ORFEU SPAM 23/24

Jornal Eletrônico de Poesias e Artes

Editora: Epsilon Volantis

ISSN: 1807-8311

Orfeu Spam é uma publicação trimestral de poesia, música e artes em geral.

São Paulo, março-abril de 2011 / setembro-outubro de 2011.

Orfeu Spam está no ar desde janeiro de 2003

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Sessão Marginália: Elcy Luiz da Cruz - O Romance de Vanguarda

 

   Elcy Luiz da Cruz: O Romance de Vanguarda

Prof. Dr. Jayro Luna

 

   Elcy Luiz da Cruz é um romancista de além da modernidade, não diria pós-modernidade, pois o termo tem complicações ideológicas que não cabem bem na obra deste escritor. Num sentido estrito do termo, ele é Metamoderno. Lançado pela Edupe (editora da Univ. de Pernambuco), o livro No Meio da Noite Escura (Recife, 2009) é um romance de invenção. De invenção no sentido de que é fruto de uma reinvenção do contar histórias, da narração, conquanto esta seja a tipologia textual mais comum dos romances. As referências literárias são muitas na obra: Policarpo Quaresma (Lima Barreto), Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Raimundo Carreiro... Mas não são referências caóticas, elas compõem um panorama meta-romanesco, uma vez que entram como artifício para construção da consciência do personagem-narrador. Este, em primeiro pessoa, vai compondo uma sequencia de imagens ou cenas do cotidiano de uma grande cidade (Recife), destacando-se a violência urbana, a corrupção das instituições públicas, o papel contraditório da Igreja e a desumanização dos indivíduos. Um personagem comparece com relativa frequencia nos diferentes quadros ou cenas, mas se o leitor não estiver atento nem percebe sua presença de tanto que está acostumado com ela, no seu cotidiano: A TV: "Há muito não sabia o que era sono. Deitei com uma ressalva. Meu time jogava pela Libertadores, mas eu só pude assistir pela TV" (p.7)

 

"A menina despencou do quinto andar. Pãe e mãe suspeitos. Uma história inacreditável. O mais inacreditável foi assistir à telenovela que virou o caso. As pessoas chegavam mais cedo do trabalho para não perder o novo capítulo da desgraça humana. Luz. Câmera. Ação. Efeitos especiais. Em vez da menina, uma boneca despencava do quinto andar. A cena foi repetida várias vezes. O delegado não se cansava de dar entrevistas." (p.8)

"Trouxera a TV na mala. Mas num lugar de pouca luz logo ela perdeu sua serventia." (p.15)

 

   Os crimes, a ação da polícia, a presença do padre, enfim essas cenas vão se reiterando em diferentes contextos do retrato que o narrador vai compondo. Com ironia, o narrador vai mostrando seu descrédito nas instituições, na liberdade individual, na religião, na política. Quando lhe roubam o carro, p.ex., a polícia consegue recuperá-lo em termos, afinal, o automóvel todo depenado não era mais que uma carcaça, ainda assim o narrador teve que pagar propina para retirar o que fora encontrado. Um acidente na estrada, um assassinato, coisas do tipo, são apresentados com a fluência e a frequência de uma página policial de jornal, ou de um programa de notícias policiais da TV. Benedito Gomes Bezerra que prefacia o livro, escreve:

 

"A violência urbana pura e simples (?), ou a violência institucional nem tão pura e muito menos simples, estão em toda parte. Delas não se pode escapar. A personagem do romance, o eu que nos fala a partir dele, é um homem marcado pela violência, obcecado pelo trauma da violência, (per)seguido pelos 'cavaleiros da noite escura' para onde quer que vá. Nem mesmo a retirada para o sertão o livra do fantasma da morte ainda que acidental." (BEZERRA, B.G., "Apresentação")

 

    Nesta situação a companhia do remédio tranquilizante é o índice do estado emocional deturpado do narrador, em constante conflito entre o mundo exterior - violento, corrupto - e a necessidade de manter a tranquilidade no ambiente familiar: "O lansoprazol invadiu minha manhã de segunda-feira. Havia tomado comprimidos para dormir. Mal curado de uma ressaca embarcava em outra. O mundo é uma náusea." (p.63)

   A consulta ao psicólogo, traumatizado que estava pelo assalto sofrido. Apresenta-se um diálogo direto, repleto de ironias veladas e de incongruências, a desnudar não apenas o estado emocional do narrador, mas a frieza mecânica da práxis do psicólogo, que a medida que o paciente vai contando seu sentimentos, seus medos, o psicólogo vai repetindo a mesma frase como um refrão catártico: "Isso é normal"! A normalidade, pois, seria o mundo violento, de pessoas com medo, receosas do próximo instante.

   Observemos um trecho do parágrafo intitulado "Álbum de Família":

 

"A filha que planejou o assassinato de mãe e do pai. O filho que matou a mãe. O casal que jogou a filha pela janela. O tio que estrangulou a sobrinha. O neto que queimou a avó. O avô pedófilo. O irmão que sequestrou a irmã. O pai que deu um murro no bebê. O padre que teve cinco filhos. O pastor que estrupou uma menina de treze anos. O professor preso com cinco papelotes de pó. Uma planta encontrada no quintal de casa. O pai e a mãe que prostituíam os filhos. Os menores que abandonaram o lar. O lar não existe mais / ninguém volta ao que acabou / Joana é mais uma mulata triste que errou / errou na sorte." (p.55)

 

   Observemos que a frase "A planta encontrada no quintal de casa", em si, nada quer dizer além de um acontecimento simples, sem violência, mas no contexto em que está inserida, é um crime, afinal esta planta só pode ser uma planta proibida, como a maconha, p.ex. No final uma referência musical, dá um tom de lirismo trágico. Os vários títulos familiares (pai, mãe, avô, tio, neto) vão se avolumando como partícipes, mentores ou praticantes de ações criminosas. A família está no centro da violência, justamente a família que o autor pretende preservar. Eis aí sua grande fobia, seu grande medo, a razão de sua paranóia.

Acontecimentos datáveis e que foram grande destaque na televisão se misturam aos crimes do cotidiano urbano: O caso Jean Charles, o sequestro de Abílio Diniz, são alguns exemplos.

 

"Num assalto:

-O álbum ou a vida!

-Quem tá valendo mais?

-Boa pergunta...

O bandido matou a vítima e levou o álbum pro garantia.

Fim do assalto" (p.56-57)

 

   Como narra-se na página 60, a origem do título do romance é o próprio estado convulso e paranóico do cenário urbano:

"No meio da noite escura é impossível construir uma história. Como tudo é confuso. Como tudo é convulso." (p.60)

O romance No Meio da Noite Escura é mais do que um retrato literário do mundo urbano violento das grandes cidades brasileiras, em que a violência dos criminosos tem uma relação de contiguidade com a corrupção da instituições. É também um exercício de construção da narrativa contemporânea, em que a fragmentação, a cena cotidiana buscam não a sequencia narrativa, mas a apresentação instantânea do significado alegórico e irônico.

 

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