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Salette Tavares

(1922 - 1994)

Poetisa portuguesa, nascida na cidade de Lourenço Marques (actual Maputo, Moçambique). Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, em 1948. Em Paris, a partir de 1949, estudou Filosofia e Arte. Dez anos mais tarde, em Itália, dedicou-se a estudos de Linguística, de Estética e de Teoria da Arte.

Ligada aos movimentos experimentais da literatura portuguesa, colaborou em «Poesia Experimental 122», em «Hidra 1» e na exposição «Visopoemas», de 1965. Explorando as possibilidades da disposição gráfica do poema e a consequente deturpação da sintaxe, reflecte frequentemente temas e ambientes tradicionalmente ligados ao mundo feminino. Escreveu Espelho Cego (1958), Concerto em Mi Bemol para Clarinete e Bateria (1961), Forma Poética (1965), Tempo (1965), Forma e Criação (1965), 14563 Palavras de Pedro Sete (1965), Quadrada (1967) e Lex Icon (1971).

Kinetofonia

 

Arranhisso

 

Espelho Cego

Eu leio o meu destino nos jornais.

Eu vejo os Signos do Domingo nos chifres do Carneiro

e creio

no regaço em que me leva algum planeta

a jogar no firmamento.

Enigma Lua

Esqueceste

o touro     e o grito

a parede branca        e fria

a cabeça decepada     enfunada

vento sangue            ferido.

 

Esqueceste

a lâmpada no teto      amarelo

rio de sombra           corrido

cavalo eriçado           na tábua

                               no quarto.

 

Esqueceste

a cova onde              Sangue e olhos

enterraste

 

Esqueceste e alienado nos salões

ficaste      cheirando orquídeas  inodoras

               sapatinhos de papa    ocos

               réplicas estéticas       à metralha

                                              dos aviões.

 

Cansado? Inútil? Delinqüente? Vazio?

Quem te poderá julgar?

 

Eu só sei rasgar enigma

contra razões da terra

 

olhos que espanto me crava

na lua da tarde que erra.

 

Presença de transparência

na força que assim me arde

na lua de noite branca

me banho fantasma árvore.

Sombra na sombra lua

enigma junto à janela.

 

Esqueceste

mas não comigo

esqueceste a lâmpada amarela                   do abrigo

e as quatro paredes                                  frias.

Esqueceste

mas não comigo,