Revista de Estudos Culturais e da Contemporaneidade - ISSN: 1980-3060

LITERATURA BRASILEIRA E AS NOVAS TECNOLOGIAS: LEITURA E PRODUÇÃO

Sonia Melchiori Galvão Gatto

Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC/SP)

Faculdade de São Bernardo do Campo (FASB)

 

Introdução

Resultado parcial de pesquisas realizadas pelo Núcleo de Pesquisa em Literatura e Semiótica da Faculdade de São Bernardo do Campo, "Literatura Brasileira e as Novas Tecnologias" traz à baila os estudos analíticos realizados a partir de um mapeamento inicial das produções hiperficcionais e hiperpoéticas, produtos da relação da criação artística com a sociedade informática.

O espaço de leitura teve ser entendido como um sistema semiótico e, enquanto tal, torna-se experiência comunicacional de signos diversos: dos visuais aos sonoros e verbais.

Os meios eletrônico-digitais comportam a idéia de que devemos repensar o espaço/meio em que a leitura é oferecida, a posição da autoria em face das redes de interconectividade que invadem o espaço privado, a posição do leitor diante da revolução tecnológica e a própria noção de escritura e o estado da Literatura. Neste trabalho, partiremos destes questionamentos para refletirmos sobre a produção literária brasileira veiculada ao espaço virtual, centrando-nos na produção do livro eletrônico (e-book) e naquela produzida pela Web.

 

O espaço do livro impresso e do livro eletrônico

       Na contemporaneidade as novas tecnologias têm uma inserção atuante na sociedade e nos processos que dialogam com esta, reconfigurando o panorama cultural. Assim, remetermo-nos à Literatura nestes meios ou às relações entre revolução tecnológica, cultura e leitura é uma questão, no mínimo, inevitável e política, na medida em que estes diálogos revelam sistemas de interação em interface, e polemizam conceitos cristalizados sobre a relação da Literatura com a sociedade, com os meios de produção, com os produtores, com os receptores e com sua própria natureza e função, obrigando-nos a um questionamento sobre o livro e seus meios de veiculação, e a uma mudança de horizontes de expectativas quanto à  leitura.

Se pensarmos com Posner1 para quem a sociedade é usuária de signos, devemos reavaliar o estatuto da sociedade contemporânea e os signos que a compõem na formação do processo cultural. A cultura existe como um sistema de signos reconhecíveis pelos membros que a integram, a sociedade é a composição de usuários de tais signos e a cultura mental desta sociedade é um conjunto de códigos aplicados por ela.  Desta forma, é impossível refletir sobre qualquer um dos elementos isoladamente, sob pena de deformação da visão sobre o sistema estabelecido. Assim, livro, tecnologias, sociedade, leitores, autores e obra só podem ser analisadas intrinsecamente imbricados, em semiose. Diríamos até que, seguindo as definições de Posner, não seria ousado dizer que a sociedade contemporânea apresenta esferas semiósicas tecnológicas culturalmente centrais, cujos códigos se instalam para a definição de sua própria identidade: uma identidade também tecnológica com os valores que esta agrega.

O estabelecimento de uma identidade cultural, reconhecida em todas as civilizações, não pode ocorrer fora de um reconhecimento do mecanismo da cultura, de seu funcionamento intrínseco, de suas esferas semiósicas. Ora, se a tecnologia funciona como elemento central da contemporaneidade, devemos aprofundar as relações desta com as esferas da cultura. Assim, a Literatura – e o livro, por conseqüência – deve ser estudada nesta relação.

Benjamin anunciou a crise do livro impresso. O advento do mass-media trouxe à tona esta problemática. Hoje, um dos grandes temores que vem assombrando o estatuto do livro é justamente o surgimento do livro eletrônico e dos sites de literatura que fornecem possibilidades de cópia, temor este que pode ser refutado a partir de quatro premissas: 1. quanto à natureza social do livro impresso; 2. quanto à esfera semiósica em que se encontra a produção eletrônica (livro, site); 3. quanto ao valor pragmático de ambos; 4. Quanto à natureza estética de ambos.

Muito embora o próprio Benjamin, em seu "A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica", tenha anunciado a perda da aura dos objetos artísticos a partir da revolução industrial e do valor de mercado a eles agregados, não podemos negar uma sacralidade reencontrada por Sartre na materialidade do livro. Ocorre uma espécie de êxtase catártico ao nos depararmos com primeiras edições, obras raras etc. Desta forma existe, por um lado, o valor simbólico-cultural que ele carrega; por outro, a sua configuração como instituição, à medida que, "como qualquer forma de socialização, a instituição do livro cria um espaço público, estabelece hierarquias e constitui identidades nos grupos e nos indivíduos que dela participam"2, a saber, os autores, leitores, editores, pesquisadores/críticos.

Que o livro se configura como instituição é inegável, mas devemos questionar se houve a reconfiguração desta para que possa atender às necessidades emergenciais de uma cultura tecnológica, por meio da desterritorialização e nomadismo de formas das publicações impressas, ou se estamos na esfera da delimitação de fronteiras com as publicações tecnológicas.

A resposta para tal questionamento está justamente na tentativa de esclarecimento das demais premissas. Observamos, anteriormente, que a tecnologia está na esfera central da cultura. Fundamental, portanto, para o estabelecimento de uma identidade pelos membros de uma sociedade. O livro impresso configura-se, também, como objeto fundamental nos mecanismos de transmissão da memória cultural e, portanto, assim como a tecnologia, funda um saber coletivo. Contudo, se analisarmos a relação livro impresso3 – livro eletrônico, perceberemos a hierarquia de valores que ambos estabelecem entre si e com a cultura. Poderíamos classificar o segundo como pertencente à uma esfera semiósica culturalmente periférica, tendo em vista seu deslocamento dentro de uma sociedade dita informatizada. Não se trata de uma dessemiotização do código impresso, mas da introdução de um código rudimentar - por seu caráter de novo, desconhecido – que deve ser posto em relação com a realidade.

O problema ocorrerá em uma possibilidade de supra-semiotização do impresso, levando-o à marginalização, ou seja, este, como um código central, pode se tornar periférico se sua exposição por um longo tempo torná-lo petrificado, sem acompanhar a evolução dos valores da sociedade. Só se evitará a instalação do livro impresso na esfera do periférico, quando este, antes do processo de supra-semiotização, dialogar com outras esferas semiósicas culturalmente centrais, promovendo as mudanças internas à obra.

Quanto ao valor pragmático do impresso, este está centrado em questões que vão do ornato à reprodução. Livros eletrônicos possuem chaves que impedem a reprodução, em função dos direitos autorais. Este, também, é de difícil manipulação, o que prejudica, muitas vezes, o trabalho manual do pesquisador quanto a anotações e cruzamentos de informações. A materialidade do impresso possibilita articulação de dados.

Devem-se considerar, também, as experiências na educação. É impensável a educação hoje sem sua relação com a tecnologia, como também o é a implantação de uma educação tecnológica sem livros impressos que atendam às necessidades de manipulação e criatividade, como no caso dos livros de literatura infantil que hoje exigem uma dinâmica extrema dos elementos sonoros, visuais e verbais. A formação do leitor perpassa, também, pela relação que este tem com a obra. Desta forma, o livro eletrônico oferece um manancial a mais de sensações e possibilidades interativas, mas não supre – e nem o pretende fazer - as relações sensoriais do livro de madeira, de pano, de plástico, de dobradura, com odores, tamanhos e formas diferenciadas.

Aqui entramos no campo da especificidade e natureza de cada objeto, entendidos aqui como sistemas de signos estéticos. Partimos do pressuposto de que o livro eletrônico ou os sites de literatura apresentam uma natureza diferenciada da literatura impressa, já reconhecida e debatida pelos estudiosos da área. Questiona-se hoje, ainda, se tal produção hipertextual funda um novo gênero literário, em decorrência desta natureza. Trata-se de um terreno movediço em fase de estudo, sem definições, em que o signo verbal é manipulado pelo computador, produzindo efeitos visuais, ou compondo com signos visuais e sonoros o que se denomina Literatura Gerada por Computador (LGC), Infoliteratura, Ciberliteratura, Literatura Informática, Hiperficção, Infopoesia ou Poesia Multimédia4. Ë sobre esta questão que discutiremos a seguir.

Neste trabalho, partiremos destes questionamentos para analisarmos a produção literária brasileira veiculada ao espaço virtual.

 

O sistema hipertextual e a obra galáctica

Em "A Renovação do Experimentalismo Literário na Literatura Gerada por Computador", Pedro Barbosa explicita conceitos e sistematiza dados em torno da Literatura Gerada por Computador (LGC). Aponta, inicialmente, três tendências de criação textual, também entendidas como gêneros – algo a ser discutido em pesquisas futuras:

          No estado actual em que se encontra, a LGC abrange três linhas, gêneros ou tendências de criação textual, as quais muitas vezes podem assumir uma forma mista: a poesia animada por computador (que, na continuidade da poesia visual, introduz a temporalidade na textura freqüentemente multimediática da escritura e movimento no ecrã), a literatura generativa (que mediante ‘geradores automáticos’ apresenta ao leitor um campo de leitura visual constituído por infinitas variantes em torno de um modelo) e a hiperficção (narrativa desenvolvida segundo uma estrutura em labirinto, assente na noção de hipertexto, ou texto a três dimensões no hiperespaço, em que a intervenção do leitor vai determinar um percurso de leitura único que não esgota a totalidade dos percursos possíveis no campo de leitura).5    

          O que coincide entre as três tendências apontadas é o fato de que a obra resultante de um trabalho com o virtual, justamente por seus processos de temporalização, é conceitualmente processual. Em outras palavras, a obra não apresenta uma estrutura enclausurada e finita, definitiva, mas realiza-se em ato, no tempo presente, amparada no devir do leitor. É, portanto, no processo que existe.

          Se o tempo prefigura o processual, o espaço do hipertexto é o do inacabado, da obra aberta:  nomadismo de estrutura e formas que se abrem para articulações múltiplas e leituras paralelas, quebrando com o hierárquico, tendo em vista as múltiplas facetas que o hipertexto oferece através das janelas e links. O espaço nega o binário e o ato comunicativo no ciberespaço propõe correlações polissistêmicas.

 O hipertexto propõe-se, enfim, como um manancial de códigos em correlação como um organismo vivo, com pluralidade de esferas semiósicas particulares. (...) O espaço hipertextual é o espaço da desconstrução, do pensamento complexo, das instabilidades e não-linearidades. Rompe com o bidimensional do pensamento clássico e opera ideogramaticamente, como uma configuração cubista em que os planos coincidem, colocando em xeque o aristotelismo das articulações fechadas, conclusivas e apontando para fases de expansão e contração, cosmo desordenado, infinito e aberto: universo da escritura.6

         Aqui pensamos a LGC como uma possibilidade multifacetada para a produção de textos complexos, que exigem um espaço da tridimencionalidade e a possibilidade da interatividade. Neste sentido, não podemos deixar de ter o espaço de leitura como um sistema semiótico. Enquanto tal, torna-se experiência comunicacional de signos diversos: dos visuais aos sonoros e verbais, que se conectam em rede, rizomaticamente.

Impresso e virtual diferenciam-se no controle sobre a matéria – o primeiro realizado pelo engenho; o segundo, pela intermediação do computador -, mas no que concerne ao modus operandi da linguagem e estruturas textuais, poderíamos dizer que obras literárias impressas, não deixam de ter seu caráter hipertextual, muito embora não tenham os recursos tecnológicos. Tal discussão remete-nos à especificidade de cada uma, ou a forma como estas lidam com as informações estéticas.

Centremo-nos na LGC. O que respalda a criação na LGC é justamente a possibilidade de manipulação da linguagem verbal, incorporando códigos visuais e sonoros. A corporeidade da palavra é, portanto, fundamental no   estatuto de criação. As mudanças labirínticas, promovidas pela Era Eletrônico-digital, não mais admitem  "o objeto artístico subspecie aeternitatis". O rizoma, as redes hipertextuais, o tempo processual e o espaço de nomadismo incorporam o relativo e o transitório, o campo das incertezas. Assim, deparamo-nos com um novo suporte para o texto, um novo leitor e a necessidade de uma nova linguagem: aponta-se para uma estrutura complexa, repleta de torneios lingüísticos, jogos vocabulares, sintaxe estrutural retorcida, além de contar com a exploração do espaço não somente da página, mas de um universo de informações possibilitadas pela rede.

           A estrutura hipertextual é descentralizadora. Portanto, a fixação de um centro tal como faziam Galileu, Copérnico, ou o estabelecimento de relações da escritura, sua estrutura e linguagem a um locus de presença, a uma origem fixa, a um plot linear, configuram o estado de organização e equilíbrio impostos por um modelo ideologicamente fechado, autoritário e castrador, que revelam a intenção de impedir o jogo escritural e criador, base para a produção hipermediática.

          Oposta `a metafísica ocidental vinculada ao logocentrismo, a LGC é "pansemiótica". As associações correlativas explicam as características da LCG: justaposição de imagens correlativas, como em um quadro cubista; estilo cinemático, reconhecido por Eisenstein; princípio da fragmentação. E é, justamente a partir desse critério metodológico que visa à linguagem não-fonológica e à deslogocentrização, que pensamos as obras literárias limites e o hipertexto.

           A escritura em seu jogo é lembrada por Derrida, em seu Gramatologia (1973:8),

     O advento da escritura é o advento do jogo; o jogo entrega-se hoje a si mesmo, apagando o limite a partir do qual se acreditou poder regular a circulação dos signos, arrastando consigo todos os significados tranqüilizantes, reduzindo todas as praças-fortes, todos os abrigos do fora-de-jogo que vigiavam o campo da linguagem.

             Ao mesmo tempo que este jogo descentraliza o modelo organizado residente na phoné , instala a possibilidade de desautomatização do controle sobre a escritura. Neste sentido, o papel do autor é questionado. O autor é o produtor do mote e o criador do programa estético na L.G.C. O leitor surge como co-autor, ou ainda "escrileitor" (BARBOSA ...) / "lautor" (BELLEI 2002:120) – figura que interage na leitura e na produção.

            A função constelizadora da Infoliteratura decorre de uma auto-reflexividade do texto e da autotematização inter-e-intratextual do código7, promovendo uma escritura autofágica e híbrida não somente quanto aos  gêneros - poesia, prosa, ensaística - , mas também quanto ao estatuto de criação.

A influência do mass-media remete à fragmentação dos processos de estruturação da hiperpoesia ou da hiperficção, anunciando uma linguagem descontínua, giros sintáticos, simultaneidade da linguagem com hibridização de formas e imagens, rarefação do discurso, recursos tipográficos, sintaxe não-linear, "interrupta". Linguagem em palimpsesto. Mosaico em que o conceito de leitura tem que ser reconfigurado para atenter ao labirinto de significações desta esfera semiósica. 

 

A produção hiperpoética e hiperficcional no Brasil

Este novo signo – a Literatura Gerada por Computador – que causa estranhamento em uns e fascínio em outros, ainda comporta, no Brasil, uma gama insipiente de produtos / produções, muitas vezes entendidas como mera transposição da escritura para o meio eletrônico, o que se constitui em um problema para o processo de reconfiguração dos novos modos de leitura e do livro no país.

Para um mapeamento inicial da produção literária nos meios tecnológicos, partimos da noção e conceito de hipermídia – tecnologia que abarca as noções de hipertexto e multimídia –, analisando somente a WWW. A   produção em CD-ROM ficará para a etapa posterior das pesquisas.

Nos últimos tempos, a tecnologia consolidou –se no panorama brasileiro, recebendo muitos incentivos, principalmente da iniciativa privada, pela necessidade de ampliação das possibilidades de acesso ao conhecimento globalizado e das perspectivas de interação com outras nações. Escolas têm transformado seus currículos, ao incluir tecnologias, a fim de possibilitar ao aluno a ampliação de seu universo, tornando-o cidadão do mundo. Realizam-se teleconferências. Ampliam-se as salas de bate-papo e fóruns. O comércio eletrônico merece, hoje, grades curriculares no ensino superior. A web tornou-se o lugar de encontro de milhões de pessoas que buscam informações, divertimento, comodidade nas compras e pesquisas.

Neste eflúvio crescente da nova mídia, a literatura foi estabelecendo seu espaço. Um fenômeno a ser estudado são os jornais literários, sites pessoais de poetas/ escritores, sites institucionais de divulgação de pesquisa, bibliotecas virtuais com acervo para download (cópia), livrarias virtuais, e-books. Nesta babélica constelação, a quantidade – embora insipiente, bastante sintomática – prolifera sem o estabelecimento de um rigor quanto à qualidade. Isto se deve a quatro fatores: 1. A Web é um campo aberto e democrático aos experimentos e vocações. Não há uma seleção crítica prévia do material, o que compromete a qualidade do que se expõe neste meio. 2. Muitos dos sites de autoria são amadores e respondem a um anseio subjetivo do criador impor-se à comunidade: veleidade humana. 3. Algumas editoras de livros eletrônicos oportunamente descobriram um nicho no mercado editorial eletrônico: a possibilidade de publicação de livros com um custo bastante reduzido, possível em decorrência da não impressão em papel e da distribuição facilitada, fatores que geram uma elevação do custo. Observa-se, por vezes anúncios de editoras que oferecem seus serviços àqueles que não tiveram seus originais aprovados pelas editoras dos livros impressos. 4. Muitos textos auto-intitulados de literatura são apresentados sem preocupação com a qualidade estéticas, comprometida pelo uso inadequado do meio pelo qual o autor optou, ou seja, característica central das novas tecnologias, o hipertexto (recurso mínimo) não é utilizado adequadamente pelos produtores. 

Há de se pensar, portanto, em um "Programa Infoestético", apontando novas formas de leitura e produção neste meio. A partir de alguns princípios básicos deste "Programa Infoestético", poderemos analisar a produção literária brasileira na Web.

 

Categorias textuais na Web e e-book

         Existem diferentes categorias textuais de e-books e de obras vinculadas à Web. Aqui, as categorias textuais possuem um caráter diferenciado do texto impresso que pressupõe, muitas vezes, apenas o verbal. Texto é entendido no sentido mais amplo que abarca os aspectos textuais (narrativos e poéticos) e hipertextuais/ hipermediáticos (lexias, links, não-linearidade, interatividade e aspectos sonoros, visuais e mediáticos), além dos elementos estruturais/sintáticos do meio (actema, episódio e sessão), que compõem as hiperpoesias ou hiperficções.

     Como vimos anteriormente, Barbosa classifica os textos em gêneros/linhas de criação textual a saber: a poesia animada por computador, a literatura generativa e a hiperficção. Já  Adair de Aguiar Neitzel, em seu "Nossa história literária virtual: um balanço"**8, a partir de um breve panorama da narrativa brasileira hipertextual aponta para uma classificação das obras, considerando as distinções de Balestri: hardcopy e softcopy.  Para a autora, o hardcopy é utilizado em obras que tendem à leitura através da impressão, sem a utilização plena que tal recurso possa oferecer, funcionando como uma "máquina de escrever". O softcopy, por sua vez, parte do conceito de "elos & blocos de texto", permitindo ao leitor a opção por múltiplos caminhos. Caracteriza-se, portanto, por um nomadismo alinear.

         Ora, tanto a concepção de Barbosa quanto a de Balestri deixam algumas lacunas. No primeiro caso, o texto meramente digitado, lançado em sites sem os recursos do hipertexto, são excluídos.  Na realidade, o autor parte, de forma adequada, para a inclusão pela qualidade estética que pressupõe os recursos mediáticos, criando assim uma nova categoria de gêneros literários. No segundo caso, a opção por hardcopy pressupõe que a autora não faz distinção pela qualidade estética, mas constata uma produção impressa, veiculada no meio tecnológico.

          Na verdade, ao mapearmos alguns sites, observamos que há os textos para serem impressos – aqui denominados textos gráficos - grafos, os textos hipertextuais, a hiperpoesia e a hiperficção. Ainda quanto ao gênero, concebemos a infopoesia, a poesia intersignos, a hipernarrativa ou infonarrativa e o infoensaio.

 

1.1  Textos grafos

         Os textos grafos caracterizam-se pelos princípios da linearidade espacial, ausência de links, ausência de fragmentação, escanerização ou digitação, reprodutibilidade, ausência de interatividade do leitor/usuário, estrutura infoestética fechada. O autor é o detentor do poder sobre a palavra, não permitindo intervenção.

        A maior parte da produção brasileira na Web e em e-books é de textos gráficos, que têm como objetivo o estabelecimento de uma base de dados de textos, disponibilizados através de escanerização para impressão, download, cópia ou apenas para rolagem. Quando comercializáveis, editoras de e-books não permitem, em sua maioria, a possibilidade de impressão. A eficácia deste processo reside no fato de se configurar o site como uma biblioteca que disponibiliza o texto a qualquer hora, configurando-se como alternativa de difusão. Tal argumento utilizado por muitos estudiosos não considera o fato estético hipertextual na concepção dos poemas/narrativas/ensaios.

       Na verdade, tais textos foram gerados por computador apenas na digitação, mas não compreendem as estruturas hipertextuais ou hipermidiáticas.

       É importante distinguirmos, nestes sites, os meios de veiculação da produção literária. Observa-se que os textos grafos são recorrentes em revistas eletrônicas, cyberjornais, e-zines (fanzines eletrônicos), e-antologias, sites de autoria (sites de autores vivos ou não que apresentam informações biobibliográficas e artigos sobre o autor, além de um trabalho iconográfico), sites temáticos, sites institucionais (núcleos de pesquisa), sites de editoriais (sejam de editoras eletrônicas, sejam de editoração multimidiática) e CD-Rom. É importante observarmos que não iremos, aqui, analisar os sites, mas a produção divulgada nestes.    

      Entre os e-zines, um dos precursores, aqui no Brasil, é o Poesia Diária  (http://www.poesiadiaria/), desativado, hoje, pelo propositor. A idéia de estruturar este e-zine surgiu das trocas de mensagens e, conseqüentemente, de poemas/ narrativas, impressões, por meio da antiga BBS - antecedente do advento da Internet. A produção divulgada no Poesia Diária abarcava a obra poética de autores de língua portuguesa e espanhola. Muito embora apresente ilustrações, o site não utiliza os recursos hipertextuais, como links entre páginas. A qualidade centra-se em autores clássicos e contemporâneos, privilegiando entre estes, os escritores da década de 90.

       Entre outros e-jornais ou cyberjornais ou e-zines que mantêm uma preocupação antológica, o maior acervo de poesia de Língua Portuguesa encontra-se no Jornal de Poesia (http://www.secrel.com.br/jpoesia). Ainda contamos com http://www.lsi.usp.br/art (Fernando Pessoa, Guilherme de Almeida e Paulo Leminski), Folhetim (http://www.folhetim.com.br), Fundo de gaveta - http://www.expert.com.br/fgaveta (poesia alternativa - Pará). Alguns jornais já foram desativados. Mas o que se tem observado é uma busca por uma inserção antiacademicista e alternativa. Estes sites, que trazem uma organização interna na seleção de textos, muitas vezes estabelecida por período literário, acabam por coexistir no espaço cibernético com núcleos de pesquisa institucionais/acadêmicas e bibliotecas virtuais, como o site do NUPILL — Núcleo de Informática em Lingüística e Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina - http://www.cce.ufsc.br/~alckmar, que tem um trabalho precursor e interessante de resgate e divulgação da Literatura Brasileira desde seus primórdios. Já a Escola do Futuro da USP apresenta o projeto - A biblioteca virtual do estudante brasileiro - http://www.futuro.usp.br/ com um acervo bastante interessante, inclusive com acervo iconográfico e sonoro.

    Outra opção são os sites temáticos, que agrupam a produção em torno de especificidades regionais, geográficas, de gênero etc como o Poesia feminina (http://www.utopia.com.br/poesia), o Literatura Sul-Riograndense (www.geocities.com/ atheus/acropolis/2776/literatura.html), Caqui (www.kakinet.com) que traz uma boa exposição de haikais.

          Na contramão da qualidade, abertos a qualquer experiência iniciante, temos um maior número de sites. O que parece comum a todos é a temática sentimental, lacrimosa e sem um trabalho estético literário, além das tão perseguidas rimas.

        Os textos presentes nestes sites recebem a digitalização e o acréscimo de um fundo. Seu valor infoestético  não é explorado, pois estes sites não pretendem transcriações ou traduções entre as linguagens, mas apontam para a divulgação de nossos escritores com amostras de suas produções.

            Muito embora os textos apresentem uma estrutura literária aberta, infoesteticamente sua estrutura é fechada, mas potencial. Tais traços não desmerecem a obra, mas incitam reflexões sobre o modo de operação do texto literário, a partir do advento da Literatura Gerada por Computador.

 

2. Textos Hipertextuais

         Após a chegada do jornal, a variação da tipologia gráfica e a diagramação da linguagem impressa geraram um novo espaço para a escrita. Esta deixou de ser uma linguagem que reproduz audição e fala para conquistar seu próprio formato plástico. As fontes, no caso dos sites, aliadas às cores e aos diferentes tipos e tamanhos, criam diferentes diagramações para captar a atenção do leitor.

    Com a era tecnológica, as inovações suplantam as certezas absolutas, desconstruindo conceitos e , portanto, questionando os valores estéticos. Surge o hipertexto.

    Para Ted Nelson (1992), o termo hipertexto é definido como "... escritas associadas não-seqüenciais, conexões possíveis de se seguir, oportunidades de leituras em diferentes direções"9.   Assim, o texto hipertextual caracteriza-se por ser um documento digitalizado, apresentar diversidade de "planos" – também conhecidos como "blocos" – que contêm informações que se interseccionam por meio de "elos" ou "links" associativos, que dialogam coordenadamente,  a fim de compor novas estruturas narrativas ou teias poéticas, conforme a intencionalidade do leitor ou proposta estética do autor. Muito embora exista a possibilidade de links, a complexidade da obra dependerá das bifurcações produzidas pelos elos e das interrelações destas com o todo, podendo apresentar-se, em alguns casos, como estrutura infoestética.

    Segundo Landow (1992), o hipertexto desconstrói a rigidez das seqüências fixas, rompe com o princípio da linearidade em que há uma pré-definição do começo e fim, e propõe uma estrutura esponjosa em que estes não existem, mas aponta uma estrutura processual e móvel, de acordo com as escolhas do leitor. Assim, não há uma história ditada, definida, mas em devir. Rompe-se com a noção de unidade e privilegia-se o salto.

    Neitzel aponta que tais textos, que devem ser lidos apenas on line no computador, são denominados por Balestri de softcopy. Ainda afirma que "ao serem impressos perdem as estruturas textuais que a eles estão conectadas e a leitura deixa de ser materialmente multi-linear".

    A linearidade espacial dos textos grafos cede espaço à fragmentação. Surge o princípio da interatividade – participação do leitor na elaboração do texto, escolha de caminhos, estruturação narrativa. A reprodução para o meio eletrônico é feita por escanerização ou digitação dos textos, com as palavras-elo destacadas ou ainda pela introdução de ícones representativos da temática da obra ou do bloco. Quanto ao princípio da reprodutibilidade, os textos hipertextuais ainda podem ser reproduzidos, mas por blocos, devendo o leitor fazer as ligações pertinentes quando impressos. Quando isso ocorrer, haverá a perda do valor estético, tendo em vista que tais textos habitam o meio tecnológico e são decorrentes dos processos sígnicos deste.

    A questão da reprodutibilidade é um tema polêmico quando falamos sobre o meio digital, pois toca no cerne da questão dos direitos autorais. Tanto o texto grafo quanto o hipertextual dão uma maior abertura para que a lei seja burlada, pois não há controle sobre sua reprodução. Os e-books adquiridos em livrarias e editoras, por sua vez, possuem chaves , senhas e dispositivos para que não ocorra a reprodução.

    Passa-se a questionar o poder do autor sobre a sua produção, diante da intervenção do outro.

    Aqui, entendemos, portanto, o hipertexto como sistema semiótico. Tanto a narrativa quanto a poesia hipertextual constituem-se na relação entre signos diversos. Os dados são conectados por elos ou nós ou links que apontar para informações textuais, sonoras, iconográficas etc. Por se constituir na relação, os nós/ elos nunca apresentarão um modelo padrão pré-definido. A existência da obra acaba por se constituir enquanto sistema semiótico. Fundamental é que a estrutura produzida esteja semanticamente relacionada ao conteúdo abordado.

    A seqüência de relações sígnicas estabelecidas pelo leitor é o que vai determinar a tecitura narrativa ou  poética, determinando a estrutura da obra. Assim, esta não é dada pelo autor, mas são lançadas possibilidades a serem completadas no leitor.

    Quando o sistema incorpora elementos das diversas mídias, tais como vídeo, música, fotografia etc, estaremos no campo da Hipermídia, cuja produção literária resultante veremos no próximo tópico.

    A produção literária brasileira que busca um trabalho de estética hipermidiática  centra-se primordialmente no hipertextual  com relativa semiose, mas não em seu grau máximo. Os princípios estéticos são regidos pela carga semiótica que o texto comporta, em busca das múltiplas significações. A proliferação de signos ocorre dentro de princípios discutidos por Pierre Levy: Princípios de Metamorfose, Heterogeneidade, Multiplicidade e Encaixes de escala, Exterioridade, Topologia e Mobilidade de centros. Acrescentaríamos outros três princípios: Princípio da Interatividade; Princípio da Temporalidade Presente e  Princípio da Fragmentação.

 

3. A Hiperpoesia

     Por textos "hiperpoéticos" entendemos as possibilidades poéticas de códigos diversos, a partir do verbal,  que se entrecruzam semioticamente na produção em meios eletrônico-digitais. Desta forma a poiésis aglutina as linguagens, em uma aproximação das sensibilidades verbais, imagéticas, sonoras, táteis e tecnológicas. Assim, o texto "hiperpoético" representa a experiência máxima destas aproximações, incluindo, necessariamente, a tecnologia. Esta não deve ser vista meramente como uma ferramenta, um instrumental técnico, mas em sua signicidade, ou seja, em seu potencial de gerar e intermediar signos. Desta forma, jamais poderia prestar-se apenas à cópia dos textos escritos, mecanicamente, mas deve ser explorada em seu potencial poético.

         Dentre os textos hiperpoéticos, encontramos as poéticas a seguir descritas: a infopoesia (compreende verbal, visual e tecnológico); poesia animada por computador (introduz a temporalidade e textura, geralmente multimediática, gerando movimento); poesia hipermidiática (compreende as diversas linguagens, incluindo as diversas mídias, dentro de um padrão hipertextual de criação).

         É fundamental a distinção entre a produção hipertextual e a infopoesia. Instalado o conceito de hipertexto, observamos que a infopoesia  - conceito cunhado por Melo e Castro – apresenta princípios de realização da experiência poética, unindo palavra à imagem geradas em computador. Neste sentido, pode não apresenta alguns dos princípios do hipertexto, como a interatividade, metamorfose e encaixe de escala, mas envolve um trabalho de criação estética extremamente apurado.

         A produção hiperpoética, no Brasil, tem uma representação expressiva. Nomes de envergadura como Philadelpho Menezes (http://www.pucsp.br/~phmenez.poema.html e   http://www.officina8.com.br/philadelpho menezes), Alkmar Luiz dos Santos (http://www.cce.ufsc.br/~nupill/poemas.html), Gilbertto Prado (http://wawrwt.iar.unicamp.br/poemas/indexpoemes.htm), Augusto de Campos (http://www.dialdata.com.br/ casadasrosas/utopia/augusto/augusto.htm) e (http://www.geocities.com/Paris/9157/luacapa.html) e Arnaldo Antunes (Vídeopoesia – Nomes) apresentam produções em poesia eletrônica que aliam artes plásticas, hipermídia e poesia.  Seus poemas surgem através do princípio de mobilidade espacial das formas plásticas e verbais, permitindo, em muitos casos, a interação com o leitor.

A poética de Augusto de Campos transitou por todas as etapas das tendências contemporâneas, iniciando seu percurso com a poesia visual, com o movimento Concretista. Em seu site (www.uol.com.br/augustodecampos), o autor expõe a produção visual, infopoética e eletrônica e hipermidiática.  

           Outros nomes surgem no panorama contemporâneo, tais como Alexandre Venera dos Santos (http://br. geocities.com/eeale), Franklin Valverde, Hugo Pontes ( http://liquidbox.com.br/artevisual/ html/pv.htm), Jorge Luiz Antônio (http://www.iis.com.br/~regvampi/arteonline3/flash/logoalgo2.html), Maria Virgília Frota Guariglia, Neide Dias De Sá (http://www.arteonline.f2s.com/arteonline2/neide.htm), Wilton Azevedo (http://www.wiltonazevedo.com.br), Diana Domingues (http://artecno.ucs.br), André Vallias (http://www.refazenda.com.br/aleer) e Leila Míccollis.

Surgem, ainda,  nomes nos haicais "eletrônico-digitais" como Ricardo Silvestrin e Paulo Franchetti. Observe-se, também, o trabalho realizado com Haicais, exposto no site da Crisart (www.geocities.com/ ~crisart/haicai/anikaichro/ anikaichro0.html).

O site Linguaviagem (http.://www.manoelmar.sites.uol.com.br/linguaviagem) apresenta o poeta Manoel Neves com força inovadora pela inserção de elementos digitais na produção poética. O poema 7 é um bom exemplo da solução verbal-imagética que o poeta atingiu: trabalha-se com o deslocamento espacial das palavras que mimetiza a semântica destas através da movimentação na página. 

Biblioteca das Maravilhas,  de Regina Célia Pinto ( http://bibliothecadasmaravilhas.cjb.net  e http://www.iis.com.br/~regvampi ), é uma obra com riqueza de signos em processos de intertextualidade e paródia eletrônica.

O Estúdio de Poesia Experimental da PUCSP possui um bom arquivo de Poesia Intersignos  e Poéticas Experimentais (http://www.pucsp.br/pos/cos/nucleos2.htm).

            A produção hiperpoética brasileira contemporânea ainda traz outros poetas com produção nacional e internacional, demonstrando força, vitalidade e inovação, superando suportes e estabelecendo processo de intersemiose intensa entre os diversos códigos. 

 

4. A hiperficção

             Os textos "hiperficcionais" constituem-se, também, dentro de uma poética intensificadora de códigos que se entrecruzam semioticamente, por meio das tecnologias. Associada à produção de sensibilidades verbais, imagéticas, sonoras, táteis e tecnológicas, o texto hiperficcional explora (ou deveria explorar) as potencialidades de geração e intermediação de signos e significações, incorporando os princípios da hipermídia, que incluem o hipertexto.

            A hiperficção deve ser entendida e lida como um sistema complexo, que permite a leitura (e a escrita) não-linear. Tal complexidade e mobilidade a caracteriza como um sistema dinâmico, devido às semioses que se estabelecem a partir dos elos criados e das entradas propostas pelo leitor ou das atualizações do autor. Por ser dinâmica, a hiperficção não pode ser finita, mas apresentar uma estrutura porosa, cujos vácuos têm que ser preenchidos pelos elos, complexificando a obra.

            Considerando que "...o que muda e se transforma nos sistemas dinâmicos é o seu estado, ou seja, o relacionamento entre as partes do sistema"10, a obra hiperficcional não pode residir no campo das certezas, mas apontar para o "horizonte de probabilidades", da provisoriedade do estético. É este vir a ser que se completa nas relações intersígnicas e no leitor. Não se deve esperar por narrações conclusivas, lineares, mas complexas, "pluricêntricas" ou "acêntrica", à medida que a personagem percorre o caminho do co-autor (o leitor).

            Vale destacar a relação do texto verbal com os processos hipermidiáticos, fundamentais para que o valor estético da obra não se restrinja aos mecanismos ou teorias sobre o texto narrativo escrito. Há de se notar que existe uma narratividade nos processos hipertextuais e uma poeticidade nos processos multimidiáticos. Aliar ambos é o que resulta na hiperficção.

            O que se postula neste "novo gênero literário", contudo, não tem sido compreendido adequadamente por quem o pratica ou pretende-se escritor hiperficional: obras vinculadas à Web, CD-Roms e E-Books, em geral são mera reprodução do material impresso, não utilizando as potencialidades de não-linearidade, descentramento, interatividade e complexidade que a hiperficção deve apresentar.

            Assim, o panorama da hiperficção no Brasil é nebuloso. Grande parte do contingente de obras publicadas é de textos grafos, para serem lidos no computador, por meio de rolagem ou através de impressão, o que denota a intencionalidade, conceitos e estética equivocados em relação à Literatura em Meios Tecnológicos. Quando muito, o hipertexto é utilizado apenas para breves referências ou explicações dicionarizadas.

            Em oposição à produção hiperpoética, proliferante, a produção hiperficional que assim deve ser considerada não passa de nove obras. Referimo-nos a Tristessa, de Pajola Passenger (http://www.quattro.com.br/tristessa), Fausto (http://www.zaz.com.br/fausto, Dossiê Greenwar, uma "netnovela" de Bráulio Mantovani e Eduardo Duó (http://www.uol.com.br/novela/greenwar), e Baile de Máscaras, de Mayra (http://www.informarte.net/index.html). Ainda contamos com infoensaios poéticos como Arte& Loucura e Hipertexto, ambos de Vera Mayra (codinome de Ierecê Brandão) Há alguns sites que respiram um  processo de experimentalismo de escritura e leitura: Quatro  Gargantas Cortadas (http://www.geocities.com/SoHo/Studios/1875/indice.html), Daniel Pellizzari, e A d@m@ de Espadas (http://www.facom.ufba.br/dama/index.htm ), de Marcos Palácios.

             As "Hiperficções" apresentam subgêneros, como a hipernarrativa (romance,  folhetim), o infoensaio e a netnovela. Entre as "Netnovelas", O Moscovita (http://www.uol.com.br/novela), de Reinaldo Moraes, foi a precursora do gênero no Brasil, sendo veiculada pela UOL em 1996. Sua produção lembra as fotonovelas – sem os balões característicos - associadas ao ambiente hipermidiático em que se permite a presença da interatividade. Fotos são ilustrativas do texto que se compõe periodicamente, em capítulos. Como a maioria das netnovelas, O Moscovita traz a temática da espionagem, do mistério, estruturados em ganchos típicos dos folhetins. Criado para a diversão, a obra, em um estilo cômico, não traz a preocupação com a qualidade literária o que, aliás, passa a ser uma constante entre as "netnovelas".  Outra do gênero é  A gente ainda nem começou (http://www.zaz.com.br/novela), escrita por Carlos Gerbase e Marcelo Carneiro da Cunha, que trata de uma temática fácil e popular, ainda adolescente. Crimes no Parque, de Toni Brandão (http://www.zaz.com.br/crimes) segue as mesmas características das demais, acrescida da preocupação cênica das imagens fotográficas que passam a ocorrer em externas. Os jogos (muitos semelhantes ao "jogo dos sete erros" digital) são mais perspicazes que os apresentados nas demais, conseguindo estabelecer um clima de suspense.

            Dossiê Greenwar, de 1997, tem uma melhor resolução estética pelas esferas semiósicas estabelecidas entre verbal, visual e sonoro, aliadas à ficção-científica. Propõe uma retomada das "intrigas sheakspeareanas" envolvidas em suspense policial.

            Em 2000, surge A Morta Viva, de Angeli (http://www.uol.com.br/novela ), que se diferencia das demais pela introdução de desenho animado e traz a Rê Bordosa ressuscitada. Na mesma linha da animação, é lançada A hora Errada, constituída por vários episódios, seguindo a estrutura de Os Normais, da TV Globo. Trata de episódios da vida familiar de classe média do Rio de Janeiro, com veia cômica (característica das netnovelas), sem a utilização do texto escrito, utilizando-se da oralidade. Quase não há possibilidade de interação com o leitor.

            Fugindo das estruturas novelísticas da Net, Quatro Gargantas Cortadas apresenta-se como um "folhetim pop". Sua estrutura folhetinesca é composta a partir da intervenção do leitor que sugere caminhos para novos capítulos, geralmente surrealistas/ oníricos.

Não podemos nos esquecer de Mário Prata que, com Os anjos de Badaró, contribuiu para esta revolução literária na cena contemporânea.

            A qualidade artístico-literária em  tecnologias é atingida por poucas: Tristessa, Baile de Máscaras, os infoensaios poéticos Arte& Loucura e Hipertexto e A d@m@ de Espadas. Estas merecem um estudo mais aprofundado por parte dos críticos.

A d@m@ de Espadas é experimento e  experiência. A história, organizada a partir de um ícone-mapa não apresenta um princípio ou um fim, tal como as tecnologias que não podem ser consideradas um fim para os experimentos artísticos. A obra nos provoca a vivências, muitas vezes extremas, que estão neste meio fio com que tecemos a vida. O Mapa é a bússola de uma navegação a ser estabelecida pelo leitor.

Tristessa, de 1994, é um dos primeiros romances hipertextuais brasileiros. Os elementos hiperficcionais bem explorados estão associados à estrutura narrativa inovadora, com mudança de foco narrativo. 

O romance surge com grande força ficcional, conforme aponta Neitzel11:   

Seu selo novitativo não está só na utilização da estrutura volátil do hipertexto literário eletrônico, mas na forma de composição dos personagens. Eles primeiramente são descritos na terceira pessoa, por um escritor onisciente. Desta página saltamos para outra e o próprio personagem fala de si, não só dos projetos realizados como daqueles abortados. Uma biografia que nos põe em dúvida: autobiografia ou romance? Tênues fronteiras. Além disso, o personagem oferece seu e-mail para que possamos entrar em contato. Quando o fazemos, o personagem deixa de existir somente na esfera ficcional. O real e o ficcional também se imbricam. 

Talvez o maior nome da hiperficção no Brasil seja o de Ierecê Brandão – Mayra –, que mantém produções narrativas com extrema carga poética, aguçando a sensibilidade artística pelo grau de criatividade como lida com as resoluções sígnicas. "A autora" busca explorar todos os recursos que lhe são fornecidos, aliando-os a reflexões filosóficas profundas sobre o estado do Eu e da humanidade, na relação com o cosmos. O dialogismo , as várias vozes de autores, filósofos, se fazem presente na composição dessa teia  literária hipertextual. Baile de Máscaras, assim como as demais produções de Vera Mayra, trazem a consciência de se fazer o  a obra no momento presente, em sua mutabilidade e constante construção é a representação exata dos sistemas dinâmicos complexos como extensão da complexidade humana.  

 

(In) conclusão ... 

As conclusões apresentadas são parciais, tendo em vista o campo recente – e por isso movediço – da  Literatura gerada por computador. Mesmo parciais, já temos um breve panorama da produção literária brasileira que indica a existência de relações infoestéticas mais intensa quanto à poesia no espaço virtual. A prosa, por sua vez, traça caminhos insipientes nos e-books, netnovelas, hiperficções e outros produtos hipermidiáticos, em que o potencial de virtualidade ainda é inexplorado. 

        O panorama incrédulo diante do discorrido - excetuando-se a hiperpoesia - corresponde muito mais à busca, no anonimato da rede, da identidade pessoal à nacional, por mais paradoxal que possa parecer. É nestas relações entre a subjetividade individual (a produção lacrimal) e os anseios pela expansão coletiva que se instala a banalização da literatura, perigo recorrente para a produção literária brasileira.

 

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Notas

1. POSNER, Roland. "O Mecanismo Semiótico da Cultura". RECTOR, Mônica e NEIVA, Eduardo (org.). Comunicação na Era Pós-Moderna. Petrópolis: Vozes, 1997. p.37.

2 Cf. BELLEI, Sérgio Luiz Prado. O livro, a literatura e o computador.p.11-17.

3 Aqui discutiremos tanto o livro impresso como o eletrônico do ponto de vista da Literatura.

4 Cf. BARBOSA, Pedro. "A renovação e o Experimentalismo Literário na Literatura Gerada por Computador".

5 Ib. Id.

6 Cf. GATTO, Sonia Melchiori Galvão. "Do Texto ao Hipertexto: a literatura na era eletrônico-digital". São Paulo, UMESP, 2000. nº 3 (Temática: Novas Tecnologias).

7 Termos cunhados por Haroldo de Campos (1989:33) para designar a função constelizadora da Literatura.

8 In www.cce.ufsc.br/~neitzel/literatura/ensaios.htm.

9 NELSON, Theodor Holm. Cyberarts: exploring art & tecnologias. San Francisco, Miller Freeman, 1992. p.161.

10 LEÃO, Lúcia. O Labirinto da Hipermídia: arquitetura e navegação no ciberespaço. São Paulo, Iluminuras, 2001.p. 55.

11 NEITZEL, Adair de Aguiar. Nossa história literária virtual: um balanço. http://www.cce.ufsc.br/~neitzel/ literatura/ensaios.html

 

Revista de Estudos Culturais e da Contemporaneidade - ISSN: 1980-3060