Sessão Marginália: Kether, de Fabio Ulanin

Fabio Ulanin, poeta e professor universitário, tem uma produção poética em que o jogo da linguagem se manifesta num cruzamento de significações algo vagas, imprecisas, como uma espécie de neo-simbolismo, diferenciando do próprio simbolismo pela liberdade com que trabalha as formas poéticas. Kether, seu segundo livro de poemas, editado em 1999 é um exemplo dessa refinada poesia. Com nota introdutória de Jonas Negalha, que a certa altura escreve: "Aberto a todas as fontes do saber exotérico e esotérico, Ulanin parece manter o equilíbrio do caminho do meio, entre o apolíneo e o dionisíaco, não optando por um nem por outro; se persistir neste caminho, certamente irá longe, segundo a tendência natural desta transição de milênio."
Não é sem razão que Jonas Negalha adota as categorias nietzschianas para se referir à poesia de Ulanin. Na sua poesia existe esse sentido trágico do humano, que na palavra encontra a superação da ordem civilizatória por aquela, mais intrínseca e profunda que é a ordem intuída. Nesse momento a tragicidade sente-se subvertida pela beleza lírica.

Canções de Gesta


Canções de gesta.
Bandolins, árvores.
Sombras água correntes:
a cruz e o ferro.
Grito no meio das chamas,
teu nome - Lídia.
Batinas negras;
eu, crucificada em chamas,
Lídia, Lígia, Ligéia.
O inferno é feito de cruzes e batinas -
rio, o que sou?
Servi-te, homem do algoz:
a cidade em festa; as canções rimam
com a sombra do teu nome.
  Fabio Ulanin.

Vozes

Fechadas em mim,
as Vozes
-túrgidas, agitam-me em direções opostas-
qualquer caminho, qualquer
(gato e rato, gato e rato, rato e gato - errata)
desde que me leve/eleve você.
As Vozes não cessam
-demonstram desespero de saber, ter, querer,
mostram estes caminhos, por onde vou lambendo
                                                  o chão, contodendo-me:
serpe, línguas bifurcadas       
- assombro-me no Terceiro Caminho.
                  Fabio Ulanin

ilustração da capa de Kether, por Ionaldo Cavalcanti.

29.

O Gárgula espreita-me por detrás da fogueira entre as árvores depois da Cidade rente ao rio. Eles movem-se em danças, nus; escutam minhas mágicas surdas - vinde! Eles cantam sempre - vinde!! O Gárgula cavalga - Vinde! Eles amam o Gárgula que cavalga em minha direção, amam-no e amando-o amam a mim -VINDE!!! Sinto-me presa, satisfeita - O Gárgula possui.   
        (do livro, Animaquia. Primeiro livro de poemas de Fabio Ulanin, 1997.)