Música e Miragens


Eis as brumas, sintam. Duas vozes cantam
Na claridade opaca do véu azul.
Bêbados estragam sonhos, levantam
As bordas duras da alta flor do sul.

Dunas de mármore enlevam mistérios,
Caem violetas estragadas dos cúmulos,
Um fauno mitológico, o ar sério,
Ninfas busca entre flores de túmulos.

Das leis falidas e rotas às altas
Tábuas sagradas dos deuses famintos
Vejo feéricas glosas do rei que falta
Ao panteão trípode de labirintos.

Numa valsa fragmentada trifauce
Compactua-se das águas do Ganges,
De magnas cartas e chifres de alces
Ordeno minhas noites em falanges.

(do livro Florilégio de Alfarrábio, p.16)

O poeta alucinado

Minhas alucinações de gasolinas mornas,
Perfumes de flores do mal,
Palácios do fundo do mar...
Eu danço a dança da poeira no vendaval
E não escolho mais minhas visões!
Minha máquina de escrever
Como quem cumpre uma promessa
Faz alegorias, críticas, paródias...

Jogral


oco meu banjo para um gravador de rolo antigo. Um vira-lata ouve-me com a atenção dum engenheiro de som. O sanfoneiro, atrás de mim, atento acompanha meus acordes; o tocador  de tuba, aguarda impávido sua vez de soar sua gravidade. Amigos de paletós puídos e cinzentos, ao fundo, acompanham os versos que declamo com a sensação de que engasgarei nas palavras mais significativas. Entr eles, um transformista de vestido em tons de rosa e chapéu de aba larga delicia-se com o happening. Canos e fios desencapados cortam o estúdio: um porão de navio


v e r
d e a m a r e
l o v e r d e a m a
r
e l o v e r d e a
m a r
e l o v e r d
e a m a r e l o v e
r d e a m a r e l o
v e r d e a m a r e
l o v e r d e a m a
r e l o v e r d e a
m a r e l o v e r d
e
a m a r e l o v e

"Verdeamarelo", poema de Bootlegs.
Publicado na Educart, n.º 2.

Poema visual "Obra em Progresso"