Revista de Estudos Culturais e da Contemporaneidade - ISSN: 1980-3060

PRODUÇÃO DE SENTIDO NO HIPERTEXTO

Sandra da Silva Mitherhofer

Mestre e Doutoranda em Língua Portuguesa pela PUC – São Paulo/SP.

Docente da FASB – Faculdade de São Bernardo do Campo – São Bernardo/SP e

 das Faculdades Integradas Módulo – Caraguatatuba/SP.

 

            Resumo

            Este artigo trata dos mecanismos de textualização do hipertexto, buscando como se estabelece a coerência textual e, nesse processo de textualização, os critérios de construção e escolha no acesso aos hyperlinks, abrindo caminhos para a produção de sentido.

        Palavras-chave: Hipertexto, Mecanismos de Textualização, Coerência Hipertextual e Produção de Sentido.

  

Introdução

             Este artigo situa-se na área de Leitura e Produção de Textos em Língua Portuguesa e visa  discutir a seguinte questão: Como se dá a produção de sentido no hipertexto?

            O hipertexto é uma forma de produção textual possível pelos avanços da microinformática, portanto, de estrutura eletrônica, com características de texto não seqüencial e não linear, que se bifurca e permite ao leitor o acesso a um número quase ilimitado de outros textos de semióticas diversas a partir de escolhas lexicais e sucessivas em tempo real.

            Essas possibilidades de escolhas lexicais são chamadas hyperlinks, ligações que conectam um nó com outro e, quando ativadas, produzem diferentes resultados, pois cada ligação poderá até iniciar uma nova rede de relações e sentidos outros.

            Assim, o leitor tem condições de definir interativamente o fluxo de sua leitura, a partir de assuntos tratados no texto sem se prender a uma seqüência fixa ou a todos os tópicos estabelecidos pelo autor. Segundo Marcuschi, “trata-se de uma forma de estruturação textual que faz do leitor simultaneamente co-autor do texto final. O hipertexto se caracteriza, pois, como um processo de escritura/leitura eletrônica multilinearizado, multiseqüencial e indeterminado, realizado em um novo espaço” (1999, p. 22).

            Nesse contexto de alienaridade, em que temos uma estrutura constantemente recentrada, uma organização discursiva que pode ser deslocada e os espaços não se fixam, uma vez que é usada para estabelecer interações virtuais desterritorializadas, logo entendemos que dar sentido a um texto corresponde a interligá-lo a um outro. E, muito embora fique claro que os conceitos com os quais tem-se trabalhado nos estudos tanto de produção quanto de recepção textual não se proponham explicar as particularidades textuais do hipertexto, será nesse arcabouço teórico existente que nos apoiaremos para nossa reflexão.

            Levantamos como hipótese que o conhecimento dos mecanismos de textualização, em específico nesse estudo de coesão nominal, que traz marcas que definem o tópico correspondente ao tema, trará ao leitor um instrumento para filtrar não só o que já leu, mas o que lerá, determinando-o como um dos critérios utilizados tanto na escolha lexical para criação do hyperlink quanto para acessá-lo, critério esse de relevância na produção de sentido.

            Tomaremos como corpus de análise o hipertexto Mais free do que jazz (2000), no qual objetivamos fazer o estudo de como no hipertexto marca-se e funciona a coesão nominal.

            Para tanto, recorremos à análise da organização e do funcionamento dos textos, particularmente dos mecanismos de textualização, proposta pela teoria interacionista sociodiscursiva, em específico nos estudos de Bronckart (1999).

            A importância de tratarmos desse tema está no exercício reflexivo e, talvez, na contribuição para compreensão de um objeto que exige conceitos mais específicos que definam seu processo de construção.  

 

Pressupostos metodológicos

             Bronckart, em seu livro Atividades de linguagem, textos e discursos, tem como objetivo geral apresentar um quadro teórico e metodológico para a análise dos processos em ação em toda a produção textual.

            O trabalho do autor situa-se em um quadro epistemológico das condições sociopsicológicas da produção dos textos e análise de suas propriedades estruturais e funcionais internas.

Para realização do trabalho, Bronckart propõe:

1.       Delimitação e definição dos três níveis principais da arquitetura textual: a infra-estrutura, combinatória de tipos de discurso, de seqüências e outras formas de planificação; os mecanismos de textualização (conexão, coesão nominal e coesão verbal), que garantem coerência temática ao texto; e os mecanismos enunciativos, distribuição de vozes e explicitação de modalizações, que funcionam na coerência pragmática ou interativa.

2. Conceitualização das operações de linguagem em que se baseiam a organização e o gerenciamento de cada um dos níveis: operações dos mundos correspondentes aos tipos de discurso; operações de caráter dialógico geradoras das seqüências convencionais e operações de gerenciamento das múltiplas funções de textualização e dos mecanismos enunciativos.

O autor articula as abordagens externa e interna visando  mostrar que, embora as operações de linguagem sejam determinadas pelas representações sociais relativas à atividade humana e à atividade de linguagem em particular, deixam uma margem de decisão e liberdade aos agentes-produtores.            

Bronckart (1999) sustenta que a atividade de linguagem é, ao mesmo tempo, o lugar e o meio das interações sociais constitutivas de qualquer conhecimento humano, sendo nessa prática que se elaboram os mundos discursivos que organizam e “semiotizam” as representações sociais do mundo. Prática caracterizada pela intertextualidade, na qual  se conservam e se reproduzem os conhecimentos coletivos, pelo confronto entre os intertextos que são elaborados, por apropriação e interiorização, e pelas representações de que dispõe todo agente humano, erigindo-o em uma pessoa singular.

O autor entende o texto como toda e qualquer produção de linguagem, oral ou escrita, que veicula uma mensagem lingüisticamente organizada e tende a produzir um efeito de coerência sobre o outro.

Cada texto está em relação de interdependência com as propriedades do contexto em que é produzido; exibe um modo determinado de organização de seu conteúdo referencial; é composto de frases articuladas umas às outras de acordo com regras de composição mais ou menos estritas; apresenta mecanismos de textualização e mecanismos enunciativos.

 

Mecanismos de textualização

             Os mecanismos de textualização são articulados à progressão temática, explorando as cadeias de unidades lingüísticas (ou séries isotópicas), e organizam os elementos constitutivos desse conteúdo em diversos percursos entrecruzados, explicitando ou marcando as relações de continuidade, de ruptura ou de contraste, contribuindo, desse modo, para o estabelecimento da coerência temática do texto.

            Devido a sua finalidade, os mecanismos de textualização distribuem-se no conjunto de um texto ou em suas partes mais ou menos importantes, sendo capazes, portanto, de atravessar (ou de transcender) as fronteiras dos tipos de discursos e das seqüências que compõem o texto (sua função é, às vezes, exatamente a de marcar as articulações entre esses diferentes componentes).

            Se por um lado os mecanismos devem ser definidos no nível da unidade global que é o texto, as marcas lingüísticas que o realizam podem, por outro, variar em função dos tipos de discursos específicos que esses mecanismos atravessam.

 Coesão nominal

           Os mecanismos de coesão marcam relações de dependência e/ou descontinuidade entre dois subconjuntos de constituintes internos às estruturas de frase: o predicado, geralmente realizado por um sintagma verbal,  e os argumentos, essencialmente compostos de formas nominais (integrados a sintagmas de mesmo nome ou a sintagmas preposicionais) e que preenchem as funções sintáticas de sujeito, complemento verbal, atributo ou adjunto adverbial, relações essas de dependência que compartilham uma ou várias propriedades referenciais ou em que existe uma relação de co-referência.

           Esses mecanismos de coesão nominal introduzem os argumentos e organizam suas retomadas na seqüência do texto, por meio de um subconjunto de unidades que chamamos anáforas. Esses procedimentos concorrem, sobretudo, para a produção de um efeito de estabilidade e de continuidade.

           Nessa direção, duas funções de coesão nominal podem ser distinguidas:

 

 -         A função de introdução, que consiste em marcar, em um texto, a inserção de uma unidade de significação nova (ou unidade-fonte), a qual representa a origem de uma cadeia anafórica.

 -         A função de retomada, que consiste em reformular essa unidade-fonte (ou antecedente) no decorrer do texto.

Bronckart (1999) ressalta que as relações de co-referência subjacentes às cadeias anafóricas podem ter aspectos muito diferentes (mais ou menos lógicos, de associação, de inclusão, de contigüidade, de implicação etc.). O autor lembra que o antecedente de uma cadeia anafórica não é necessariamente uma forma nominal, como uma interpretação errônea do termo “pronome” pode fazê-lo supor, pois pode ter como antecedente a totalidade da oração que a precede. Além disso, pode acontecer de o antecedente não estar explicitamente verbalizado no contexto; nesse caso, o antecedente é uma informação que não está disponível, a não ser na memória discursiva do agente, mesmo que possa ser inferida do contexto.

Assim, nesse contexto teórico bronckartiano, que objetiva analisar os processos em ação de toda produção textual, dentre os mecanismos de textualização descritos, destacamos o de coesão nominal – um dos responsáveis pela produção da coerência temática. Propomo-nos a analisar, no hipertexto Mais free do que jazz, as marcas que caracterizam o mecanismo de textualidade, a unidade lingüística e como se comporta para o estabelecimento da coerência temática do texto.

 

Aplicação dos pressupostos teórico-metodológicos

Como já nos referimos, o que caracteriza particularmente o hipertexto são os hyperlinks. No nosso texto em tela, Mais free do que jazz (2000), observamos na sua apresentação inicial, que chamaremos de “texto-próton”, a presença de quatro hyperlinks:

 -      ÚLTIMA EDIÇÃO

 -      SONIC YOUTH

 -      LEFTFIELD

 -      BEBOP

Esses quatro hyperlinks são sintagmas nominais (SN), que, sintaticamente, preenchem funções de adjunto adverbial, sujeito, complemento verbal e atributo. Eles introduzem uma nova unidade de significação, de semiótica diversa (característica do hipertexto), que, poderíamos dizer, estabelece uma cadeia predominantemente anafórica, mas encontramos também cadeias catafóricas de formas diferentes.

O hyperlink ÚLTIMA EDIÇÃO antecipa o referente Free Jazz Festival, que se encontra no texto-próton. E, quando nos remetemos à nova unidade de significação, encontramos a explicitação do mesmo referente, criando uma relação de co-referência para quem volta ao texto-próton, com ganho de expansão de significação para o SN  – ÚLTIMA EDIÇÃO/FREE JAZZ FESTIVAL. Para quem não voltou, a catáfora foi de ruptura com o texto-próton, mas o sentido foi mantido sem nova expansão, porque não há outro hyperlink na nova unidade.

          No SONIC YOUTH tem-se a introdução de uma nova unidade significativa co-referencial, pois  trata dos álbuns e de suas proposições ideológicas, que, ao fim, nos remete de volta ao texto, se não quisermos ficar com uma sensação fragmentária. É  também um link fechado, pois não abre para um novo.

          Já nos hyperlinks LEFTFIELD e BEBOP encontram-se  novas unidades significativas, novos links. LEFTFIELD abre primeiro para LOVE PARADE,  e este, para WWW.2LOVEPARADE.NET. Podemos observar que LEFTFIELD introduz nova unidade, e esta, outra unidade, a LOVE PARADE, que não tem necessariamente relação co-referencial com a unidade anterior e, quando se abre outra unidade dentro da anterior, WWW2LOVE PARED.NET, somos convidados a romper totalmente com todas as unidades, inclusive com o texto-próton.

          No BEBOP, entra-se no hyperlink HISTÓRIA DA MÚSICA, e mantém-se uma cadeia anafórica e co-referencial, pois esse hyperlink nos remete a outro, que é um ÍCONE DE UM LIVRO, e nele ligados estão DOIS OUTROS, que são livros de história da música. Dentro do BEBOP, encontramos o último hyperlink, que é o MAX ROACH, no qual se encontra uma foto do músico, estabelecendo uma relação co-referencial.

Neste sentido, a  contribuição de Bronckart para uma leitura do hipertexto, ao nosso ver, é significativa, pois, de um lado, nos mostra que na organização das informações por meio dos mecanismos de coesão nominal, permite ao leitor/enunciador proceder de maneira a alcançar um certo equilíbrio entre informações novas (progressão – introdução de temas e/ou personagens novos) e informações que já constam em momentos anteriores (manutenção – retomada ou substituição deles no desenvolvimento do texto). De outro lado, destaca os fenômenos em sua função discursiva, interacional.

 

Considerações finais 

          Ao buscarmos em Bronckart apoio teórico-metodológico, sabíamos que seu trabalho é centrado em textos verbais e séries isotópicas, e o hipertexto, por sua vez, apresenta várias semioses, séries plurisotópicas, tendo a deslinearização como forma de macroorganização estrutural.

          No entanto, como Marcuschi (1999) afirma, o problema é categoricamente similar: a não-linearidade do hipertexto tem uma contraparte no texto impresso, embora aspectos diversos sejam similares.

          Assim, a partir dessa análise, chegamos a algumas conclusões. A escolha lexical para a constituição dos hyperlinks não foi aleatória, buscando trazer todo e qualquer tipo de informação para o leitor, sem ter critérios de construção preestabelecidos.

            Observamos que todos podem ser classificados, segundo a definição de Bronckart, como mecanismos de coesão do tipo argumentos, que são compostos de formas nominais, sintaticamente preenchem função de sujeito, adjunto adverbial, complemento ou atributo e estabelecem relação de dependência ou descontinuidade com propriedades referenciais ou co-referenciais.

           Esses procedimentos concorrem para a produção de um efeito de estabilidade e continuidade. Poderíamos inferir, então, que a categoria lexical a que pertence o hyperlink pode garantir uma progressão temática ou uma ruptura, estabelecendo um outro sentido (outro percurso de texto), até mesmo um tema paralelo, ou então rompendo mais radicalmente, quando o hyperlink remete a outro site.

Partimos da hipótese de que o estudo dos mecanismos de textualização no hipertexto pode nos ajudar a conceituar, ou, mais especificamente, a mostrar-nos como se estabelece a coerência de uma estrutura que constantemente é recentrada pelos acessos aos hyperlinks. E esse conhecimento seria o critério para a construção e/ou escolha de acesso dos hyperlinks

          Entendemos que sujeitos e sentidos se constituem simultaneamente no mesmo processo; o critério para construção do hyperlink  é critério válido para produção de leitura.

           Assim, faz-se necessário analisar outros hyperlinks e verificar a ocorrência das categorias e dos tipos de relações que estabelecem para avançar nessa questão da construção de sentido no hipertexto.

 

Referências

BRONCKART, J. P. Atividade de linguagem, textos e discursos. São Paulo: EDUC, 1999.

MARCUSCHI, L. A. Linearização, cognição e referência: O desafio do hipertexto. Campinas: Pontes, 1999.

VALE, I. Mais Free do que Jazz. Revista Playboy. São Paulo, Abril, p. 172-173, out. 2000.

 

 

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