Revista de Estudos Culturais e da Contemporaneidade - ISSN: 2236-1499

GENTE DE SAIA: O LÉXICO DA MULHER EM O CORONEL E O LOBISOMEM

 

Benedito Gomes Bezerra (UPE)

 

Quando vejo um recurvado de moça bonita, eu tenho um desejo: afundar nele de nunca mais ser visto. Nunca mais! (Coronel Ponciano de Azeredo Furtado)

 

                                                                                     

Introdução

 

         As disciplinas acadêmicas relacionadas com o léxico têm recebido grande ênfase por parte dos pesquisadores nos últimos anos. Disciplinas como Terminologia e Lexicologia têm sido integradas aos currículos de cursos de graduação em Letras nas universidades brasileiras. Pontes (1997) ressalta a importância crescente de tais disciplinas em todos os níveis da pesquisa lingüística, da graduação aos cursos de doutorado.

         Neste trabalho, busco uma aplicação dos princípios da Lexicologia ao estudo de aspectos vocabulares de uma obra da literatura brasileira, o romance O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho. Enfoco, especificamente, vocábulos e expressões designativas da mulher, entendida como sexo oposto ao masculino, sujeito e objeto de atração sensual. Meu objetivo é fazer um levantamento desse tipo de vocabulário, de forma a contribuir para o estudo lingüístico-literário da obra e, ao mesmo tempo, possibilitar uma reflexão que aponta para uma concepção da mulher refletida no romance, especialmente através da personagem central, o Coronel Ponciano de Azeredo Furtado. Por não se tratar da produção de um glossário ou vocabulário, embora uma lista de vocábulos e expressões resulte do trabalho, procuro restringir o tratamento dos dados ao domínio da Lexicologia. A abordagem lexicográfica, portanto, não é o interesse deste trabalho.

         Os procedimentos metodológicos incluem o levantamento exaustivo das ocorrências de vocábulos designativos da mulher, dentre os quais são eleitos aqueles que se empregam juntamente com um modificador qualquer. Desta forma, desprezei as ocorrências isoladas de vocábulos comomoça”, “menina oudama”, detendo-me em ocorrências geralmente compostas de nome + modificador, atentando ainda para expressões mais complexas e longas.

         Os nomes ou expressões colhidas através da análise do romance estarão incluídos em três categorias: (a) os vocábulos e expressões designativos da mulher; (b) vocábulos e expressões referentes a atributos físicos, partes do corpo e outras alusões à mulher; e (c) vocábulos e expressões referentes às mulheres das paixões do Coronel Ponciano de Azeredo Furtado.

         A presente pesquisa poderá, assim, contribuir para uma maior aproximação entre as áreas da literatura e da lingüística, enriquecendo significativamente a análise de O coronel e o lobisomem, romance merecidamente tido como uma das obras-primas da produção literária brasileira. Este tipo de análise poderá corroborar o significativo potencial elucidativo de um estudo literário alicerçado nos aportes da ciência lingüística. A partir do trabalho ora empreendido no domínio lexicológico, o tratamento lexicográfico à obra do autor José Cândido de Carvalho se tornará possível em pesquisas futuras. A perspectiva de tais tipos de estudos aponta para a possibilidade de um melhor conhecimento da língua portuguesa tanto em sua variedade literária, escrita, como na fala, pois verificamos que muitos vocábulos e expressões utilizadas na literatura originam-se ou sobrevivem na linguagem cotidiana.

 

1.     As ciências do léxico

 

Dado que as disciplinas relacionadas com o estudo da linguagem mantêm um processo de “cooperação recíproca” (BARBOSA, 1992), ao mesmo tempo em que conservam sua identidade e especificidade, faz-se necessário delinear os espaços de atuação de cada uma.

         Para Barbosa (1992), a distinção entre Lexicologia e Lexicografia, por um lado, e entre Terminologia e Terminografia, por outro, se dá em termos da dicotomia aristotélica entre episthmh (ciência) e tecnh (arte). Deste modo, Lexicologia e Terminologia se apresentam como saberes, ou seja, designam o processo de construção de uma forma de conhecimento, enquanto Lexicografia e Terminografia são técnicas e, portanto, referem-se à aplicação prática da ciência, “aplicação de um saber a um fazer” (BARBOSA, 1992, p. 152).

É muito freqüente a confusão entre Terminologia e Lexicologia, dado que ambas elegem como objeto de análise a palavra. Pontes (1997, p. 46) ressalta que “Terminologia e Lexicologia, apesar de trabalharem com a palavra, lançam mão de métodos, técnicas e objetos distintos, apresentando-se como disciplinas diferentes”.

A Terminologia tem se configurado como disciplina voltada para as áreas técnicas, motivada pelo desenvolvimento das ciências, tecnologias, meios de comunicação, comércio e relações internacionais e pela presença cada vez maior das multinacionais, freqüentemente introduzindo novos termos calcados em empréstimos da língua inglesa, espécie de “língua franca” das ciências, da academia, das relações internacionais e do mundo dos negócios. Neste sentido, a Terminologia pode ser vista como uma especialização surgida a partir da Lexicologia, ciência do léxico em geral.

Por Terminografia se entende a prática, a técnica de construção de dicionários especializados ou glossários de termos relativos a línguas de especialidade. A prática terminográfica alicerça-se na ciência terminológica e busca atender às demandas de um mundo em constante desenvolvimento científico e cada vez mais voltado para a troca de conhecimentos e técnicas em nível internacional.

A partir das considerações de Pontes (1997, p. 46), construímos o seguinte quadro, enfatizando as distinções entre Lexicologia e Terminologia no que diz respeito a objeto de estudo, perspectivas, metodologia, métodos de recolhimento de dados, objetivos, tarefas e domínio:

 

 

LEXICOLOGIA

TERMINOLOGIA

Objeto de estudo

as unidades lexicais

o termo

Perspectiva

descritiva

normativa

Metodologia

semasiológica

onomasiológia

Métodos de coleta

palavras selecionadas pelo valor semântico

termos selecionados por área de estudo

Objetivo

“prática dicionarística”; nomenclatura da língua comum

disponibilização de resultados ao usuário; dicionários terminológicos

Tarefa

definir – decodificação

nomear – codificação

Domínio

língua geral

línguas de especialidade

Figura 1: Lexicologia e Terminologia

 

         A Lexicologia se apresenta, portanto, como o ramo da Lingüística dedicado ao estudo científico do léxico. Entre as inúmeras tarefas da Lexicologia, Barbosa (1992, p. 154) aponta para a possibilidade do estudo de um “conjunto de palavras de determinado sistema, ou de um grupo de indivíduos, como universo léxico ou conjunto vocabulário”. Tal estudo pode ser empreendido a partir de uma perspectiva diacrônica, sincrônica ou pancrônica, através de um tratamento qualitativo ou quantitativo, descritivo ou aplicado. No caso deste trabalho, privilegio uma abordagem sincrônica aplicada à obra literária já referida, destacando, nos dados, seu aspecto qualitativo, mais que o quantitativo.

         A Lexicografia, por sua vez, também toma como objeto de análise a palavra, mas a enfoca como técnica de sistematização, processamento e ordenação em forma de dicionários, vocabulários e glossários, especializados ou não. Lexicografia, então, se distinguirá da Lexicologia por ser “técnica de dicionários”, enquanto esta é “estudo científico do léxico”. Embora mantenhamos este trabalho predominantemente no domínio da Lexicologia, sabemos que as fronteiras das disciplinas são, na prática, de difícil delimitação. Seguindo-se Barbosa (1992, p. 155), o estudo de aspectos do vocabulário de um autor insere-se dentro da noção de Universo de Discurso, que compreende “um conjunto de discursos manifestados e manifestáveis, caracterizados por constantes e coerções, suscetíveis de configurarem uma norma discursiva” (ênfase no original).

         O estudo do vocabulário de um autor, “passível de tratamento lexicográfico” (BARBOSA, 1992, p. 155) possibilita, após a efetivação deste tipo de tratamento, o surgimento de dicionários como Aragão (1990) e Aragão et al. (1992). Como afirmei anteriormente, esse tratamento especializado não é o objetivo deste trabalho.

 

2.     O Coronel e o Lobisomem

 

         Tido como “obra-prima” por figuras como Raquel de Queiroz e Ariano Suassuna, e colocado por Érico Veríssimo “entre os melhores romances da literatura brasileira de todos os tempos”, O Coronel e o Lobisomem mereceu de Bosi (1992, p. 484) apenas um curto parágrafo, em que o historiador da literatura destaca em seu autor, José Cândido de Carvalho, “os pendores do ficcionista para explorar o ridículo das suas criaturas” e a “justeza expressiva da sua linguagem verdadeiramente clássica sem deixar de ser moderna”. Na verdade, a obra de José Cândido de Carvalho merece bem mais que essas simples menções.

         Romancista e jornalista, José Cândido de Carvalho nasceu em Campos dos Goitacases em 5 de agosto de 1914. Escreveu apenas dois romances, com um lapso de 25 anos entre eles: o primeiro, Olha para o Céu, Frederico!, data de 1939; O Coronel e o Lobisomem foi publicado em 1964, tendo sido traduzido para o francês, o espanhol e o alemão, sendo publicado também em Portugal. Além dos romances, publicou seleções de “contados, astuciados, sucedidos e acontecidos do povinho do Brasil”: Porque Lulu Bergantim não Atravessou o Rubicon (1971), Um Ninho De Mafagafes Cheio de Mafagafinhos (1972) e Os Mágicos Municipais (1984), além de Manequinho e o Anjo da Procissão (1974) e Ninguém Mata o Arco-Íris (1972). Em 1974, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira antes pertencente ao poeta Cassiano Ricardo.

         Em nota apensa ao livro (p. xii), Raquel de Queiroz revela que, quando da leitura de sua primeira edição, fora vítima daquilo que considera ser o maior triunfo do romancista em relação ao leitor:

 

Fazer com que o dito leitor se esquecesse completamente de que havia um autor de permeio e tratasse o protagonista como figura de vivente, como homem, como gente, apaixonante e de carne, tal como nós. No artiguinho me desmancho em louvores e amores para com o coronel, inteiramente esquecida de que o herói Ponciano de Azeredo Furtado não passava de invenção pura desse mestre inventador que é José Cândido de Carvalho. Me derramo em louvaminhas...

 

Em nova leitura da obra, para outra edição, a escritora reafirma a qualidade do romance e, desta vez, do romancista. A avaliação surpreende pela ênfase e pelo entusiasmo, mais surpreendentes ainda por serem provenientes de uma igualmente grande figura de nossa literatura.

 

Me curvo na maior reverência; não fosse eu a velha senhora e ele para mim um menino, até lhe tomava a bênção, de tanto o admirar. Dá vontade de arranjar um alto-falante e sair por essas ruas proclamando as excelências incomparáveis do importantíssimo romancista brasileiro, José Cândido de Carvalho. E solenemente ratifico o registo expedido em 1964: Com O coronel e o lobisomem José Cândido de Carvalho deu vida nova ao regionalismo brasileiro (p. xiv).

 

         A importância do estudo do vocabulário de José Cândido de Carvalho é mais que corroborada pelos comentários de Raquel de Queiroz sobre sua linguagem:

 

Não sei de ninguém, no momento, que renove o idioma como o renova ele. Vira e revira a língua, arrevesa as palavras, bota-lhes rabo e chifre de sufixos e prefixos, todos funcionando para uma complementação especial de sentido, sendo, porém, que nenhum provém de fonte erudita, ou não falada; nenhum é pedante ou difícil, tudo correntio, tudo gostos, nascido de parto natural, diferente só para maior boniteza ou acuidade específica. No léxico de Zé Cândido não aparece uma palavra que não seja possível; se ela não havia até aqui, estava fazendo falta... Falar verdade, é o gênio da língua que baixa nesse moço... O que estava por fazer, nestes seiscentos ou mais anos de língua portuguesa, o que o povo não inventou ou os autores não codificaram, esse brasileiro inventa por conta própria e depois oferece à gente de graça. Agora é só imitar – quem tiver competência! (p. xiv).

 

         É precisamente isso o que José Cândido de Carvalho faz: usar palavras velhas com sentido novo, imprevisto ou pouco freqüente. No que diz respeito às designações da mulher, verificamos exatamente essas características do léxico desse autor lamentavelmente tão pouco conhecido.

 

3.     O léxico da mulher em O Coronel e o Lobisomem

 

         Conforme estabeleci acima, classificarei os nomes e expressões colhidas através da análise do romance em três categorias: (a) os vocábulos e expressões designativos da mulher como pessoa; (b) vocábulos e expressões referentes a atributos físicos, partes do corpo e outras alusões à mulher; e (c) vocábulos e expressões referentes às mulheres das paixões do Coronel Ponciano de Azeredo Furtado.

 

a)      Vocábulos e expressões designativos da mulher

 

Por vocábulos e expressões designativas da mulher, refiro-me aqui àquelas palavras ou locuções dirigidas à mulher, de forma genérica, ou a uma mulher em especial. Na maioria das vezes, essas designações mais individualizadas são aplicáveis genericamente. Por ordem de freqüência, essas formas de designar se verificam como segue:

 

moça(s)

moça aparelhada de todos os comprovantes

moça arrumadeira

moça bonita

moça calhada para cativar

moça competente

moça da Rua dos Frades

moça das águas

moça das arrumagens

moça das tranças

moça de bacia larga

moça de casa montada

moça de fora dos pastos

moça de largas prendas

moça de quarto e livro

moça de sala e salão

moça de vira-e-mexe

moça do chalé

moça do Coliseu dos Recreios

moça do mar

moça do meu bem-querer

moça do Rio

moça donzela

moça dos cravos

moça dos Moulin-Rouge

moça educada

moça em tarefa de manceba

moça facilitada

moça militante

moça nova

moça pretendida

moça professora

moça roubada

moça sereia

moça solteira

moça teúda e manteúda

moça vaga

moça vistosa

moças da ribalta

moças das ribaltas

moças desencaminhadas

moças desonestadas

Figura 2: O vocábulo moça

 

         O vocábulo moça é de longe o mais freqüente designação atribuída à mulher no romance. Considere-se ainda que não listo aqui suas ocorrências isoladas, mas apenas as compostas, modificadas por um adjetivo ou locução. Merecem destaque especial as expressões referentes a moças prostituídas ou amasiadas. A lista é extensa e bastante colorida:

 

*      moça de casa montada

*      moça de vira-e-mexe

*      moça em tarefa de manceba

*      moça facilitada

*      moça militante

*      moça teúda e manteúda

*      moça vaga

*      moças das ribaltas

*      moças desencaminhadas

*      moças desonestadas

 

Por outro lado, as moças “de família” podem ser referidas de forma respeitosa e cerimoniosa, ou de modo bastante sensual:

 

*      moça aparelhada de todos os comprovantes

*      moça bonita

*      moça calhada para cativar

*      moça competente

*      moça das tranças

*      moça de bacia larga

*      moça de fora dos pastos

*      moça de largas prendas

*      moça de quarto e livro

*      moça de sala e salão

*      moça do meu bem-querer

*      moça donzela

*      moça educada

*      moça nova

*      moça pretendida

*      moça professora

*      moça solteira

*      moça vistosa

*      mocinha de tranças

 

Em seguida, e sempre por ordem de freqüência, aparece o vocábulo menina, também utilizado para nomear tanto as mulheres “respeitáveis” como as mulheres prostitutas ou prostituídas.  Uma moça respeitável é uma “menina de muitas prendas”, “menina donzela”, “menina professora” ou “menina devocioneira”. A prostituta é “menina de palco” “menina da ribalta” ou “menina Zizi”, numa referência às antigas casas de prostituição de moças estrangeiras, os Moulin-Rouge. As prostitutas também são “meninas de vira-e-mexe”.

 

menina

menina arrumadeira

menina de muitas prendas

menina de palco

menina de suas paixões

menina do Rio

menina donzela

menina nova

menina professora

menina Zizi

meninas das ribaltas

meninas de vira-e-mexe

meninas devocioneiras

meninas do Colégio

Figura 3: O vocábulo menina

 

         Numa referência à questão da virgindade, as designações pelo vocábulo donzela revelam os valores patriarcais e machistas da sociedade brasileira na época dos coronéis (Figura 4). A moça “honesta” é “donzela de primeira mão” ou “donzela a olho nu”, sendo, portanto, “donzela de sofá e casamento”, enquanto a moça “desonestada” pode ser reconhecida pelo olho experiente como “despossuída de seu etecétera e tal de nascença”.

 

 

donzela

donzela a olho nu

donzela das águas

donzela de primeira mão

donzela de sofá e casamento

donzela garantida

moça donzela

Figura 4: O vocábulo donzela

 

         Verifica-se ainda um grande volume de expressões menos recorrentes, mas nem por isso menos significativas. Essas expressões abrangem desde a designação de moças de família e prostitutas a referências à sereia de uma das aventuras do coronel ou a senhoras casadas ou amasiadas com pessoas conhecidas do herói Ponciano. A mais freqüente dessas ocorrências é “rabo-de-saia”, com as variantes “rabão-de-saia”, “rabo-de-saia mal intencionado”, “bicho de saia”, “gente de saia” e “povo de saia” (mais de trinta vezes na obra). Uma ocorrência também muito freqüente é “teúda e manteúda”. Vejamos a lista:

 

rabo-de-saia

*      rabão-de-saia

*      rabo-de-saia mal intencionado

*      bicho de saia

*      gente de saia

*      povo de saia

teúda e manteúda

dama

*      dama de muita dificuldade em conceder benefícios

*      dama de procissão

*      dama de respeito

*      dama educada

dona

*      dona de casa-de-porta-aberta

*      dona do meu bem-querer

*      dona dos meus quebrantos

madama

*      madama

*      madama de grande valimento

*      madamas

mulata nova

mulatas de fina escolha

peça bem acabada

peças avultadas

povo das ribaltas

povo de diploma

senhora de família

senhora de respeito

sereia das águas

sereia do mar

obrigação

cabrita nova

encantada do mar

francesada

francesada supimpa

gente da ribalta

mestra de letras

mulher sucumbida

Figura 5: Outros vocábulos e expressões

 

b)      Expressões designativas de partes do corpo, atributos físicos e similares

 

Ao lado das palavras e expressões designativas da mulher em geral ou de uma mulher específica, encontramos referências dotadas de expressiva sensualidade e que dizem respeito a partes específicas do corpo feminino ou a designações metonímicas da mulher ou de seu corpo. Entre as expressões designativas de partes do corpo, destaco:

 

amassador de sofá

bojudo assento

compartimento

crescidos do debaixo das blusas

despidos

encontrados

frentes e partes subalternas

guarnição de pernas de fina nascença

guarnição traseira

par de estofados

par de platibandas

par de popas

par de tranças

partes

partes altas

particulares

por-baixos da moça

possuídos

protocolos

repartição

repartição dos fundos

Figura 6: Partes sensuais do corpo

 

As partes privilegiadas são os quadris, designados, com uma dose de bom humor, como “amassador de sofá”, “repartição dos fundos” ou “guarnição traseira”, ou voluptuosamente como um “bojudo assento” ou “par de popas”. Os seios, igualmente bem apreciados, são referidos como os “crescidos do debaixo das blusas”, os “por-baixos”, as “partes altas” ou “par de estofados”. Uma designação mais genérica é “frentes e partes subalternas”.

Além dessas designações alusivas a partes sensuais do corpo e atributos físicos, o corpus inclui referências à mulher de caráter metonímico. Assim, de acordo com o coronel Ponciano de Azeredo Furtado, é possível referir-se à mulher, ou à circunstância de estar com uma mulher, como gozar de “perna de moça”, “perna ou anca”, “cara bonita”, “costela de moça”, “pernas ou caras” ou “braço de moça”. Estar com prostitutas, moças das ribaltas, é desfrutar das “pernonas das Zazás”. Disvirginar uma moça, do ponto de vista do macho, é privá-la de seus “protocolos” ou “etecétera e tal de nascença”.

 

c)       As mulheres das paixões do coronel

 

O coronel, dado às farras desde a meninice, jamais se casa, embora tente várias vezes “tomar estado”, especialmente em sua idade madura. Variadas são as suas paixões, por vezes bem passageiras. No entanto, há três casos em que a paixão durou mais, de modo que a pretendida foi designada de muitas formas. Em dois desses casos, a frustração dos desejos do coronel o leva a encerrar suas referências a essas mulheres de forma bem enfática. O coronel se despede de D. Isabel Pimenta e D. Esmeraldina Nogueira, a quem antes dedicava todo o seu afeto, chamando-as de “cachorra” e “vaca”, respectivamente.

D. Branca dos Anjos é a paixão da juventude de Ponciano. Essa paixão é frustrada pelos cuidados do pai de Branca, que trata de guardar sua “donzelice” em sítio seguro, ao suspeitar das intenções de Ponciano de roubar a moça. Por essa razão, as tranças da moça sempre serão lembradas pelo coronel com muita saudade. Branca é a paixão pura, mas inatingível, a quem Ponciano se refere sempre com muita melancolia. Ela é a “moça das tranças”, de “andar de cobra” e possuidora de muitas “prendas e esmerada guarnição traseira”. Ponciano se refere a ela como a “dona (ou moça) do meu bem-querer”: ela é a “menina Branca dos Anjos”.

D. Isabel Pimenta é uma professora que chega à fazenda em busca de saúde para seus pulmões. Moça educada, impressiona o coronel, que a chama de “moça vistosa”, “moça professora”, “menina Isabel” ou “menina professora”. Decepcionado por Isabel recusar “tomar estado” com ele, preferindo um primo do seu tempo de infância, o coronel passa a suspeitar de sua donzelice. Não pode ser “donzela de primeira mão” uma moça que brincou com primo quando criança; sem dúvida, a “mestra de letras” é uma “cachorra”, uma “sem-vergonha”.

D. Esmeraldina Nogueira é a maior paixão de Ponciano, sempre frustrada e adiada. Ela é casada, por isso é designada como a “mulher de Nogueira” (treze vezes no romance). Sempre enganando o coronel em proveito de si e do marido, Esmeraldina, com suas covinhas no rosto, faz crer a Ponciano que é “dama quase submetida”, ou mesmo “mulher sucumbida” diante de seus dois metros de altura, em “feitio de palmeira”. Ponciano devota verdadeira adoração a Esmeraldina, a quem se refere respeitosamente como a “dona da casa”, “dama da Rua dos Frades”, “moça do chalé” e, melancolicamente, “dona dos meus quebrantos”. Com tantas esperanças frustradas, o coronel conclui que D. Esmeraldina é “dama de muita dificuldade em conceder benefícios”. Somente quando se percebe arruinado financeiramente, explorado e abandonado por Nogueira e sua “corja”, o coronel reconhece que Esmeraldina não passa de uma “vaca”.

 

Conclusão

 

         Os resultados deste trabalho mostram a produtividade de uma abordagem lingüística, lexicológica, ao domínio da literatura. Por outro lado, os vocábulos e expressões levantadas no corpus demonstram a riqueza e a relevância do estudo do vocabulário de José Cândido de Carvalho e de seu romance O Coronel e o Lobisomem.

         O tratamento lexicográfico ao corpus seria o passo desejável após essa pesquisa inicial. A elucidação do vocabulário apontado pelo presente trabalho sem dúvida contribuirá para o enriquecimento dos estudos do léxico da língua portuguesa falada e escrita no Brasil.

         Numa época em que tanto se fala e se persegue o ideal da interdisciplinaridade, estudos que procuram aproximar dois domínios teóricos tão afins como a Lingüística e a Literatura deveriam ser enfatizados e encorajados. A realização deste trabalho mostra que a Lexicologia, bem como a Lexicografia, são disciplinas que podem contribuir para esse processo de aproximação e enriquecimento mútuo.

 

Referências

 

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BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1992.

CARVALHO, José Cândido de. O coronel e o lobisomem. 40. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991.

PONTES, Antonio Luciano. Terminologia científica: o que é e como se faz. Revista de Letras, v. 19, n. 1/2, p. 44-51, jan./dez. 1997.

VILLELA, Mário. Estrutura léxica do português. Coimbra: Almedina, 1979.

 

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