo que a fecunda ou a condena... Nesse passo caberia uma pergunta sobre a abertura final: não constituiria ela um descompasso ou passo em falso já que quebra a ordem do jogo e nos convida a outro tipo de jogo - fora do texto, próximo da vida? E, não seria esteticamente mais eficaz se o jogo continuasse e a forma fosse encarada até o limite como máscara, ocultamento, opacidade? Artifício que perfaz um mundo e exige certa estética da recepção que prefere o desafio da decifração à tão apregoada interatividade.

Nesta peça que não se pretende encenável, o fragmento aliado à paródia é o traço que norteia a composição do texto, num entrecruzar de referências que vai do Simbolismo aos elementos da Pós-modernidade, passando pelas vanguardas e pela poesia visual. A confecção do livro é da ordem do jogo no que este possui de blefe, história e encantamento. A posição iconoclasta e irreverente lembra o entusiasmo dos primeiros modernos, com o teatro de Oswald de Andrade à frente. se, por um lado, há nisso algo de anacrônico, o veio otimista é contrabalançado pelo sarcasmo e ironia que condena tudo - autores, frases e valores - a um princípio destrutivo e derrisório. O frenesi da linguagem algo futurista e da colagem cubista contrasta com o procedimento paródico da linguagem e da retórica do Simbolismo conseguindo um efeito de criação que discute a tradição literária e cultural do país e este é um dos feitos do livro: a literatura que se faz reflexão paródica sobre o sistema literário periférico. A intertextualidade freqüente - ora direta, ora camuflada - é marca de composição e está no cerne do procedimento paródico. Carnavalização cujos fragmentos apontam para uma espécie de estória cômico-fantástica do Brasil, de seus mitos e de sua história. No entanto, tal força crítica tende a esmorecer quando se rende aos jogos mais fáceis e um tanto fetichistas da poesia visual, concretismo anacrônico e ingênuo cujo risco é o da adesão acrítica aos objetos da cultura de massa e da publicidade.

"A poesia é uma estranha conspiração". Ao dizer isto, o texto nos alerta para o princípio de fraude que marca a literatura. Jogo, charada, enigma, mistério... E leva-nos a pensar quais as conseqüências da quebra do pacto de verossimilhança, ao permitir que a obra se faça blefe, embuste, máscara. E se, dialeticamente, a fraude não contém uma verdade oculta que é a do conhecimento crítico. Se, pensando com Barthes, o princípio da literatura é o da subversão da linguagem tida como estereótipo, a rede tecida pela paródia e pela imaginação de Jayro Luna nos faz mergulhar num denso universo de citações e transfigurações que entontece e, ao mesmo tempo, impressiona e fascina. A subversão, nesse caso, é antes a do conteúdo do que a da forma, mesmo que o autor insista na valorização dos recursos visuais. Ou melhor: do conteúdo que é forma, já que a paródia volta-se insistentemente para a linguagem. A ficção entendida como jogo contínuo e transformador, enfocando a tradição literária e histórica do país do ponto de vista da paródia, do humor e da ironia são elementos que dão à obra um lastro de originalidade crítica. Mas talvez, o autor devesse fazer mais concessões ao leitor, já que muitas vezes o enredo escapa, perdido nas camadas do intertexto.

A "conspiração" a que nos convida Jayro Luna é a de uma viagem pela intertextualidade literária, oferecendo do discurso cifrado e paródico, eivado pela ironia e humor, que continuamente vela e desvela os sentidos consagrados pela tradição.

(Ago/2001)

 

Trechos de "Terra do Brasil":

 

Os Portos

 

Regassem na dedirrósea manhã

Da Páscoa, os palemeirosos sentimentos,

Solitidunem – Saudade – não vã,

Findariam os lamentos.

 

Portos calmos entre recifes, baías,

Piratas de França em bizâncios-almas,

Do Nascente-poente Nassau recria,

E os ingleses às cinco dão palmas

Ao verdemar-helianto d’águas calmas,

Vêm naus Yankees que em custo te excedem,

Já o Germano afundou Itagibe em traumas.

 

Brasil: Falso Oriente erguido no Éden!

(...)

Tróia Negra

                        A Oliveira Lima.

 

Não morre Zumbi Gangazuma, Rei!

Palmares: Tróia Negra a coçar a barriga!

Lis Formation Historique

De La Nationalité Brésilienne!

Não havia nos seus terreiros

Nem Oliveiras nem Limas.

 

O Historiador carece de ser um artista!

Um Velho, um Vieira e um Sebastião

Unem-se para destruir o Sonho-livre-primeiro,

Liberdade-libertinagem... Sim? Não?

Rocha anunciou que os pretos pularam das rochas,

Pior o cativeiro do que tornar-se tocha!

 

Traído a 20 de Novembro por um mulato,

Entre os negros também há Judas,

Evoé Candomblé! Xangô! Catimbó! Salve Orixás!

Façamos macumba na mata do Saci-pererê:

Canhem babá canhem babá cum cum!

Lá longe a onça resmungava Uu! Ua! Uu!

 

(...)

O Paraíso

 

Estranho é o alvor-mistério

Do Paraíso. Nesta Terra

Onde mesmo quando há guerra

A morte é Festa e com sério

Pesar deglutem à Alegria.

 

Nesse extinto Paraíso

Zunzilando vêm de aviso

As aves das mais exóticas

Anunciando a estação caótica

De um clima em Polifonia.

 

Nas águas de espuma-vida

Cercadas de frase-aromas,

De flores desconhecidas,

Nas cores e olor sem doma,

Um sabiá conspiraria.

 

Tomem em consideração

A grandeza primitiva

Do primitivo: Razão

Outra de vida e nação,

Viva o Paraíso! Eia, Viva!

 

Trecho inédito de O Rum dos Piratas:

 

O RUM DOS PIRATAS

Prosa dramática Neo-Simbolista Cubo-Futurista

 

 

Jayro Luna

 

ATO I

Parte I

Calais

 

 

Cena 1:Laroz da alma...

......................

Marinheiro: - Sou só um traste, sob uma cega lâmina viking!

......................

Outro marinheiro: - Um lacre, uma parma que encilha uma ninfa nua e sob a chuva, bêbado de drinques, caio nas ruas...

.....................

Primeiro Marinheiro: - Trepado em seu próprio corno, numa graça desonesta, sou só um traste com marcas de cigarro na testa.

......................

Fantomas surgindo espectralmente por sobre os telhados, gargalhando ao desânimo dos marinheiros, começa a entoar uma canção. (Os marinheiros atentos à canção buscam descobrir em qual telhado o bandido mascarado se encontrava):

            - Só, pedante, qual cocheiro sem voz e cego, ao ar impuro e profano de um azul sendal, dia após dia, a vagar absorto como um rio de egos, um homem que a fuligem cinza-lhe por total. Um sonhador afeito aos olhos de um grego monumento tristonho agregado ao latim, um pierrô que fere a lira que eu mesmo nego,

mais um tolo vai ao rio até o pôr do sol ao fim.

            Os marinheiros reconhecendo a canção, entoam com a voz de Fantomas o refrão:

            - Velas ardendo nos castiçais entre nuvens, jambos tirados ao cabo dum sonho irreal de um frio espectro, um fantasma tonto no areal.

            Fantomas surgindo aos olhos dos marinheiros, que apontam o espectro com os dedos, e notam que o bandido tem numa mão uma espada e na outra uma garrafa de rum:

            - Bebo agora o vinho ácido de verdes uvas, outros tolos vão aos rios para lá afundarem, são como reis, como vodus a se espetarem

 

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