Sessão Revisão: Onestaldo de Pennafort

        Onestaldo de Pennafort nasceu no Rio de Janeiro em 25 de Junho de 1902. Colaborou no Fon-fon e na Careta e no suplemento literário Autores & Livros do jornal A Manhã, foi redator de O Malho e Leitura Para Todos. Publicou Escombros Floridos, 1921; Perfume e Outros Poemas, 1924; Espelho d'Água - Jogos da Noite, 1931; Poesias, 1954. Traduziu Shakespeare e Verlaine. Foi laureado em 1954 pela ABL com o Prêmio Machado de Assis. Morreu no Rio de Janeiro, em 17 de Abril de 1987. Está inserido no Panorama do Simbolismo Brasileiro de Andrade Muricy, para quem "sua obra é de apurado requinte e característica do período já limítrofe com a arrancada modernista, demarcada pela busca de acabamento, possibilitado pelo adestramento da técnica do verso, que apresenta conotações evidentes com as de Eduardo Guimaraens, Cecília Meireles e ainda os gaúchos Reynaldo Moura, Athos Damasceno Ferreira e Teodomiro Tostes, e foi representativo do final do movimento simbolista, que, aliás, não vedou o caminho para as aventuras de vanguarda." Transcrevemos o poema "Romance do Emparedado", que me chama a atenção pela imagem de fragmentação entre sonho e realidade, desejo e desencanto, mas que numa sincronia pós-moderna ou neobarroca me induz a repensa-lo sob o tópico da virtualidade tridimensional, do homem que se vê a si mesmo numa espécie de clonagem da alma.

ROMANCE DO EMPAREDADO

Estou nesta sala fechada,
mas me vejo a mim lá fora,
passando pela calçada,
como se me fosse embora

para outras ruas e praças
e praias de outra cidade
de outros climas e outras raças.
E ora, vejo, na verdade,

que, nesta sala fechada,
eu, durante toda a vida,
já desde a minha chegada,
sempre estive de partida.

Em mim, tudo é despedida.

NATUREZA-MORTA

Dois sapotis, uma romã
e três cajus, na porcelana
azul e verde da fruteira.

Pela  janela aberta, a natureza inteira...

CAVALEIRO ANDANTE

Se vais em busca da Fortuna, pára:
nem dês um passo de onde estás... Mais certo
é que ela venha ter ao teu deserto,
que vás achá-la em sua verde seara.

Se em busca mais do Amor, volta e repara
como é enganoso aquele céu aberto:
mais longe está, quando parece perto,
e faz a noite da manhã mais clara.

Deixa a Fortuna, que te está distante,
e deixa o Amor, que teu olhar persegue
como perdido pássaro sem ninho.

Mas, ó sombrio cavaleiro andante,
se vais em busca da Tristeza, segue,
que hás de encontrá-la pelo teu caminho!