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EUGÊNIO DE CASTRO

 

Gustave Moreau - Salomé

SALOMÉ

Por: Eugênio de Castro

 A Manuel da Silva Gaio

Die autem natalis Herodis, satavit filia Herodiadis in médio & placuit Herodi.

Unde cum juramento pollicitus est ei dare quodcumque postulasset ab eo.

Atilla praemonita à matre sua: Da mihi, inquit, hic in disco, caput Joannis Baptistae.

Ev. Sec. Matthaeum, cap. XZIV.

 

 

I

Grácil, curvada sobre os feixes

De junco verde a que se apóia,

Salomé deita de comer aos peixes,

Que na piscina são relâmpagos de jóia.

Frechas de diamante, em fúrias luminosas,

Todos correm febris, ao cair das migalhas,

Armando rútilas batalhas

De pedras preciosas...

 

 

Como resplende a filha de Herodias,

Do seu jardim entre as vermelhas flores!

Corre por toda ela um suor de pedrarias,

Um murmúrio de cores...

 

 

Sua faustosa túnica esplendente

É uma tarde de triunfo: em fundo cor de brasas,

Combatem fulvamente

Irradiantes tropéis de áureos dragões com asas,

E sobre as jóias, sobre as lhamas, sobre o ouro,

Tão vivo bate o sol, que a princesa franzina,

Ao debruçar-se mais, julga ver um tesouro

A fulgurar, a arder no fundo da piscina...

 

 

Sai do jardim a infanta: calor a sufoca.

Não pode mais sofrer do sol as ígneas setas...

Com um ramo de jasmins sacode as borboletas

Que lhe pousam na boca...

Ei-la subindo a escadaria na luz dúbia

Que um velário tamisa: ei-la parando

Junto das jaulas, onde estão sonhando,

Como reis presos, leões da Núbia...

Erguem-se irados os leões, ouvindo passos,

Mas, vendo Salomé, aplacam seu furor

E, em movimentos lassos,

Dão rugidos de amor!

Fauces escancaradas,

Da túnica os dragões parecem defende-la...

No entanto, Salomé, divinamente bela,

Pelas grades estende as mãos prateadas,

Que os leões cheiram, em lânguidos delírios,

Julgando que são lírios...

 

 

A infanta vai subindo...

Esbelta e esguia,

Num gesto musical que espalha mil perfumes,

Do favorito leão a juba acaricia...

E os outros leões rugem de amor e de ciúmes...

 

 

Voam íbis no céu... e, erguendo-se, brilhantes,

Dos lagos onde nadam flor’s do Nilo,

Os repuxos cantantes

Aclamam Salomé que entra no peristilo...

 

 

II

Finda a lição de dança

Solto o negro cabelo, onde sangram rubins,

E quase nua, Salomé descansa,

Quebrada de torpor, entre fofos coxins...

Ao pé da infanta, Flávia, a dançarina,

Que de Roma chegou para lhe dar lições,

Diz-lhe, agitando, à luz da lua Adamantina,

Seus crotalos de buxo, onde ardem cabuchões:

-“Ninguém te vence, flor, nas danças voluptuosas!

Ora altiva, ora lânguida, ora inquieta,

Traçando no ar gestos macios como rosas,

És navio, serpente e borboleta!

Cheios de garbo e aroma,

Teus movimentos são lascivos como vagas;

Ninguém te vence, flor, quando, dançando, embriagas:

Nem mesmo Júlia, imperatriz de Roma!

Teu nome há-de brilhar mais do que o sol no azul!

Em breve, ó Salomé, que os corações cativas,

Ouvindo a tua fama, os reis do norte e sul

Virão beijar-te os pés, em longas comitivas!”

 

 

Cala-se Flávia...

Longe, na alameda,

Cantam pavões, à luz da lua merencória...

E Salomé, cerrando as pálpebras de seda,

Adormece a pensar na sua glória...

 

 

A infanta sonha...

Num perfumador,

Arde a mirra, e em seu fumo de safiras,

Passa o espectro da filha de Ciniras,

Que assim fala num ritmo embalador:

 

 

-“Como de Atenas as mais nobres filhas,

Áurea cigarra em meus cabelos trouxe;

Em mar de leite prateadas ilhas,

Tais os meus seios de um arfar mui doce...

 

 

Quais as ninfas de Diana nos noturnos

Bosques, assim meus dedos rescendentes

Em meus cabelos; e eram meus coturnos

Sonoros como as cítaras dolentes.

 

 

Vivia com meu pai numas coutadas,

Onde a murta medrava e o rosmaninho;

Ao comermos, à sombra das latadas,

Caiam flor’s nas taças de áureo vinho.

 

 

Quando núbil me vi, vi que era escrava

Do Amor, que andava em brincos com meus seios:

Quis beijos!... mas os moços que avistava

Não venciam meu pai... achava-os feios...

 

 

E então amei meu pai, e de tal jeito

Que certa noite – nunca eu tal fizera! –

Fui meter-me lasciva no seu leito,

Sem que ele imaginasse quem eu era!

 

 

Mau Fado para o incesto me impelia!

Meu pai, dando-me beijos, desflorou-me,

E arbusto me encontrei ao outro dia,

Mirra chamado, pois lhe dei meu nome...”

 

 

Rompem aromas p’la janela aberta,

E a luz da lua pálida, ambarina,

Bate em cheio na infanta, que desperta...

 

 

Mas eis que no aposento

Entram, a soluçar, doridas, as escravas,

E uma delas exclama num lamento:

-“Acaba de morrer o leão que mais amavas!”

Salomé assombrada,

Cerra as convulsas mãos, rasga os belos vestidos,

Solta um ai, que reluz como desnuda espada,

E, açoitada p’la dor, cai no chão, sem sentidos...

 

 

 

 

III

Agora, do leão na jaula, João Batista,

A rugir como um leão, passa as noites e os dias...

Sua voz angural, inflamada, contrista

E aperta sem cessar a alma de Herodias.

 

 

Moreno, cor de bronze, os cabelos crescidos,

Olhos doidos, febris, cheios de maldições,

Seus sonoros rugidos

Fazem tremer de susto os outros leões!

 

 

Poucos se afoitam a passar diante dele,

E se alguém passa e a fugir, em doido anseio;

Apenas Salomé, a princezinha imbele,

Se aproxima da jaula, sem receio...

 

 

E João, que para os outros é feroz,

É para ela um dócil cordeirinho:

Mal a vê, amacia a rude voz,

Mudando o olhar de ferro em doce olhar de arminho...

 

 

Salomé ama João

Ainda mais do que amava o leão que lhe morreu,

Passa horas sem fim, cheia de comoção,

A ouvi-lo discorrer sobre Jesus e o Céu...

Logo pela manhã, leva-lhe de comer,

Iguarias sensuais, dignas de grandes reis,

Dá-lhe flor’s a cheirar e vinhos a beber,

-E até lhe deu um dos seus fúlgidos anéis...

E o austero Precursor, o filho de Isabel,

Que andava nu ao sol, mastigando raízes,

Ama perdidamente o delicado anel

Cuja pedra lhe doura as noites infelizes...

 

 

IV

No dia dos seus anos,

Herodes, p’ra aquietar o triste coração,

Convidou os vizinhos soberanos

E deu-lhes festim de humilhar Salomão.

A preciosa baixela esplende ao sol flamante,

Entre um aluvião de nardos e camélias,

Dos escravos o andar segue o ritmo ondulante

Das hebraicas nubélias...

Canta, ao meio da sala, um repuxo aromático,

Ardem gemas sem conto ao longo das estolas,

E do arábico incenso o nevoeiro lunático

Sobe entre a exaltação das lânguidas violas...

Entra um enorme peixe, um peixe surpreendente,

Que nas escamas tem todas as cor’s do céu;

E o velho Herodes conta a história comovente

Do anel que um certo rei lançou ao mar Egeu.

Os olhos fulgem sob as c’roas de verbenas,

Passam guisados mil, nadando em molhos flavos,

E em belos pratos de ouro os céleres escravos

Trazem nobres pavões de consteladas penas.

 

 

Três grandes javalis e dois veados inteiros

Produzem mudo assombro; o calor asfixia...

Em taças musicais fervem vinhos traiçoeiros,

E das nubélias sobe a clara melodia...

Cada matrona exibe os seios sem mistério,

A alta flor do repuxo inflama-se, Argentina,

E Lisânias, tetrarca de Abilina,

Recita versos gregos de Tibério...

Herodias sorri com sorrir jocundo,

Da luxúria palpita a abrasada maré;

De súbito, porém, tudo se cala:

ao fundo,

Aparece, dançando a linda Salomé.

 

 

Radioso véu, mais leve que um perfume,

Cinge-a, deixando ver sua nudez morena,

Dos seus dedos flameja o precioso lume,

E em cada mão traz uma pálida açucena.

 

 

E a infanta avança então, ao som dos burcelins...

 

 

Como sonâmbula perdida

Em encantados, místicos jardins,

Dir-se-ia que dança adormecida...

Dir-se-ia que dança, desmaiando

Ao perfume das flor’s que estão em roda...

Dir-se-ia que dança e está sonhando...

Dir-se-ia que a estão beijando toda...

..............................................................

Pé ante pé, receosa, dir-se-ia

Que entre dois precipícios vai passando,

E que uma oculta mão, teimosa e fria,

Faze-la resvalar anda tentando...

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Nascem bocas no ar que a estão beijando,

E ela foge-lhes, doida, ansiosa, incerta,

Desmaiando, arquejando, suplicando...

 

 

Calam-se os burcelins e Salomé desperta.

 

 

Rompem aplausos mil em frêmitos de chama,

Dão-lhe jóias de preço as lânguidas mulheres,

Herodias floresce, e o velho Herodes chama:

-“Salomé! Salomé! Dar-te-ei o que quiseres!”

 

 

O que há de ela pedir? De essências um boião?

Um vestido? Um anel? Um véu? Uma turquesa?

Herodias então diz baixinho à princesa:

-“Pede-lhe, minha filha, a cabeça de João!”

 

 

A princesa estremece:

-“O que dizes, mata-lo?

Faze-lo mergulhar no enregelado sono?

Oh! Não... tomara eu, minha mãe liberta-lo,

Vesti-lo como um rei, senta-lo sobre um trono!”

 

 

Mas Herodias diz:

-“Pede sua cabeça,

Se uma glória quer’s ter como ainda ninguém teve,

Embora a sua morte agora te entristeça,

Essa frágil tristeza há-de passar em breve...

O calor dos festins dissipará teus prantos,

A saudade é um fugaz aroma de violetas!

E o mundo saberá, filha, que os teus encantos

Fazem rolar no chão cabeças de profetas!

Essa morte dará um par de asas radiantes

Ao teu nome; andarás em pompas de vitória!

Se quer’s que a tua glória exceda as mais brilhantes,

Rega com sangue quente as raízes da glória!”

 

 

Cantam, de Salomé no perfil de moeda,

Dourado p’la ambição, os olhos de ametista,

E junto do tetrarca a sua voz segreda:

 

 

-“Dá-me a cabeça de João Batista!”

Treme o tetrarca, ouvindo tal:

-“Preferira dar-te

Toda a baixela, todo o meu tesouro...”

 

 

Mas, breve, um gesto seu, um escravo negro parte,

Uma espada levando em um grande prato de ouro...

OARISTOS

 

 

PREFACIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO

(1899)

(...) Com duas ou três luminosas excepções, a Poesia portuguesa contemporânea assenta sobre algumas dezenas de coçados e esmaiados lugares-comuns.

Tais são:

olhos cor do céu, olhos comparados a estrelas, lábios de rosa, cabelos de ouro e de sol, crianças tímidas, tímidas gazelas, brancura de luar e de neve, mãos patrícias, dentes que são fios de pérolas, colos de alabastro e de cisne, pés chineses, rouxinóis medrosos, brisas esfolhando rosas, risos de cristal, cotovias soltando notas também de cristal, luas de marfim, luas de prata, searas ondulantes, melros farçolas assobiando, pombos arrulhadoras, andorinhas que vão para o exílio, madrigais dos ninhos, borboletas violando rosas, sebes orvalhados, árvores esqueléticas, etc..

 

No tocante a rimas, uma pobreza franciscana: lábios rimando sempre com sábios, pérolas com cérulas, sol com rouxinol, caminhos com ninhos, nuvens com Rubens (?),noite com açoite; um imperdoável abuso de rimas em ada, ado, oso, osa, ente, ante, ão, ar, etc..

No tocante a vocabulário, uma não menos franciscana pobreza: talvez dois terços das palavras que formam a língua portuguesa, jazem absconsos, desconhecidos, inertes, ao longo dos dicionários, como tarecos sem valor em lojas de arrumação.

Tais os rails por onde segue, num monótono andamento de procissão, o comboio misto que leva os Poetas portugueses da actualidade à gare da POSTERIDADE, Poetas suficientemente tímidos para temerem o vertiginoso correr do expresso da ORIGINALIDADE.

Inexperiente, o autor dos Oaristos teve um dia a cândida ingenuidade de se meter nesse moroso misto: cinco anos suportou a lentidão da viagem e a má companhia, até que uma e outra começaram a incomodá-lo de tal maneira, que resolveu mudar para o supracitado expresso, preferindo, deste modo, um descarrilamento à secante expectativa de ficar eternamente parado na concorridíssima estação da VULGARIDADE.

......................

Os Oaristos são as primícias dessa nova maneira do Poeta.

Registando:

Este livro é o primeiro que em Portugal aparece defendendo a liberdade do Ritmo contra os dogmáticos e estultos decretos dos velhos prosodistas.

As ARTES POÉTICAS ensinam a fazer o alexandrino com cesura imutável na sexta sílaba. Desprezando a regra, o Poeta exibe alexandrinos de cesura deslocada e alguns outros sem cesura. Tal fizeram, em França, Francis Vielé-Griffin e Jean Moréas.

Os alexandrinos são lançados em pare-lhas, mas os últimos quatro versos de cada Poema tem (tal se faz nos tercetos) suas rimas cruzadas. Salvo erro, é a primeira vez que assim se corta o alexandrino.

Pela primeira vez, também, aparece a adaptação do delicioso ritmo francês, rondel.

Introduz-se o desconhecido processo da aliteração: veja-se o poema XI e muitos versos derramados ao longo desta silva.

Ao contrário do que por aí se faz, ornaram-se os versos de rimas raras, rutilantes: na mais extensa composição, a composição IV, que tem cento e sessenta e dois alexandrinos, não se encontra uma única rima repetida.

O vocabulário dos Oaristos é escolhido e variado. Algumas palavras menos vulgares darão certamente lugar aos comentários cáusticos da crítica. Embora.

O Poeta empregou esses raros vocábulos:

em primeiro lugar, porque às fastidiosas perífrases prefere o termo preciso;

em segundo lugar, porque pensa, como Baudelaire, que as palavras, independentemente da ideia que representam, têm a sua beleza própria. Assim: gomil é mais belo que jarro, cerusa mais belo que alvaiade, etc.;

em terceiro lugar, pela simpatia que lhe merece esse estilo chamado decadente, que tão bem definido foi por Théophile Gautier:

«Style ingénieux, compliqué, savant, plein de nuances et de recherches, reculant toujours les bornes de la langue, empruntant à tous les vocabulaires techniques, prenant des couleurs à toutes les palettes, des notesà tous les claviers, s'efforçant à rendre la pensée dans ce qu'elle a de plus ineffable, et la forme en ses contours les plus vagues et les plus fuyants, écouiant pour les traduire les confidences subtiles de la névrose, les aveux de la passion vieillissante qui se déprave et les hallucinations bizarres del'idée fixe tournant à la folie... Ce n'estpas chose aisée, d'ailleurs, que ce style méprisé des pédánts, car il exprime des idées neuves avec des formes nouvelles et des mots qu'on n'a pas entendus encore...»

Tais são, sumariamente, as capitais inovações que este livro apresenta.

 

PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO

(1899)

(...) A verdade é esta: literariamente, bem pode ser que os Oaristos nada valham, mas, historicamente, ninguém se atreverá a negar-lhes um importante e duradouro lugar na literatura portuguesa do século que finda.

Há neste volume uma forte dose de exagero, que muitos atribuíram a um juvenil desejo de épater le bourgeois, mas que, rigorosamente, deve ser explicada pela necessidade de sublinhar, com um violento traço vermelho, á estagnada vulgaridade das formas poéticas de então.

O efeito da minha tentativa excedeu em amplitude e rapidez os cálculos que eu próprio tinha deitado. Quase todos os meus camaradas, novos e velhos, alguns no galarim, tomaram pelo caminho que eu desbravara. A mobilização da cesura nos alexandrinos, e a dos acentos clássicos no decassílabo, o esmero no emprego das rimas, a escolha rigorosa dos epítetos, o alargamento do vocabulário, a restauração dos moldes arcaicos, o verso livre, a aliteração: – todas essas inovações, iniciadas nos Oaristos e continuadas depois nas Horas, são hoje for-mas correntes na poética nacional, que, evidentemente, saiu, por via delas, da paralisia que a entrevara.

.......................


I

Triunfal, teatral, vesperalmente rubro,
Na diáfana paz dum poente de Outubro,
O sol, esfarrapando o incenso dos espaços,
Caminha para a morte em demorados passos,
Como as bandas que vão a tocar nos enterros...
E surgindo detrás de acuminantes serros,
Melancolicamente a lua de mãos belas,
Tecedeira do azul, tece num tear de estrelas,
Um lenço branco, um lenço alvíssimo e brilhante,
Para acenar com ele ao sol, seu ruivo amante...
Sobre o verde jardim caem penumbras lentas.

Em seus vasos de louça, as flores sonolentas
São berços embalando o dormir dos insectos;
A alma dum arroio, entre avencas e fetos,
Suspirosa, murmura em cascavéis de prata;
Velha Níobe, chora ao longe uma cascata;
Esplendem girassóis como fulvas custódias;
Passam no éter brando as pastorais monódias;
E à flor dum lago, onde o sol cai em flavos feixes
E onde passam legiões de escarlatinos peixes,
À flor dum lago azul, circundado de buxo,
Simbólico, real, levanta-se um repuxo,
Como uma grande flor de cristal a cantar!

Foi numa hora assim, mansa, crepuscular,
Que ao longo desta longa e folhosa alameda,
Altiva, imperial, entre um rugir de seda,
Vi pela vez primeira a Eleita de minh'alma,
A grande Flor subtil, inigualável, alma,
A Maior, a mais Bela, a mais Amada, a Única!

Vinha gloriosa e triste, envolta em negra túnica,
Que no chão se rojava em ondulantes dobras,
Tinha no calmo andar a elegância das cobras,
A leveza dum silfo e a graça duma ânfora,
E, assim como num golpe um alvo pó de cânfora,
O seu olhar fazia doer, olhar profundo.

Eu era nesse tempo um grande vagabundo,
Um precoce infeliz, viúvo de ilusões;
O sinistro fragor das mundanas paixões
Não chegava de há muito a meus ouvidos lassos;
O egoísmo, o grande rei, cingira-me em seus braços;
De ninguém tinha dó, de ninguém tinha inveja...
Contemplando de longe a sórdida peleja,
Esta infrene peleja, a que chamamos vida,
Seguia, alheio a tudo e de cabeça erguida,
Tendo um único irmão: o meu gelado orgulho.
A Dúvida, funesto, ardente sol de Julho,
Queimara, rudemente, a flor da minha crença;
Em meu peito reinava a fria indiferença;
Tinha descarrilado o vagão dos meus sonhos;
Meus dias eram maus, longuíssimos, tristonhos,
Ensopados de névoa e de melancolia...

Mas ao vê-lA surgir triunfalmente fria,
Grácil como uma flor, triste como um gemido,
Meu peito recobrou o seu vigor perdido,
Todo eu era contente e alegre como um rei!
E, cheio de surpresa, abismado, fiquei
A olhar o seu perfil e o garbo do seu colo,
Cheio de admiração, como um homem do pólo
Quando, depois de ter suportado os reveses
Duma noite cruel e fria de seis meses,
Iluminando enfim os tenebrosos trilhos,
Vê surgir, entre a neve, o sol com ruivos brilhos!

O céu fulgia como a cauda dum pavão.

Aos seus cabelos reais prendiam-se no chão,
Triste e amorosamente, as pálidas folhagens,
Enquanto os olhos meus seguiam como pajens,
O seu rítmico andar sonâmbulo e moroso...

Assim me apareceu o Lírio tenebroso,
Cujo ar desprezador me fere e vampiriza,
Criatura esfingial, triste como Artemisa,
Vingativa, feroz e linda como Fásis,
Flor cujo corpo é o aprilino oásis,
O caravansará que, por noites insanas,
Vão demandando embalde as longas caravanas,
As caravanas dos meus nómades desejos...
Assim eu vi brilhar seus olhos malfazejos,
Assim me deslumbrou a graça do seu busto!
Hoje venho cantar em verso nobre e augusto
Seus álgidos desdéns, tão frios como um túmulo,
E seu corpo que é a quinta-essência, o cúmulo
Da esbeltez, do frescor, da graça feminina.

– Flor bizarra, que eu vi à hora vespertina,
Flor marcescente, que eu constantemente sigo,
Flor, que olho sem cessar, como um estilita antigo,
Olhando o flavo sol, de pé, numa coluna,
Flor de trigueiras mãos, de cabeleira bruna,
Em teu regaço ponho este livro a ti feito.
Este livro febril, que delira e que mostra
Um desvairado amor agarrado ao meu peito,
Rara pérola azul agarrada a uma ostra!

II
Em verso vou cantar o meu Diamante preto!

Do mais grácil, estranho e bizantino aspecto,
Flexível corno um junco e esbelto como um fuso,
Seu núbil corpo tem, num dualismo confuso,
A finura do lírio e o garbo das serpentes;
Soberba e esguia, com seus passos indolentes,
Quando caminha. lembra uma túlipa a andar;
Lenta e subtil, parece até que vai no ar,
Como um caule de flor, levada pela aragem;
Basta vê-lA uma vez para que a sua imagem
Leve, tão leve como os perfumes e o som,
Fique vibrando em nós, eternamente, com
A doçura sem par duma voz que se extingue...

Franzino e original, o seu corpo é um moringue
Em cujo colo estreito alguém tivesse posto
Um moreno botão de rosa-chã, – seu rosto,
Grácil botão que exala uma essência secreta,
Botão onde pousou nocturna borboleta
Com asas negras, muito negras, – seus bandós.
Sua desfalecida e liquescente voz,
Dorida como um ai e lassa como um canto,
Sua lânguida voz, maravilhoso encanto,
De que Ela tem o amavioso monopólio,

E um fio de veludo, um suavíssimo óleo:
Suave, a sua voz suave se derrama...

Seu hálito infantil endoidece e embalsama,
Subtil como o ananás, forte como um veneno.

Seu pescoço sem par é um cortiço moreno,
Que os meus desejos vão circundando em colmeia.

Tem música no andar, quando à tarde passeia
Do seu alto balcão nos marmóreos losangos.

A sua boca é um sorvete de morangos.

Seu magro busto oval brilha, como um santelmo,
Sob o seu penteado, esse ebânico elmo
Pesado e nocturnal, com reflexos azuis.

Seu gesto excede em graça as larvas dos paúis,
Que em curvos voos vão voando à flor dos pântanos.

Tem as unhas de opala; o seu riso quebranta-nos;
Vibrante de coral, seus cílios são de seda;
Seu capitoso olhar é um vinho que embebeda;
Seus negros olhos são duas amoras negras!

Original, detesta as convenções e as regras;
Ama o luxo, o requinte e a excentricidade,
Faz tudo o que lhe apraz, impõe sua vontade,
Diz o que sente, sem lisonja, sem disfarce.

Cousa que muito poucos têm, sabe domar-se:
Como é medrosa, a fim de ver se perde o medo,
Às quietas horas do Mistério e do Segredo,
Percorre longos, funerários corredores,
Onde pairam, chorando as suas fundas dores,
Fantasmas glaciais, errantes e protervos!
Nervosa, com o fim de subjugar seus nervos,
Corta as unhas em bico, à guisa de punhais.

– Chega mesmo a morder pedaços de veludo!

Detesta o movimento, as expansões e tudo
O que possa alterar o seu viver inerte;
Não costuma sair; sonha; não se diverte;
Seus raros gestos são cheios de bizarria,
Finos, excepcionais, sem par.
Pedi-lhe um dia
Que me dissesse qual é o sonho singular,
O sonho que Ela mais quisera realizar,
Aquilo que Ela mais desejaria ter,
Ao que Ela respondeu:
– «Desejaria viver
«No pólo norte, numa estufa de cristal!»

Odeia a luz: ama a penumbra vesperal...
Odeia o piano: adora o som lento do órgão...

E suas finas mãos que bem raro me outorgam
A permissão de as oscular, suas mãos finas,
As suas mãos arquiducais, longas, divinas,
Não sustiveram nunca o peso duma agulha.

Ama os perfumes e as visões; odeia a bulha;
Seu corpo estonteante e lânguido que exala
Doces e sensuais aromas de Sofala,
Do Cairo, do Japão, do Iémen e da Pérsia,
Seu corpo sensual foi feito para a inércia:
– Até para falar às vezes tem preguiça!

Tal é a fria Flor taciturna, insubmissa,
Cujos olhos astrais cortam como estiletes,
Tal é a bem Amada impassível, trigueira,
Cujos olhos astrais – agudos alfinetes,
Ferem meu coração – dorida pregadeira!

XI
Um sonho.

Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves.

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
– Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítólas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaiece na messe o rumor da quermesse...
– Não ouves este ai que esmaiece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, à flor dos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse...
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse
O rumor amolece, esmaiece, esmorece...
Dá-me que eu beije os teus' morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse
O atroador clangor, o rumor esmorece...
Rolemos, b morena! em contactos amenos!
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Citolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã. Desperto incerto... E essa quermesse?

 

E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...

XII

Saúde e Ouro e Luxo! A Primavera
Interminável! Viagens! Dias lentos!
Inércia e Ouro! O nome aos quatro ventos!
Noites mornas de amor! Tal a Quimera!

A Sombra! A falta de Ouro que exaspera
E da mulher os falsos juramentos!
Correr mapas! Bocejos sonolentos!
Assim a Vida corre e nos lacera!

Sonhamos sempre um sonho vago e dúbio!
Com o. Azar vivemos em conúbio,
E apesar disso, a ALMA continua

A sonhar a Ventura! – Sonho vão!
Tal um menino, com a rósea mão,
Quer agarrar a levantina LUA!

 

SAUDADES DO CÉU



O DILÚVIO

Há muitos dias já, há já bem longas noites
que o estalar dos vulcões e o atroar das torrentes
ribombam com furor, quais rábidos açoites,
ao crebro rutilar dos coriscos ardentes.

Pradarias, vergéis, hortos. vinhedos, matos,
tudo desapar'ceu ao rude desabar
das constantes, hostis, raivosas cataratas,
que fizeram da Terra um grande e torvo mar.

À flor do torvo mar, verde como as gangrenas,
onde homens e leões bóiam agonizantes,
imprecando com fúria e angústia, erguem-se apenas,
quais monstros colossais, as montanhas gigantes.

É aí que, ululando, os homens como as feras
refugiar-se vão em trágicos cardumes,
O mar sobe, o mar cresce. e os homens e as panteras,
crianças e reptis caminham para os cumes.

Os fortes, sem haver piedade que os sujeite,
arremessam ao chão pobres velhos cansados.
e as mães largam. cruéis, os filhinhos de leite,
que os que seguem depois pisam, alucinados.

Um sinistro pavor; crescente e sufocante,
desnorteia, asfixia a turba pertinaz:
ouvem-se urros de dor, e os que vão adiante
lançam pedras brutais aos que ficam pra trás.

Raivoso, o touro estripa os míseros humanos
que o estorvam, ao correr em fuga desnorteada,
e pelo ar tenebroso as águias e os milhanos
fogem, com vivo horror, daquela estropeada.

Cresce a treva infernal nos cavos horizontes;
o oceano sobe e muge em raivas cavernosas,
e as ondas, a trepar pelos visos dos montes,
fazem de cada vez cem vítimas chorosas!

Os negros vagalhões, nos bosques mais cimeiros.
silvam e marram já, em golpes iracundos;
resplendem raios mil em rútilos chuveiros,
e os corvos, a grasnar, desolham moribundos.

Blasfémias, maldições elevam-se à porfia;
fustigado plo raio, aumenta o furacão;
cada ruga do mar acusa uma agonia,
cada bolha, ao estalar, solta uma imprecação.

Cresce n mar, sobe o mar... e traga, rudemente.
da m ais alta montanha o píncaro nevado.
e um tremendo trovão aplaude a vaga arlente,
que envolve, ao despenhar-se, o último condenado.

Cresce o mar, sobe o mar, que já topeta os céus:
e, levada plo fero e desabrido norte,
sua espuma, a ferver, molha o rosto de Deus,
que lhe encontra um sabor nauseabundo de morte...

Cresce o mar, sobe o mar... Cada vaga é uma torre!
No céu, o próprio Deus melancólico pasma...
E, pelos vagalhões acastelados, corre
a Arca de Noé, qual navio-fantasma...
 

(Simbolismo - Literatura Portuguesa - Apostila 5)