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VIAGENS NA MINHA TERRA – Almeida Garrett (resumo)

 

1. Trama:

 

1ª Seqüência da Viagem (capítulos I – IX)

  1. Cap. I: Citação a Xavier de Maistre, Viagem à Roda do Meu Quarto: “O próprio Xavier de Maistre que aqui escrevesse, ao menos ia até ao quintal”. Citações a Píndaro, Lord Byron. Início da viagem à Santarém. 3.º parágrafo: Garrett apresenta o seu projeto de viagem especial a Santarém.

  2. Cap. II, 2.º parágrafo: Garrett fala de uma escrita-viagem. Citação a Dom Quixote e Sancho Pança.Cita o filósofo Jeremy Bentham: “A virtude é o galardão de si mesma, disse um filósofo antigo; e eu não creio no famoso dito de Bentham, que sabedoria antiga seja um sofisma. O mais moderno é o mais velho” No 4.º parágrafo: tentativa de definições de “progresso”, “espiritualismo” e “matérialismo”.

  3. Cap. III: Citações a Vítor Hugo, Fausto de Goethe, Mistérios de Paris de Eugene Sue, Cervantes,Shakespeare, Boileau e Moliére. Chegada a uma estalagem.

  4. Cap. IV: Reflexão sobre a modéstia. Cita Dêmades, Joseph Addison. Planos de seguir viagem a Cartaxo passando por Pinhal do Azambuja, vilarejos próximos à Santarém.

  5. Cap. V: Chegada à vila de Pinhal do Azambuja. Descrição do lugar. Cita Benjamim Antier, Vitor Hugo, El Cid. Segue o narrador para Cartaxo.

  6. Cap. VI: Cita Homero e Camões e da necessidade de se mistura o maravilhoso mitológico ao Cristianismo. Fala o narrador da Divina Comédia. Chegada a Cartaxo.

  7. Cap. VII: Lembrança de Paris (Campos Elíseos, Bois de Boulogne) e fala da Suécia, que nada se compara “ao prazer e consolação” que sentiu “à porta do grande café de Cartaxo”. Citação a Alfageme, conversa no café, fala-se da revolução. Passeio pelo lugar, descrição do lugar. Citação a Bacon, Isaac Newton, James Thomson, François Guizot.

  8. Cap. VIII: Saída de Cartaxo. Citações a Teócrito, Salomão Gessner, Rodrigues Lobo. Afirma o narrador que não é romântico: “Eu não sou romanesco. Romântico, Deus me livre de o ser – ao menos, o que na algaravia de hoje se entende por essa palavra.” Passa pelo lugar em que ocorreu a batalha de Almoster (18 de fevereiro de 1834) em que os liberais de D.Pedro e o Marechal Saldanha venceram os Miguelistas. Compara essa batalha com a de Waterloo. Cita o filósofo Hobbes.

  9. Cap. IX: Cita Ênio Manuel de Figueiredo. Comenta cinco peças desse autor: O Casamento da Cadeia, O Fidalgo de Sua Casa, O Cioso, O Avaro Dissipador e Poeta em Anos de Prosa. Destaca essa última: “E há títulos que não deviam ter livro, porque nenhum livro é possível escrever que os desempenhe como eles merecem.” Cita o Judeu Errante de Eugene Sue. Cita a Sílvio Pélico, Madame de Lafayette, René de Chateaubriand, Madame de Abrantes. Fala de Bonaparte. Chega ao vale de Santarém: “pátria dos rouxinóis e das madressilvas”.

1.ª Seqüência do Drama (Capítulos X – XXV)

  1. Cap. X: Transição da viagem para o drama: O narrador começa sua observação acerca de uma janela; fala da inferioridade do homem que não é poeta. A menina do rouxinóis é referida pela observação da janela. Anuncia-se que se vai começar a contar a história da menina dos rouxinóis, de olhos verdes.

  2. Cap. XI: Apresenta Irmã Francisca (avó), velha cega, de setenta anos. Fala de Yorick, personagem shakesperiana (bobo da corte da Dinamarca em Hamlet) que aparece em Tristam Shandy de Lawrence Sterne. Cita Anacreonte, Aristóteles, Antônio Ferreira (pintor) e Rafael (Madonna della sedia). Distinção entre os poetas e os romancistas, os primeiros estão sempre namorados. Pergunta-se: “Como hei de eu então, eu que nesta grave odisséia das minhas viagens tenho de inserir o mais interessante e misterioso episódio de amor que ainda foi contado ou cantado”? Referindo-se ao caso de Joaninha.

  3. Cap. XII: Joaninha (neta) surge para desembaraçar a meada da avó. O narrador anuncia que professa a “religião dos olhos pretos”, mas “Joaninha porém tinha os olhos verdes”. Chegada de Frei Dinis que interrompe a conversa entre a avó e a neta.

  4. Cap. XIII: Fala-se sobre o frade no aspecto moral, social e artístico. Da separação entre o frade e o momento presente (“o nosso século” – séc. XIX). Outra referência à D. Quixote e Sancho Pança: “o frade era até certo ponto o Dom Quixote da Sociedade velha”. Interpelação intertextual a Eugênio Sue e seu Judeu Errante, “que precisa [ser] refeito.” Crítica do narrador ao “progresso” e à “liberdade” atuais de Portugal: “antes queria a posição dos frades que a dos barões”. Autotextualidade: o autor comenta que não consegue escrever uma história sem pôr nela um frade.

  5. Cap. XIV: Depois do capítulo XIII, que devia ser considerado uma “introdução ao capítulo seguinte [XIV]”, inicia-se aqui a narrativa sobre Frei Dinis. Frei Dinis se mostra inimigo de Carlos: “mas esse rapaz é maldito, e entre nós e ele está o abismo de todo o inferno.”

  6. Cap. XV: Descrição de Fei Dinis: “homem de princípios austeros, de crenças rígidas”. Comparação entre Frei Dinis e o filósofo Condillac: “Condillac chamou à síntese método das trevas: Frei Dinis ria-se de Condillac...” Frei Dinis critica o liberalismo, em concordância com a opinião do narrador. Frei Dinis é apresentado como um ferrenho defensor das instituições monásticas: “condição essencial de existência para a sociedade civil”. Indaga o narrador sobre o passado de Frei Dinis, desconfiando de que no passado havia alguma coisa que o prendia ainda a terra que “lhe faltava castrar ainda por amor do céu”.

  7. Cap. XVI: Conta-se como Dinis de Ataíde, nobre cavaleiro, de posses, resolveu abandonar tudo e desaparecer, voltando dois anos depois à Santarém como Frei Dinis. Critica-se a ordem franciscana e as outras ordens, de como tão rapidamente, às vezes sem vocação, alguém surgia ordenado frei. Diz o narrador que um dia Frei Dinis contou um segredo à velha Francisca Joana, e que também deixou para ela grande parte de seus bens, depois que se tornou frei. Carlos fora estudar em Coimbra e em Lisboa e só nos finais de semana voltava. Carlos e Frei Dinis se desentendem, Carlos não concorda com os mandos de Frei Dinis na casa e resolve ir para a Inglaterra. Quando Carlos foi para a Inglaterra, Joaninha ainda “era uma criança”.

  8. Cap. XVII: Três anos depois, como era de costume, Frei Dinis vai visitar a velha Francisca. Frei Dinis vem trazer a notícia de que Carlos estava bem na Inglaterra. Nesse capítulo de anuncia que o Frei Dinis pode mentir, uma vez que finge alegria ao dar a notícia à velha. “O frade estava por fora, o homem por dentro”. Frei Dinis tira uma carta da manga e entrega a Joaninha, a carta era de Carlos.

  9. Cap. XVII: A carta era de Carlos para Joaninha e insinuava a saudade de Carlos para com a prima: “não continha senão as ingênuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas saudades do passado”. Frei Dinis, por essa época, andava preocupado com a guerra civil e com o avanço do exército realista que já cercava Lisboa. Frei Dinis sugere que Carlos poderia voltar e lutar contra os realistas: “o seu Carlos, vier expulsar as baionetas do pobre convento de São Francisco, o velho guardião” . A velha Francisca ameaça contar toda a verdade a Carlos – o segredo dos dois – Frei Dinis ameaça-a com “a maldição eterna de Deus”.

  10. Cap. XIX: A guerra civil atinge Santarém: “Alguns feridos (...) ficavam na casa do vale entregues à piedosa guarda e cuidado de Joaninha; dos outros tomou conta Frei Dinis e os acompanho a Santarém.” “E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do fogo, o aspecto do sangue, os ais feridos, o semblante desfigurado dos mortos.” Joaninha vai se acostumado com os horrores da guerra. Se torna conhecida dos solados: “A menina dos rouxinóis! Que cantiga é essa que tu cantas!”

  11. Cap. XX: Joaninha, numa tarde, dorme ao campo, ao som do canto de um rouxinol, junto das flores. Vem um oficial, “moço, talvez não tinha trinta anos” (...) “olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza imensa (...) a mobilidade de espírito”. Quando Joaninha é acordada pelo soldado, reconhece-o, é Carlos, seu primo. Joaninha e Carlos beijam-se como namorados.

  12. Cap. XXI: Carlos lutava pelo exército dos liberalistas, a casa de Joaninha estava sob o domínio do outro exército, os realistas. Por isso Carlos não pode leva-la até a casa da avó Francisca.

  13. Cap. XXII: Carlos declara seu amor à Joaninha por meio de uma carta. A diferença que Carlos percebe entre a menina que deixara e a moça que encontrara. Porém, Carlos havia deixado um amor na Inglaterra, era Georgina “a mulher a quem prometera, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher era bela, nobre, rica, admirada, ocupava uma alta posição no mundo”

  14. Cap. XXIII: Carlos atormenta-se na dúvida de contar ou não a verdade para Joaninha. Carlos começa a refletir sobre a cor dos olhos das duas mulheres: “Olhos verdes!... Joaninha tem os olhos verdes. Não se reflete neles a pura luz do céu, como nos olhos azuis. Nem o fogo e o fumo das paixões, como nos pretos. Mas o viço do prado, a frescura e a animação do bosque, a flutuação e a transparência do mar... Tudo está naqueles olhos verdes. Joaninha, por que tens tu os olhos verdes?” (... ) “Oh! O céu é azul como os teus olhos, Georgina...”

  15. Cap. XXIV: Explicação do mito de Adão, comparação de Adão a Carlos. Carlos conversa com Joaninha e explica que não gosta do Frei Dinis e por isso deixou a casa e foi para a Inglaterra. A certa altura, Joaninha diz que Carlos se parece com Frei Dinis quando se zanga e franze a testa.

  16. Cap. XXV: Joaninha declara seu amor a Carlos. Joaninha parece adivinhar que Carlos tem outra mulher. Carlos e Joaninha se despedem tristemente. Os olhos verdes de Joaninha nunca mais brilharam como dantes.

- 2.ª Seqüência da Viagem – chegada a Santarém

  1. Cap. XXVI: O narrador fala dos autores antigos: Tito Lívio e Tácito (historiadores), Juvenal (poeta), Horácio (retórico), Duarte Nunes (cronista português), cita-se o Anel dos Nibelungos (rapsódias alemãs), Shakespeare e comenta-se de alguns de seus personagens (Banco, Macbeth, Falstaff). Fala-se de Abelardo (filólogo e teólogo da idade média) e de Heloísa (sua paixão), de Bentham (filósofo inglês), Camões e Os Lusíadas, de D. Afono Henriques.

 

  1. Cap. XXVII: Chegada do narrador à Santarém. Descrição de locais de Santarém. Fala-se de São Frei Gil: “que, é verdade, veio a ser grande santo, mas que primeiro foi grande bruxo”.

  2. Cap. XVIII: A Igreja de Sta. Maria de Alcaçova, descrição. Comentário sobre o governo do Marquês de Pombal e sobre os palácios de D. Afonso Henriques, a cruz de Santa Iria. Citação de trecho do Fausto de Goethe.

  3. Cap. XXIX: O narrador faz a distinção entre poetas que morreram jovens (Byron, Schiller, Camões e Tasso) e poetas que morreram velhos (Homero, Goethe, Sófocles e Voltaire). Comenta sobre a imaginação e o sentimento dos poetas (categorias românticas). Compara Santarém com Nínive e Pompéia, cidades destruídas. Inserção da trova sobre Santa Iria.

  4. Cap. XXX: Conta-se a história de Santa Iria: Que a freira Iria namorou-se de Britaldo, filho do cônsul Castinaldo. Santa Iria “consolou como mulher e ralhou como santa” e retirou do corpo a paixão de Britaldo. A paixão – obra do demo – foi se alojar no corpo do monge Remígio, este preparou uma bebida diabólica que fez Iria parecer como grávida (“os sinais da mais aparente maternidade”). Britaldo indignado, teve de volta a paixão e matou Iria, jogando o corpo no rio. O abade Célio descobriu toda a verdade sobre a falsa maternidade de Iria e foi com outros padres procurar o corpo no rio, e acharam um túmulo feito de alabastro, por obra dos anjos. Este ficou encoberto pelas águas até que séculos mais tarde a Rainha Santa Isabel, esposa do rei D. Dinis, orando fez as águas se abrirem, e contemplou o sepulcro.

  5. Cap. XXXI: Descrição de lugares de Santarém; o busto de D. Afonso Henriques e as muralhas de Santarém.

 

-2.ª Seqüência do Drama.

 

  1. Cap. XXXII: Volta-se à história de Joaninha. Carlos ferido e prisioneiro é atendido no hospital por uma enfermeira que é nada menos do que Georgina, a amada inglesa.

  2. Cap. XXXIII: Georgina explica a Carlos que encontrou-o ferido e ajudado pelo Frei Dinis, e que já conhece tudo sobre Joaninha. Georgina explica que o amor que ela tinha por Carlos já se acabou.

  3. Cap. XXXIV: Continua a conversa no hospital. Frei Dinis implora o perdão de Carlos.

  4. Cap. XXXV: Citação a Laocoonte e Hércules. Carlos diz que não ama mais Joaninha, mas Georgina, que não o quer. Frei Dinis explica o grande segredo: que ele é o verdadeiro pai de Carlos. Que a filha da velha Francisca namorava Dinis, mas arrumou um amante e tencionava matar a Dinis numa emboscada, esse sem reconhecer ninguém no escuro, mata os dois e joga os corpos no rio, que são tomados por afogados. Carlos levanta-se da cama e vai embora para Évora lutar no exército Constitucional, dos liberalistas.

- 3.ª Seqüência da Viagem:

  1. Cap. XXXVI: Fala sobre Santarém. Comenta o narrador que Carlos deixou de lado as paixões e se meteu na política, mas promete contar os detalhes mais adiante.

  2. Cap. XXXVII: Fala-se do túmulo de Pedro Álvares Cabral, cita-se Os Lusíadas de Camões. A história da igreja do Santo Milagre.

  3. Cap. XXXVIII: O narrador comenta sobre um jantar que fizera em Santarém, de como no jantar se falou mal de Lisboa e de como se exaltou Paris, Londres, Pequim, Nanquim e Timboctu.

  4. Cap. XXXIX: O narrador comenta sobre seu ceticismo em relação ao tempo presente de Portugal. Fala da diferença entre filósofos e poetas: “os filósofos são muito mais loucos do que os poetas”. Narração de como Frei Dinis roubou os ossos de São Frei Gil.

  5. Cap. XL: Comenta-se do mosteiro das Claras. Frei Dinis traz os ossos de São Frei Gil para que sejam guardados pelas freiras.

  6. Cap. XLI: Frei Dinis vai embora de Santarém, Georgina fora pra Lisboa, Carlos ainda estava em Èvora e Joaninha guardava uma última carta dele.

  7. Cap. XLII: O narrador quer ir embora de Santarém. Comenta sobre o túmulo de D. Fernando. Fala de Jesus Cristo como modelo de paciência.

  8. Cap. XLIII: Partida de Santarém. Antes de se ir, o narrador encontra Frei Dinis que lhe conta que Joaninha morrera, de que Carlos sumira, de que a velha Francisca estava para ser enterrada e de que “Santarém também morreu; e morreu Portugal”. Frei Dinis entrega ao narrador a última carta de Carlos escrita para Joaninha.

  9. Cap. XLIV: Início da narração da carta de Carlos. Carlos comenta que mentia e que gostava de mentir. Carlos comenta que conheceu uma família inglesa em que haviam três filhas e ele flertava com as três.

  10. Cap. XLV: Fala de Laura: “olhos cor de avelã”. Descreve Júlia: “a mais carinhosa das três irmãs”. Julia dizia a Aia: “Febe, estou só com Carlos; e quero estar só. Em casa para ninguém.”

  11. Cap., XLVII: Continuação da narração da carta de Carlos. Laura vai para o Páis de Gales, Júlia fica com intermediária na correspondência indireta entre Carlos e Laura, até que Laura se casa. Carlos fica só, sem Laura e sem Júlia.

  12. Cap. XLVIII: Carlos fala que a terceira irmã da casa era Georgina. Termina a carta dizendo adeus à Joaninha.

mm) Cap. XLIX: Comenta-se que Carlos conseguiu o título de barão, Georgina virou abadessa. Frei Dinis após a leitura da carta de Carlos pelo narrador fala sobre as virtudes e defeitos dos frades e dos barões.

 

 

Comentários críticos acerca da obra:

 

 

Considera-se que Viagens na Minha Terra seja a obra em prosa mais ousada e mais bem realizada de Almeida Garrett. Fazendo referência à obra de Xavier de Maistre, Viagem à Roda de Meu Quarto, que toma por modelo, inicia uma viagem de Lisboa à Santarém a convite do amigo Passos Manuel, chefe da facção setembrista do liberalismo português. A obra compõe-se de duas partes narrativas distintas. A primeira compõe-se das impressões de viagem feito pelo autor/narrador, em que intercalando citações literárias e históricas as mais diversas (Por exemplo: Shakespeare, Cervantes, Camões, Lawrence Sterne, no primeiro caso e D. Afonso Henriques, D. Fernando, Napoleão, no segundo caso), vai compondo uma narrativa de viagem que nos é apresentada por um caráter muito subjetivo e rico em intertextualidades e digressões. A segunda parte trata-se da interposição no meio da narrativa de viagem de uma história amorosa e trágica que envolve as personagens Joaninha, Carlos, Georgina, Francisca e Frei Dinis. Essa narração de um drama amoroso concebe um passado próximo que se desenvolvera durante as lutas entre liberais e miguelistas, no período de 1830 a 1834. Os conflitos que envolvem essas personagens têm causa ainda num passado mais distante que trata da vida do personagem Frei Dinis, quando antes de se tornar religioso era um nobre e que em circunstâncias dramáticas resolvera esconder a paternidade de Carlos.

Viagens na Minha Terra fornece por meio das personagens do drama amoroso uma visão simbólica de Portugal em que se busca dialogar acerca das causas da decadência do império português. Assim, o instável Carlos, que não consegue decidir-se acerca das suas relações amorosas, é o personagem que podemos ligar às características biográficas do próprio autor. Georgina, a namorada inglesa de Carlos, apresenta-nos uma visão de ingenuidade e altruísmo como caracteres de uma mulher estrangeira que acaba por não querer envolver-se por questões sentimentais ao drama histórico de Portugal, fazendo de sua reclusão religiosa a justificativa para não participar dos dilemas e conflitos históricos que motivaram sua decepção amorosa. É a fleugma britânica. Joaninha, a amada de Carlos, singela e terna, nascida e vivendo no vale de Santarém, a “menina dos rouxinóis” simboliza uma visão ingênua de Portugal, quase folclórica, que não se sustenta diante das condições históricas. A velha cega Francisca, avó de Joaninha, mostra-nos a imprudência e a falta de planejamento com que Portugal se colocava no governo dos liberalistas, levando a nação à decadência. Por fim, Frei Dinis é a própria tradição calcada num passado histórico glorioso, que no entanto, não é mais capaz de justificar-se sem uma revisão de valores e de perspectivas. O final do drama, que culmina na morte de Joaninha e na fuga de Carlos para tornar-se barão, representa a própria crise de valores em que o apego à materialidade e ao imediatismo acaba por fechar um ciclo de mutações de caráter duvidoso e instável.