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Primo Basílio - Eça de Queirós

      

COMENTÁRIO
         O livro é uma crítica profunda aos padrões burgueses e tenta demonstrar, a todo momento, as características maléficas dessa classe, sobretudo a lisboeta, como afirma o próprio autor em carta a Teófilo Braga: "...e você vendo-me tomar a família como assunto, pensa que eu não devia atacar essa instituição eterna, e devia voltar o meu instrumento de experimentação social contra os produtos transitórios, que se perpetuam além do momento que os justificou, e que de forças sociais passaram a ser empecilhos públicos. Perfeitamente: mas eu não ataco a família - ataco a família lisboeta - a família lisboeta produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem, e mais tarde ou mais cedo centro de bambochata. Em O Primo Basílio que apresenta, sobretudo, um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa(...)"


Marcelo Sandes

 

Romance de Tese


O período naturalista foi marcado pelo desejo de redefinir as relações entre literatura e sociedade, no sentido dos leitores tomarem consciência de uma realidade que muitos não queriam ou não podiam ver (Chevrel, 1982). O escritor naturalista tem por função revelar as regras, os problemas, os comportamentos e o funcionamento inadequado da sociedade.
Um romance de tese tem sempre uma finalidade didáctica e normativa ao procurar demonstrar a validade de uma versão do mundo sedimentada numa doutrina política, social, filosófica, religiosa (Suleiman, 1983) - no caso, o positivismo, o socialismo utópico, o determinismo. É determinado por um fim específico, que existe antes e para além da história. O narrador é não só a fonte da história, mas também o intérprete do seu significado. O efeito persuasivo da história de aprendizagem passa por uma identificação virtual do leitor com o protagonista. A oposição aprendizagem positiva - aprendizagem negativa caracteriza a aprendizagem exemplar realizada no romance de tese. A aprendizagem positiva orienta o herói pelos valores propostos pela doutrina que fundamenta o romance. A aprendizagem negativa leva à punição do protagonista. O seu insucesso serve como lição e espera-se que o leitor perceba o percurso errado e não o deseje seguir.
J. Gaspar Simões (1980) refere que O Primo Basílio, enquanto romance de tese, estava dentro da arte revolucionária, que a Geração de 70 e Eça queriam promover, como um peixe na água. Embora Eça tenda a deixar de fora as condições económicas da vida social, em contrapartida evidencia os factores morais, psicológicos e educativos (Saraiva, 1982).
O "episódio doméstico" que constitui O Primo Basílio, restringe-se ao espaço social e geográfico da capital, como Eça menciona em carta a Rodrigues de Freitas, em 30 de Março de 1878, o qual se torna determinante para a própria construção das personagens:


"eu procurei que os meus personagens pensassem, decidissem, falassem e actuassem como puros lisboetas, educados entre o Cais do Sodré e o Alto da Estrela; não lhes daria nem a mesma mentalidade, nem a mesma acção se eles fossem do Porto ou Viseu; as individualidades morais variam de província a província - mas no meio lisboeta que escolhi, creio que elas são lógicas, exactamente derivadas e perfeitamente correspondentes" (Queirós, Correspondência, p.141)".


O ponto de vista omnisciente do narrador serve a óptica naturalista e a estratégia do romance de tese. A caracterização das personagens, sobretudo as principais, incide sobre a sua origem social, a sua educação, as características inculcadas pelo ambiente, ao serviço da tese social que o narrador pretende demonstrar. Embora neste romance o narrador, por vezes, permita a focalização interna, recorra ao monólogo interior, evidencie o universo onírico, estes aspectos não chegam a comprometer a predominância da estética naturalista.
Apesar de todas as preocupações de imparcialidade do narrador naturalista, há no romance inúmeras interferências da sua subjectividade ao nível do uso dos discursos valorativo, figurado, conotativo, abstracto, moralizante, e da ironia, que o narrador coloca ao serviço do romance de tese, visando influenciar o leitor no sentido de o levar a "ver verdadeiro", a aceitar a validade de uma certa visão do mundo.

 

Resumo :

É domingo. Jorge e Luísa encontram-se no quarto de dormir,   em um momento de intimidade. Ele fuma um cigarro e considera, contrafeito, os aborrecimentos de uma viagem à serviço que deverá fazer no dia seguinte a Alentejo. Ela, ainda de roupão, lê o Diário de Notícias..

O casamento dos dois não é resultado de nenhuma grande paixão; encontra-se, antes, fundado no desejo de organização da vida quotidiana: Jorge sente-se só após a morte da mãe; Luísa realizou o desejo de toda moça solteira, assumindo a posição de mulher casada. Não obstante, ambos vivem bem. Ele encontrou o carinho do qual necessitava e ela tem, afinal, seu homem. Ao mesmo tempo que apresenta esse mundo pacato, o narrador anuncia a chegada do personagem que o irá destruir. Luísa lê a notícia que seu primo Basílio está visitando Lisboa após longo tempo de ausência .

Mal ela comenta com o marido a novidade, entra outra personagem fundamental para a trama, Juliana, a criada de dentro. Luísa não esconde sua antipatia pela figura e já a teria  despedido há muito, se Jorge não teimasse em mantê-la, em gratidão por ela ter cuidado de uma tia enferma.

À tarde, Leopoldina, amiga de infância de Luísa, vem vê-la. A visita provoca uma pequena tempestade familiar. Jorge não quer Leopoldina em sua casa, considera-a má companhia. A amiga tem de fato uma justa fama de possuir muitos amantes. Mas a rusga é breve. Luísa cede às razões do marido, este se acalma ao ver sua autoridade garantida.

Apaziguam-se os ânimos. Luísa gasta a tarde entre a leitura do final do romance A Dama das Camélias e as lembranças de seu namoro com o primo, interrompido quando ele partira para o Brasil, a fim de tentar resgatar a fortuna perdida com a falência de uma firma. Na época, ela tinha 17 anos e, sofrendo com a separação, caíra de cama com febre. Depois, conhecera Jorge e não pensara mais no assunto.

O domingo termina. Como sempre, alguns amigos visitam o casal. Julião Zuzarte, parente afastado de Jorge, é um médico mal sucedido, que destila amargura em cada comentário e olha com inveja a prata do aparador. D. Felicidade, nos seus cinqüenta anos, arde de paixão e perturba-se sensualmente ante o lustro da careca do Conselheiro Acácio, um homem sério e cheio de cerimônias, sempre pronto a fazer um discurso oficial em favor da família, da pátria e da moral. Pura hipocrisia, já que sua "moral" não o impede de viver em concubinato com sua criada.

Presente está também o primo Ernestinho Ledesma, um escritor que começa a fazer sucesso e encontra-se, nesse momento, às voltas com a criação da peça Honra e paixão, na qual, uma esposa, para salvar o marido de ser preso por uma dívida de jogo, recorre ao conde de Monte-Redondo, que intercede e entrega aos guardas a quantia devida, justamente no momento em que o homem está sendo preso. O marido, no entanto, percebendo que a mulher e o conde se amam, devolve o dinheiro e mata a mulher. O problema de Ernestinho é que o editor entende que o público deve sair do teatro alegre, exige um final menos trágico, e o autor vacila.  Todos discutem   que destino deve ser dado à personagem. Jorge exige que o primo siga os princípios da família e mate a adúltera sem piedade. Por essa posição intransigente, todos chamam Jorge de "Otelo".

O último a chegar à reunião é o melhor amigo de Jorge, Sebastião, o único também a se diferenciar do grupo: pessoa sensível, simples, íntegra. Goza tanta confiança de Jorge, que este lhe pede para que controle as visitas de Leopoldina a Luísa durante sua ausência.

Doze dias após partida de Jorge, Luísa recebe a visita de Basílio, que fica impressionado com a beleza da prima. O encontro é carregado de sentimentalismo, principalmente porque Basílio não deixa nunca de se referir aos velhos tempos do namoro, segundo ele, o único tempo feliz de sua vida. Cauteloso, ele entremeia as alusões amorosas com histórias de suas viagens pelo mundo e de pessoas ilustres com quem conviveu. Dessa forma, quando Luísa cora com a inconveniência das alusões ao passado, ele a distrai e seduz com o relato de suas experiências exóticas. Ao final da entrevista, valendo-se da condição de parente, ele deposita um demorado beijo na mão de Luísa.

Basílio parte. Embora Luísa passe o dia pensando nas boas qualidades de Jorge, na sua boa vida de casada, a imagem do ex-namorado persiste, sugerindo uma outra existência, mais poética, mais própria para os grandes sentimentos. Mal sabe ela que Basílio também está feliz. Ficou na dúvida em visitar a prima, mas agora que a tinha visto, compara-a com a amante que deixara em Paris, magra demais, e decide que as formas arredondadas da prima valem uma aventura. Tudo parecia pronto para o adultério.

A presença de Basílio deixa Juliana alvoraçada. Ela, na esperança de viver dias melhores, anda sempre à procura de algum segredo, de algum escândalo de suas patroas.

A história de Juliana é triste. Filha de uma engomadeira e um degredado, está acostumada a trabalhar desde cedo, sem alcançar nenhum progresso. Feia demais para atrair o desejo de um homem, acabou solteira. Assim, quando a mãe morre, fica sem ninguém no mundo.

Juliana é orgulhosa. Já serve há vinte anos e não se acostuma a servir. Juntara, penosamente, dinheiro para abrir um negocinho, o sonho de sua vida, mas uma doença levou-lhe cada uma das moedas e toda a esperança, que só voltou quando a tia de Jorge, viúva e rica, adoeceu. Mas, apesar de ter suportado o mau humor da velha durante meses, desmanchando-se em cuidados, não chegou sequer a ser citada no testamento. Foi antes promovida a criada de dentro, o que lhe deu oportunidade de ver os estofados das casa serem trocados com a parte da herança que ficou com Jorge. Como se não bastasse, Juliana sofre do coração. A revolta ruminada durante anos tornou-a má, invejosa, quase incapaz de disfarçar seu ódio pelas patroas. Por isso, passa a espreitar cada movimento de Luísa, com a intenção de descobrir algum crime do qual pudesse tirar vantagem.

O que se passa na visita do primo, por detrás das portas fechadas, fica vedado a Joana e ao leitor. Mas à noite, Luísa sai ao passeio com D. Felicidade, onde se dá um encontro "casual" entre ela e o primo . Na tarde seguinte, os dois se reencontram. Vai à casa também Julião. O resultado é catastrófico. Não bastasse sentir-se diminuído pelos trajes de Basílio, Julião percebe que Luísa está visivelmente constrangida com sua aparência. Impiedosamente, Basílio passa a pedir notícias de gente ilustre, pessoas completamente fora do círculo de Julião, que sai de cena arrasado. Aparece também o Conselheiro, para uma pequena visita. Com ele, Basílio é amável e distante, levemente superior. Dá-se entre os dois uma educada divergência de opiniões: Basílio critica Portugal, o Conselheiro defende a terra. A discussão é encerrada com Basílio cantando, acompanhado por Luísa ao piano. Enquanto canta, encara a prima de maneira tão emocionada e sedutora, que ela perde os compassos da música. O Conselheiro deixa a casa encantado. Não percebeu a comoção entre os dois, não percebeu também o desprezo de Basílio que, comparando-o a Julião, tem apenas o seguinte comentário elogioso a fazer: "este, pelo menos, é limpo".

Mal sai o Conselheiro, Basílio atira-se sobre Luísa, tentando beijá-la. Ela se assusta, resiste, fraqueja e acaba se irritando. Reconhecendo que foi muito apressado, muda de tática. Diz amá-la castamente, envolve seus sentimentos de espiritualidade e retira-se com a garantia de um novo encontro.

Naquela noite, Luísa recebe uma carta de Jorge. Tomada de culpa, decide interromper aquelas visitas familiares. Mas tão logo pensa em não ver o primo, adivinha o sofrimento do rapaz sozinho no hotel, infeliz e pálido; pondera o teor fraternal e casto do relacionamento, transforma Basílio em um personagem tão parecido com um herói romântico, tão adorável, tão infeliz, tão puro, que acaba beijando o travesseiro, pensando nos fios de cabelos brancos do primo, ganhos, segundo ele, com as saudades que sentiu dela.

Sebastião  esteve na casa de Luísa por três vezes e por três vezes não conseguiu vê-la, pois Basílio estava sempre com Luísa e ele intimidou-se. Era verdade que Basílio era primo, o que garantiria certa decência nessas visitas, mas a fama de farrista, irresponsável, e conquistador de Basílio preocupa Sebastião. Além disso, já há falatórios na rua.

Sebastião angustia-se. Vai pedir conselhos a Julião, cujos comentários grosseiros só o constrangem. Decide, então, falar com Luísa. Mas quando está chegando na casa, vê Basílio entrando, ouve os comentários maliciosos dos comerciantes da rua e recua.

Lá dentro, Basílio tenta, sem sucesso, convencer Luísa a fazer um passeio ao campo. Como ela resiste, muda de estratégia. No dia seguinte, diverte-a com canções, anedotas, histórias de paixões adúlteras das parisienses. Não faz juras, não insiste e comunica que está pensando em partir. O resultado é imediato: é Luísa quem lembra o passeio e os dois fazem alguns planos.

Mas, no dia seguinte, Basílio não aparece. Exasperada, Luísa inicia um bilhete para mandar ao hotel, mas tem que enfiá-lo às pressas no bolso do vestido. Sebastião acaba de chegar para alertá-la sobre os mexericos. Encolerizada, a princípio, ela acaba por cair em si e agradecer.

Sai Sebastião, chega Leopoldina para o jantar. Elogia o amante e reclama da posição subalterna da mulher na sociedade. Os contra-argumentos morais de Luzia são frouxos. No fundo, ela também está orgulhosa de ter seu amante.

Já tarde da noite, Basílio faz uma entrada tempestuosa na sala de visitas. Exausta emocionalmente de esperá-lo durante todo o dia, temerosa de perdê-lo, Luísa deixa-se seduzir. De volta ao hotel, Basílio procura Reinaldo, colega de viagem que tem exigido mais rapidez na conquista para que possam prosseguir viagem, e informa, triunfante: finalmente, a prima está caída.

No manhã seguinte, Juliana encontra o bilhete no bolso do vestido, mas  controla-se e não o tira dali. Luísa recebe uma carta de Basílio, com retumbantes declarações de amor, escritas no hotel, entre dois copos de cerveja e a leitura preguiçosa de uma revista. Emocionada, beija a carta: a primeira carta de amor que recebe, como nos romances. É preciso responder. Inicia com um "Meu adorado Basílio". Está no auge de suas confissões, quando D. Felicidade irrompe sala a dentro. Aterrorizada, Luísa amassa o papel, joga-o no lixo e leva a outra para o quarto. Quando volta, Juliana já terminara a limpeza da sala e jogara o conteúdo do lixo. Luísa fica desesperada. Percebe o perigo. Lembra do bilhete no bolso do vestido e vai verificar. Como o encontra lá, tranqüiliza-se. Crê que a carta teria sido jogada fora. Juliana é quem está esperançosa de conseguir a oportunidade por que sempre esperara: chegará a hora de exigir uma recompensa por guardar segredo do adultério da patroa.

Luísa não pensa mais no assunto, mesmo porque uma mensagem vinda do hotel avisa-a do endereço do ninho de amor que Basílio providenciou para se encontrarem e que batizou de Paraíso. Ela vai ao encontro. Está excitada com a aventura. No caminho, lembra de um romance em que o herói forra de cetim e tapeçarias o interior de um casebre miserável, para receber a amante. Mas quando chega ao local depara-se com um quarto úmido num sobrado pobre e mal cheiroso. Apesar dessa decepção, vai para lá todo dia, enquanto Juliana agüenta com boa cara o aumento vertiginoso de roupas de baixo para lavar e passar.

Mas tantas saída só podem causar mexericos na vizinhança. Onde irá "a do engenheiro" todo santo dia? O que salva Luísa é  D. Felicidade torcer o pé e ir parar na Encarnação. Sebastião encontra neste fato a explicação para as saídas constantes. Sua delicadeza o leva a um gesto protetor: como quem não quer nada, informa o Paula, comerciante de língua feroz, que D. Luísa vai todo dia visitar D. Felicidade, que se encontra doente. É o suficiente: aos olhos da vizinhança, ela  passa de adúltera para exemplo de caridade.

De fato, alertada pelos elogios que Sebastião lhe dá   pela assiduidade com que vê a amiga, Luísa passa mesmo a ir à Encarnação antes de dirigir-se ao Paraíso.

A casa de Jorge entra em fase de grande harmonia. Satisfeita, a patroa não implica com as empregadas. Joana, a criada de fora, recebe o amante nas horas mais calmas, enquanto Juliana sai quantas vezes precisa para ir ao médico ou a tia Vitória, uma inculcadeira que a está orientando a sobrinha em como proceder para tirar partido do segredo de Luísa.

Já no Paraíso, as coisas começam a ir mal. Basílio mostra-se cada vez menos disposto a manter as atenções da primeira fase da conquista. Tem momentos de rudeza. Há brigas, mas há reconciliações ardorosas e a relação, mesmo abalada, continua.

Um dia, Luísa encontra o Conselheiro Acácio na rua. O homem gruda-lhe nos calcanhares com tal insistência, que ela acaba por perder o encontro no Paraíso. Volta para casa furiosa e despeja sua raiva em Juliana, que reage: "a senhora saiba que nem todas as cartas foram para o lixo". A cena é violenta. Juliana passa muito mal do coração. Luísa desmaia. Quando volta a si, só vê uma saída: fugir com Basílio. Ao arrumar a mala, percebe que um baú fora arrombado e mais duas cartas roubadas. Enquanto isso, Juliana vai procurar a tia Vitória, que lhe diz como agir: mandarão um mensageiro até o hotel com cópias das cartas e exigirão um conto de réis.

Basílio só fica ao par da situação no Paraíso, mas nega-se a fugir com Luísa. Adivinha a chantagem e até se dispõe a pagar, desde que não seja ele a negociar com a mulher para evitar mais extorsão. Luísa fica fora de si. Nega-se a receber o dinheiro e vai embora.

Já no hotel, Basílio acata o conselho de Reinaldo: devem partir imediatamente para Madri. Ainda há um último encontro. Luísa entende a situação e nega-se a receber o dinheiro. Basílio parte.

Juliana, que estivera sumida, reaparece furiosa. O amante fugiu, mas ela quer seus 600 mil réis ou mostra a carta a Jorge.

Luísa vê em Sebastião sua única saída e manda chamá-lo. Ele vem feliz: Jorge escreveu para ambos. Infelizmente, ele troca as cartas e ela acaba sabendo de algumas conquistas amorosas do marido. Luísa irrita-se, constrange-se de falar de suas necessidades com o amigo do marido e o vê indo embora sem ter resolvido nada.

Sempre aconselhada pela tia Vitória, Juliana resolve ser mais política. Afinal, de nada lhe adianta delatar a outra e ficar de mãos abanando. Escreve um bilhete para a patroa desculpando-se e comprometendo-se a fazer seu serviço corretamente enquanto espera o dinheiro. Luzia escreve a Basílio, mas não tem resposta. Sebastião viajou. Jorge está para chegar e Luísa consegue um prazo maior com Juliana. Ela tenta até mesmo recuperar as cartas, abrindo o baú de Juliana num momento em que a empregada saíra. Mas é claro que Juliana teria guardado os papéis em lugar bem mais seguro.

Enquanto procura ganhar tempo e conseguir o dinheiro, Luísa vai ficando à mercê das exigências da criada. A situação piora com a chegada de Jorge, que começa a estranhar o comportamento de Juliana e a condescendência de Luísa para com a criada. Um vestido de seda usado, saídas livres, a mudança para o "quarto dos baús", local espaçoso onde Jorge guarda suas malas. Depois, é uma esteira para cobrir o chão, depois uma cômoda para a roupa, depois camisas de baixo para encher a cômoda e, afinal,  roupas de sair, que Luísa tinge, para que Jorge não note. Joana, a criada de fora, sente-se preterida e Luísa, para não ter desavenças dentro de casa, vai também cobrindo de agrados a outra. Graças aos esforços de Luísa, mais uma vez, a casa está tranqüila. Agora que pode servir-se melhor da comida, Juliana supervisiona os pratos e trata de deixar as camisas de Jorge absolutamente engomadas. Mas Luísa vive desesperada. Sua esperança é que o aneurisma de que sofre Juliana estoure repentinamente. Mais do que nunca, sente-se apaixonada pelo marido e teme perdê-lo.

A fase cooperativa de Juliana dura pouco. Ela começa diminuir sua carga de trabalho. Para que Jorge não note o desleixo, Luísa passa a fazer o serviço escondido.

As provocações aumentam até que Luísa, desesperada, procura Leopoldina. A sugestão da amiga é que ela se deixe seduzir pelo Castro, um banqueiro que é louco por ela, e arranje o dinheiro necessário. Mas Luísa não concorda.

Um dia, Juliana passa mal e cai desmaiada. É a doença do coração que está agindo. Julião alerta para a possibilidade de eles ficarem com uma inválida em casa, melhor seria desfazer-se dela. Jorge decide despedir Juliana, sem saber que está encurralando a mulher. Era certo que Juliana contaria tudo se se sentisse ameaçada de perder o emprego. Luísa não vê outra alternativa: teria de ceder ao Castro. Leopoldina arranja o encontro, mas na hora de entregar-se, Luísa é tomada de tal repulsa, que acaba chicoteando o banqueiro. Volta-se à estaca zero.

Uma tarde, Jorge chega do trabalho mais cedo e dá com a Juliana lendo jornal na sala, enquanto Luísa engoma nos fundos. Fica irritado com a mulher, mas dado o estado nervoso dela, cala-se. Mas dias depois, estando a criada ausente na hora de servir a refeição, Jorge explode e a despede.

Mal ele sai, estoura uma verdadeira guerra na casa. Juliana ofende Luísa e é agredida por Joana, que já há tempos está irritada com seus maus modos com a patroa. Juliana exige que a outra seja despedida, mas Joana, sentindo-se injustiçada, ameaça ir queixar-se ao patrão. Luísa chora e pede à criada que parta. Então, corre para a casa de Sebastião e conta-lhe tudo.

Entendendo perfeitamente a situação, Sebastião providencia ingressos para a ópera Fausto, de forma a deixar o campo livre. Enquanto a família está fora, vai a casa na companhia de um policial e esclarece a situação com Juliana: ou entrega a carta, ou está presa. Vendo-se obrigada a ceder, a mulher é acometida de tal crise de ódio, que o aneurisma estoura e cai morta.

Tudo parece ter entrado nos eixos.  No entanto, presa de tantas comoções, Luísa começa a ter febre. Em uma das manhãs em que ela está febril, chega carta de Paris. Ocupado em ir buscar o Julião, Jorge enfia-a no bolso e esquece. O médico diagnostica uma excitação nervosa e recomenda que não se contrarie a doente. Já é tarde da noite quando Jorge lembra-se da carta. É de Basílio, explicando por que ainda não mandara o dinheiro, colocando-se à disposição e relembrando as boas manhãs passadas no Paraíso. Diante da notícia da traição da esposa, Jorge chora.

Para não piorar a doença da esposa, controla-se. Durante toda a convalescença, vela por ela atormentado pelo ciúme. Conforme melhora, Luísa cobre-o de carinho e ele deseja perdoá-la e esquecer. Mas não é capaz e mostra-lhe a carta. Luísa tem uma síncope. Inicia-se uma febre que derrota todos os esforços dos médicos. Ela falece e deixa Jorge completamente  aniquilado _ .
Na noite do enterro, cada e personagem ocupa-se de uma maneira. Jorge e Sebastião choram. Julião lê uma revista estendido num sofá. Leopoldina dança numa festa do Cunha. Acácio deita-se com a amante. Dona Felicidade, informada do caso do Conselheiro, prepara-se para se recolher à Encarnação.

Pela manhã, Basílio, que chegara há pouco em Lisboa, encontra-se na frente da casa de Luísa. Tinha desejos de reativar o Paraíso. Fica realmente abatido quando sabe que ela faleceu. Até porque, confiando em reatar o caso com a prima, não trouxera com ele a amante Alphonsine.