ORFEU SPAM APOSTILAS

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Poemas da Clepsidra, de Camilo Pessanha

- ortografia atualizada segundo a norma brasileira - 

 

[1]

Eu vi a luz em um país perdido.

A minha alma é lânguida e inerme.

Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!

No chão sumir-se, como faz um verme...

[11]

...e lhe regou de lágrimas os pés,

e os enxugava com os cabelos da sua cabeça.

Evangelho de S. Lucas.

 

Ó Madalena, ó cabelos de rastos,

Lírio poluído, branca flor inútil,

Meu coração, velha moeda fútil,

E sem relevo, os caracteres gastos,

 

De resignar-se torpemente dúctil,

Desespero, nudez de seios castos,

Quem também fosse, ó cabelos de rastos,

Ensangüentado, enxovalhado, inútil,

 

Dentro do peito, abominável cômico!

Morrer tranqüilo, - o fastio da cama.

Ó redenção do mármore anatômico,

 

Amargura, nudez de seios castos,

Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,

Ó Madalena, ó cabelos de rastos!

 

[12] PAISAGENS DE INVERNO

I

(A Alberto Osório de Castro)

 

Ó meu coração, torna para trás.

Onde vais a correr desatinado?

Meus olhos incendidos que o pecado

Queimou! Volvei, longas noites de paz.

 

Vergam da neve os olmos dos caminhos.

A cinza arrefeceu sobre o brasido.

Noites da serra, o casebre transido...

Cismai, meus olhos, como uns velhinhos.

 

Extintas primaveras, evocai-as.

Já vai florir o pomar das maceiras.

Hemos de enfeitar os chapéus de maias.

 

Sossegai, esfriai, olhos febris...

Hemos de ir a cantar nas derradeiras

Ladainhas...Doces vozes senis.

[13]

II

(A Abel Aníbal de Azevedo)

 

Passou o outono já, já torna o frio...

- Outono de seu riso magoado.

Álgido inverno! Oblíquo o sol, gelado...

- O sol, e as águas límpidas do rio.

 

Águas claras do rio! Águas do rio,

Fugindo sob o meu olhar cansado,

Para onde me levais meu vão cuidado?

Aonde vais, meu coração vazio?

 

Ficai, cabelos dela, flutuando,

E, debaixo das águas fugidias,

Os seus olhos abertos e cismando...

 

Onde ides a correr, melancolias?

- E, refratadas, longamente ondeando,

As suas mãos translúcidas e frias...

 

 

[16]

Il pleure dans mon coeur

Comme il pleut sur la ville.

Verlaine

 

Meus olhos apagados,

Vede a água cair.

Das beiras dos telhados,

Cair, sempre cair.

 

Das beiras dos telhados,

Cair, quase morrer...

Meus olhos apagados,

E cansados de ver.

 

Meus olhos, afogai-vos

Na vã tristeza ambiente.

Caí e derramai-vos

Como a água morrente.

 

[18] QUANDO?[Castelo de Óbidos]

 

Quando se erguerão as seteiras,

Outra vez, do castelo em ruína?

E haverá gritos e bandeiras

Na fria aragem matutina?

 

Se ouvirá tocar a rebate,

- Sobre a planície abandonada?

E partiremos ao combate,

De cota, e elmo, e a longa espada?

 

Quando iremos, tristes e sérios,

Nas prolixas e vãs contendas,

Lançando juras, impropérios,

Pelas divisas e legendas?

 

E voltaremos, - os antigos,

Os puríssimos lidadores,-

Quantos trabalhos e perigos!

Quase mortos e vencedores?

 

E quando, ó Doce Infanta Real,

Nos sorrirás do belveder?

Magra figura de vitral

Por quem nós fomos combater.

[20]

I

E eis quanto resta do idílio acabado,

- Primavera que durou um momento...

Como vão longe as manhãs do convento!

- Do alegre conventinho abandonado...

 

Tudo acabou... Anêmonas, hidrângeas,

Silindras, - flores tão nossas amigas!

No claustro agora viçam as urtigas,

Rojam-se cobras pelas velhas lájeas.

 

Sobre a inscrição do teu nome delido!

- Que os meus olhos mal podem soletrar,

Cansados...E o aroma fenecido

 

Que se evola do teu nome vulgar!

Enobreceu-o a quietação do olvido.

Ó doce, ingênua, inscrição tumular.

[21]

II

Floriram por engano as rosas bravas

No inverno: veio o vento desfolhá-las...

Em que cismas, meu bem? Porque me calas

As vozes com que há pouco me enganavas?

 

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...

Onde vamos, alheio o pensamento,

De mãos dadas? Teus olhos, que um momento

Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

 

E sobre nós cai nupcial a neve,

Surda, em triunfo, pétalas, de leve

Juncando o chão, na acrópole de gelos...

 

Em redor do teu vulto é como um véu!

¿Quem as esparze - quanta flor! -, do céu,

Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

 

[22]

Foi um dia de inúteis agonias,

Dia de sol, inundado de sol.

Fulgiam, nuas, as espadas frias.

Dia de sol, inundado de sol.

 

Foi um dia de falsas alegrias.

Dália a esfolhar-se, o seu mole sorriso.

Voltavam os ranchos das romarias.

Dália a esfolhar-se, o seu mole sorriso.

 

Dia impressível, mais que os outros dias.

Tão lúcido, tão pálido, tão lúcido!

Difuso de teoremas, de teorias...

 

O dia fútil, mais que os outros dias!

Minuete de discretas ironias...

Tão lúcido, tão pálido, tão lúcido!

[23]

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,

Onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis?

Do meu jardim exíguo os altos girassóis

Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?

 

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)

A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho?

E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?

- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

 

Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.

Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...

Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

 

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,

Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,

De noite a mendigar às portas dos casais.

[24]

I

(A João Jardim)

Imagens que passais pela retina

Dos meus olhos, porque não vos fixais?

Que passais como a água cristalina

Por uma fonte para nunca mais!...

 

Ou para o lago escuro onde termina

Vosso curso, silente de juncais,

E o vago medo angustioso domina,

- Porque ides sem mim, não me levais?

 

Sem vós o que são os meus olhos abertos?

- O espelho inútil, meus olhos pagãos!

Aridez de sucessivos desertos...

 

Fica sequer, sombra das minhas mãos,

Flexão casual de meus dedos incertos,

- Estranha sombra em movimentos vãos.

[25]

II

(A Aires de Castro e Almeida)

Quando voltei encontrei os meus passos

Ainda frescos sobre a úmida areia.

A fugitiva hora, reevoquei-a,

- Tão rediviva!, nos meus olhos baços...

 

Olhos turvos de lágrimas contidas.

- Mesquinhos passos, porque doidejastes

Assim transviados, e depois tornastes

Ao ponto das primeiras despedidas?

 

Onde fostes sem tino, ao vento vario,

Em redor, como as aves num aviário,

Até que a asita fofa lhes faleça...

 

Toda essa extensa pista - para quê?

Se há-de vir apagar-vos a maré,

Com as do novo rasto que começa...

 

[26] FONÓGRAFO

Vai declamando um cômico defunto.

Uma platéia ri, perdidamente,

Do bom jarreta... E há um odor no ambiente

A cripta e a pó, - do anacrônico assunto.

 

Muda o registo, eis uma barcarola:

Lírios, lírios, águas do rio, a lua.

Ante o Seu corpo o sonho meu flutua

Sobre um paul, - extática corola.

 

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos

Dum clarim de oiro - o cheiro de junquilhos,

Vívido e agro! - tocando a alvorada...

 

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas

Quebra-se agora orvalhada e velada.

Primavera. Manhã. Que eflúvio de violetas!

 

[27] VIDA

Choveu! E logo da terra humosa

Irrompe o campo das liliáceas.

Foi bem fecunda, a estação pluviosa!

Que vigor no campo das liliáceas!

 

Calquem. Recalquem, não o afogam.

Deixem. Não calquem. Que tudo invadam.

Não as extinguem. Porque as degradam?

Para que as calcam? Não as afogam.

 

Olhem o fogo que anda na serra.

É a queimada... Que lumaréu!

Podem calcá-lo, deitar-lhe terra,

Que não apagam o lumaréu.

 

Deixem! Não calquem! Deixem arder.

Se aqui o pisam, rebenta além.

- E se arde tudo? - Isso que tem?

Deitam-lhe fogo, é para arder...

 

[28] SAN GABRIEL

(No quarto centenário do

descobrimento da Índia)

I

Inútil! Calmaria. Já colheram

As velas. As bandeiras sossegaram

Que tão altas nos topes tremularam,

- Gaivotas que a voar desfaleceram.

 

Pararam de remar! Emudeceram!

(Velhos ritmos que as ondas embalaram).

Que cilada que os ventos nos armaram!

A que foi que tão longe nos trouxeram?

 

San Gabriel, arcanjo tutelar,

Vem outra vez abençoar o mar.

Vem-nos guiar sobre a planície azul.

 

Vem-nos levar à conquista final

Da luz, do Bem, doce clarão irreal.

Olhai! Parece o Cruzeiro do Sul!

[29]

II

Vem conduzir as naus, as caravelas,

Outra vez, pela noite, na ardentia,

Avivada das quilhas. Dir-se-ia

Irmos arando em um montão de estrelas.

 

Outra vez vamos! Côncavas as velas,

Cuja brancura, rútila de dia,

O luar dulcifica. Feeria

Do luar, não mais deixes de envolvê-las!

 

San Gabriel, vem-nos guiar à nebulosa

Que do horizonte vapora, luminosa

E a noite lactescendo, onde, quietas,

 

Fulgem as velhas almas namoradas...

- Almas tristes, severas, resignadas,

De guerreiros, de santos, de poetas.

 

[31] AO LONGE OS BARCOS DE FLORES

(A Ovídio de Alpoim)

 

Só, incessante, um som de flauta chora,

Viúva, grácil, na escuridão tranqüila,

- Perdida voz que de entre as mais se exila,

- Festões de som dissimulando a hora

 

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila

E os lábios, branca, do carmim desflora...

Só, incessante, um som de flauta chora,

Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

 

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,

Cauta, detém. Só modulada trila

A flauta flébil... Quem há-de remi-la?

Quem sabe a dor que sem razão deplora?

 

Só, incessante, um som de flauta chora...

 

[32] VÊNUS

(A Pires Avelanoso)

I

Á flor da vaga, o seu cabelo verde,

Que o torvelinho enreda e desenreda...

O cheiro a carne que nos embebeda!

Em que desvios a razão se perde!

 

Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,

Que a onda, crassa, num balanço alaga,

E reflui (um olfato que se embriaga)

Como em um sorvo, múrmura de gozo.

 

O seu esboço, na marinha turva...

De pé, flutua, levemente curva,

Ficam-lhe os pés atrás, como voando...

 

E as ondas lutam como feras mugem,

A lia em que a desfazem disputando,

E arrastando-a na areia, co'a salsugem.

[33]

II

Singra o navio. Sob a água clara

Vê-se o fundo do mar, de areia fina...

Impecável figura peregrina,

A distância sem fim que nos separa!

 

Seixinhos da mais alva porcelana,

Conchinhas tenuemente cor de rosa,

Na fria transparência luminosa

Repousam, fundos, sob a água plana.

 

E a vista sonda, reconstrui, compara.

Tantos naufrágios, perdições, destroços!

Ó fúlgida visão, linda mentira!

 

Róseas unhinhas que a maré partira...

 

Dentinhos que o vaivém desengastara...

Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...

 

[39] VIOLONCELO

(A Carlos Amaro)

Chorai, arcadas

Do violoncelo,

Convulsionadas.

Pontes aladas

De pesadelo...

 

De que esvoaçam,

Brancos, os arcos.

Por baixo passam,

Se despedaçam,

No rio os barcos.

 

Fundas, soluçam

Caudais de choro.

Que ruínas, ouçam...

Se se debruçam,

Que sorvedouro!

 

Lívidos astros,

Soidões lacustres...

Lemes e mastros...

E os alabastros

Dos balaústres!

 

Urnas quebradas.

Blocos de gelo!

Chorai, arcadas

Do violoncelo,

Despedaçadas...

 

[40]

I

(A José Pessanha)

Desce em folhedos tenros a colina:

- Em glaucos, frouxos tons adormecidos,

Que saram, frescos, meus olhos ardidos,

Nos quais a chama do furor declina...

 

Oh vem, de branco, - do imo da folhagem!

Os ramos, leve, a tua mão aparte.

Oh vem! Meus olhos querem desposar-te,

Refletir-te virgem a serena imagem.

 

De silva doida uma haste esquiva

Quão delicada te osculou num dedo

Com um aljôfar cor de rosa viva!...

 

Ligeira a saia... Doce brisa, impele-a.

Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo!

Alma de silfo, carne de camélia...

[41]

II

Esvelta surge! Vem das águas, nua,

Timonando uma concha alvinitente!

Os rins flexíveis e o seio fremente...

Morre-me a boca por beijar a tua.

 

Sem vil pudor! Do que há que ter vergonha?

Eis-me formoso, moço e casto, forte.

Tão branco o peito! - para o expor à Morte...

Mas que ora - a infame! - não se te anteponha.

 

A hidra torpe!... Que a estrangulo... Esmago-a

De encontro à rocha onde a cabeça te há-de,

Com os cabelos escorrendo água,

 

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,

Sob o fervor da minha virgindade

E o meu pulso de jovem gladiador.

[45]

Desce enfim sobre o meu coração

O olvido. Irrevocável. Absoluto.

Envolve-o grave como um véu de luto.

Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.

 

A fronte já sem rugas, distendidas

As feições, na imortal serenidade,

Dorme enfim sem desejo e sem saudade

Das coisas não logradas ou perdidas.

 

O barro que em quimera modelaste

Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor,

Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste...

 

Ias andar, sempre fugia o chão,

Até que desvairavas, do terror.

Corria-te um suor, de inquietação...

[46]

Porque o melhor, enfim,

É não ouvir nem ver...

Passarem sobre mim

E nada me doer!

 

- Sorrindo interiormente,

Co'as pálpebras cerradas,

Às águas da torrente

Já tão longe passadas. -

 

Rixas, tumultos, lutas,

Não me fazerem dano...

Alheio às vãs labutas,

Às estações do ano.

 

Passar o estio, o outono,

A poda, a cava, e a redra,

E eu dormindo um sono

Debaixo duma pedra.

 

Melhor até se o acaso

O leito me reserva

No prado extenso e raso

Apenas sob a erva

 

Que Abril copioso ensope...

E, esvelto, a intervalos

Fustigue-me o galope

De bandos de cavalos.

 

Ou no serrano mato,

A brigas tão propício,

Onde o viver ingrato

Dispõe ao sacrifício

 

Das vidas, mortes duras

Ruam pelas quebradas,

Com choques de armaduras

E tinidos de espadas...

 

Ou sob o piso, até,

Infame e vil da rua,

Onde a torva ralé

Irrompe, tumultua,

 

Se estorce, vocifera,

Selvagem nos conflitos,

Com ímpetos de fera

Nos olhos, saltos, gritos...

 

Roubos, assassinatos!

Horas jamais tranqüilas,

Em brutos pugilatos

Fraturam-se as maxilas...

 

E eu sob a terra firme,

Compacta, recalcada,

Muito quietinho. A rir-me

De não me doer nada.

  

[48]

Se andava no jardim,

Que cheiro de jasmim!

Tão branca do luar!

. . . .

. . . .

. . . .

Eis tenho-a junto a mim.

Vencida, é minha, enfim,

Após tanto a sonhar...

 

Porque entristeço assim?...

Não era ela, mas sim

(O que eu quis abraçar),

 

A hora do jardim...

O aroma de jasmim...

A onda do luar...

[50]

Depois da luta e depois da conquista

Fiquei só! Fora um ato antipático!

Deserta a Ilha, e no lençol aquático

Tudo verde, verde, - a perder de vista.

 

Porque vos fostes, minhas caravelas,

Carregadas de todo o meu tesoiro?

- Longas teias de luar de lhama de oiro,

Legendas a diamantes das estrelas!

 

Quem vos desfez, formas inconsistentes,

Por cujo amor escalei a muralha,

- Leão armado, uma espada nos dentes?

 

Felizes vós, ó mortos da batalha!

Sonhais, de costas, nos olhos abertos

Refletindo as estrelas, boquiabertos...

 

[51] BRANCO E VERMELHO

 

A dor, forte e imprevista,

Ferindo-me, imprevista,

De branca e de imprevista

Foi um deslumbramento,

Que me endoidou a vista,

Fez-me perder a vista,

Fez-me fugir a vista,

Num doce esvaimento.

 

Como um deserto imenso,

Branco deserto imenso,

Resplandecente e imenso,

Fez-se em redor de mim.

Todo o meu ser, suspenso,

Não sinto já, não penso,

Pairo na luz, suspenso...

Que delícia sem fim!

 

Na inundação da luz

Banhando os céus a flux,

No êxtase da luz,

Vejo passar, desfila

(Seus pobres corpos nus

Que a distancia reduz,

Amesquinha e reduz

No fundo da pupila)

 

Na areia imensa e plana

Ao longe a caravana

Sem fim, a caravana

Na linha do horizonte

Da enorme dor humana,

Da insigne dor humana...

A inútil dor humana!

Marcha, curvada a fronte.

 

Até o chão, curvados,

Exaustos e curvados,

Vão um a um, curvados,

Os seus magros perfis;

Escravos condenados,

No poente recortados,

Em negro recortados,

Magros, mesquinhos, vis.

 

A cada golpe tremem

Os que de medo tremem,

E as pálpebras me tremem

Quando o açoite vibra.

Estala! e apenas gemem,

Palidamente gemem,

A cada golpe gemem,

Que os desequilibra.

 

Sob o açoite caem,

A cada golpe caem,

Erguem-se logo. Caem,

Soergue-os o terror...

Até que enfim desmaiem,

Por uma vez desmaiem!

Ei-los que enfim se esvaem,

Vencida, enfim, a dor...

 

E ali fiquem serenos,

De costas e serenos.

Beije-os a luz, serenos,

Nas amplas frontes calmas.

Ó céus claros e amenos,

Doces jardins amenos,

Onde se sofre menos,

Onde dormem as almas!

 

A dor, deserto imenso,

Branco deserto imenso,

Resplandecente e imenso,

Foi um deslumbramento.

Todo o meu ser suspenso,

Não sinto já, não penso,

Pairo na luz, suspenso

Num doce esvaimento.

 

Ó morte, vem depressa,

Acorda, vem depressa,

Acode-me depressa,

Vem-me enxugar o suor,

Que o estertor começa.

É cumprir a promessa.

Já o sonho começa...

Tudo vermelho em flor...

[52]

Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,

- Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,

Represados clarões, cromáticas vesânias -,

No limbo onde esperais a luz que vos batize,

 

As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.

 

Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,

Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,

E escutando o correr da água na clepsidra,

Vagamente sorris, resignados e ateus,

 

Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.

 

Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,

Que toda a noite errais, doces almas penando,

E as asas lacerais na aresta dos telhados,

E no vento expirais em um queixume brando,

 

Adormecei. Não suspireis. Não respireis.

 

(Simbolismo - Literatura Portuguesa - Apostila 3)