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POESIA NEO-REALISTA PORTUGUESA

João José Cochofel

João José Cochofel (1919-1982) natural de Coimbra onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas.

Algumas das suas obras: Os Dias Íntimos, poesia, Coimbra, 1950; Uma Rosa no Tempo, poesia, Lisboa, 1970; Obra Poética, Lisboa, 1988

Joaquim Namorado

Joaquim Namorado (1914-1986) nasceu em Alter do Chão, Alentejo. Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Unviersidade de Coimbra, dedicando-se ao ensino. Notabilizou-se como poeta neo-realista, tendo colaborado nas revistas Seara Nova, Sol Nascente, Vértice, etc. Obras poéticas: Aviso à Navegação (1941), Incomodidade (1945), A Poesia Necessária (1966). Ensaio: Uma Poética da Culutra (1994).

José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira (1900-1985) nasceu no Porto e faleceu em Lisboa. Foi poeta e ficcionista, tendo evoluído de um romantismo saudosista para uma postura literária de algum modo ligada ao Neo-realismo. A sua poesia encontra-se reunida em Poesia Militante (volumes I, II e III). Aventuras de João Sem Medo (histórias humorísticas do mundo juvenil), Tempo Escandinavo (contos, 1969) e O Sabor das Trevas (romance-alegoria, 1976) são algumas das suas obras de ficção. Dedicou-se igualmente à literatura de memórias, tendo escrito: Imitação dos Dias – Diário Inventado (1965), A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim (1965), Calçada do Sol (1983), Dias Comuns – I. Passos Efémeros (obra póstuma, 1990), Dias Comuns – II. A Idade do Malogro (obra póstuma, 1998).

Manuel da Fonseca

Manuel Dias da Fonseca nasceu no dia 15 de Outubro de 1911 em Santiago do Cacém e faleceu no dia 11 de Março de 1993. Fez os estudos secundários em Lisboa, tendo-se dedicado desde cedo ao jornalismo. Colaborou em várias publicações, de que se destacam as revistas Afinidades, Altitude, Árvore, Vértice e os jornais O Diabo e Diário. Juntou-se ao grupo de escritores neo-realistas que publicaram no Novo Cancioneiro. Estreou-se em livro com a colectânea poética Rosa dos Ventos (1940). Publicou ainda, em poesia, as seguintes obras: Planície (1941), Poemas Completos (1958) e Poemas Dispersos (1958). Em ficção, publicou: Aldeia Nova (contos, 1942), Cerromaior (romance, 1943), O Fogo e as Cinzas (contos, 1951), Seara de Vento (romance, 1958), Um Anjo no Trapézio (novela e contos, 1968), Tempo de Solidão (contos, 1973). Publicou ainda a colectânea de crónicas intitulada Crónicas Algarvias (1986).

Carlos de Oliveira

Carlos de Oliveira (1921-1981) nasceu em Belém do Pará, Brasil, e faleceu em Lisboa. Licenciou-se na Universidade de Coimbra em Ciências Histórico-Filosóficas. A sua obra poética e ficcional centra-se na vida campestre. Obras poéticas: Turismo (1942), Mãe Pobre (1945), Descida aos Infernos (1949), Terra de harmonia (1950), Cantata (1960), Sobre o Lado Esquerdo (1968), Micropaisagem (1969), Entre Duas Memórias (1971), Trabalho Poético (2 vols., 1977-1978), Pastoral (1977). Obras de ficção: Casa na Duna (1943), Alcateia (1944), Pequenos Burgueses (1948), Uma Abelha na Chuva (1953), Finisterra (1978). Crónicas: O Aprendiz de Feiticeiro (1971).

 

 

O Verão estala por todos os poros
da casca das árvores,
da língua dos cães,
das asas das cigarras,
do bico do peito das mulheres
tão acerado
que rasga o céu de calor
com um golpe preciso
de lanceta.

João José Cochofel,
In Quatro Andamentos, 1964.

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Paraíso Perdido

Que vens aqui fazer, espírito velho
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?

Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços como a relva dos [prados.

Foi mais tarde...
que a vida me entardeceu.

(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu... )
Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.

João José Cochofel.

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Os Dias Íntimos

 

Mói música um realejo,

poético de convenção.

Mas é hoje o que agrada

ao meu coração.

 

Com castanhas assadas,

chuva na imaginação,

e luzes molhadas

no asfalto do chão,

 

Egoísmo de bicho,

simulado ou não,

mas que bem me sabe

esta solidão.

 

Ó comedida felicidade,

com teu ópio vão

sobre tanta náusea

passa a tua mão.

 

João José Cochofel

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Pórtico

 

Outros serão

os poetas da força e da ousadia.

Para mim

- ficará a delicadeza dos instantes que fogem

a inutilidade das lágrimas que rolam

a alegria sem motivo duma manhã de sol

o encantamento das tardes mornas

a calma dos beijos longos.

(Um ócio grande. Morre tudo

dum morrer suave e brando...

 

Que os outros fiquem com o seu fel

as suas imprecações

o seu sarcasmo.

Para mim

será esta melancolia mansa

que me é dada pela certeza de saber

que a culpa é sempre minha

se as lágrimas correm ...

 

João José Cochofel

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Legenda para a vida
de um vagabundo

Nasci vagabundo em qualquer país, minhas fronteiras são as do mundo. Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.

O caminho é longo!…
-- Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais senão possa dar.

Joaquim Namorado

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Mania das Grandezas

 

Pois bem, confesso:

fui eu quem destruiu as Babilônias

e descobriu a pólvora...

Acredite,

a estrela Sírius, de primeira grandeza,

(única no mercado)

deixou-me meu tio-avô em testamento.

No meu bolso esconde-se o segredo

das alquimias

e a metafísica das religiões

— tudo por inspiração!

 

Que querem?

Sou poeta

e tenho a mania das grandezas...

 

Talvez ainda venha a ser Presidente da República...

 

Joaquim Namorado

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ARS

 

Os muros brancos da indiferença

desafiam os pintores

a pintar neles a esperança

 

amarelos sóis girando

roxos violetas azuis

gente animais árvores flores

como há e não há inventados

largas janelas abertas

 

para a vida e para o sonho

vermelhos entusiasmos

castanhos terra serenos

verdes e verdes terrenos

de horizontes rasgados

 

onde caibam os países

e os continentes e os mares ainda por descobrir

e o homem caiba inteiro

na verdadeira grandeza

em profundas perspectivas

 

tudo o que é grande e pequeno

dos outros o que a nós pertence

de nós o que a todos damos

a noite intensa povoada de sóis

que outros dias iluminam

 

a esperança neles pintada

a Paz o Pão o Amor.

E nas mansardas escuras

com os brancos muros em frente

da gelada indiferença

os artistas febris

esboçam em traços difusos

a própria morte do sonho.

 

Mas já na sombra da sombra

que sobre os brancos muros se estende

O coro das carpideiras

tece flores de retórica

para coroar-lhes as caveiras

e os conservadores misantropos

dos museus do que já foi

fazem o espólio das artes

com requintes de molduras.

 

Nos muros brancos da indiferença

gela o frio esquecimento…

 

Joaquim Namorado

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Manhã de Abril

Olho o céu nas poças da rua
que a chuva de ontem deixou,
como pássaros verdes as primeiras folhas
empoleiram-se nos ramos enegrecidos a do inverno
e o sol entorna sobre o casario miserável
uma chuva de falso oiro.
Que raiva me dá...
Foi hoje a enterrar aquela miúda loura
que via brincar na rua
com as tranças apertadas nos laços vermelhos
- morressem antes os velhos
que da vida nada esperam,
já sem amor, já sem esperança,
roídos de chagas e da lepra dos dias.
que não morresse ninguém, valá!
mas ela...
levaram-lhe flores os outros meninos da rua,
iam contentes como para uma festa,
e a mãe atrás do caixão chorando,
e as folhas verdes
e as flores nos canteiros e nas janelas
como se florir fosse uma coisa natural e inevitável
e o velho mendigo cego estendendo a mão,
e a gente educada tirando o chapéu por hábito...

Que raiva me dá a Primavera sobre a dor do Mundo!

Joaquim Namorado

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SONETO FIEL

Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.

O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.

As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.

O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
a noite que cercou o meu ofício.

 

Carlos de Oliveira

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CARTA DA INFÂNCIA

Amigo Luar:
Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
          minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
          nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
         cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
         da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.

Carlos de Oliveira
Trabalho Poético
Lisboa, Sá da Costa, 1998 (3ª ed.).

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Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras  de todos os  [dias
(O soneto que só errado ficou certo)
Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os [dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva

José Gomes Ferreira

 

*******

 

Entrei no café com um rio na algibeira

 

Entrei no café com um rio na algibeira

e pu-lo no chão,

a vê-lo correr

da imaginação...

 

A seguir, tirei do bolso do colete

nuvens e estrelas

e estendi um tapete

de flores

a concebê-las.

 

Depois, encostado à mesa,

 

tirei da boca um pássaro a cantar

e enfeitei com ele a Natureza

das árvores em torno

a cheirarem ao luar

que eu imagino.

 

E agora aqui estou a ouvir

A melodia sem contorno

Deste acaso de existir

-onde só procuro a Beleza

para me iludir

dum destino.

 

José Gomes Ferreira

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Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.

José Gomes Ferreira

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O amor que sinto

 

 

O amor que sinto

é um labirinto.

 

 

Nele me perdi

com o coração

cheio de ter fome

do mundo e de ti

(sabes o teu nome),

sombra necessária

de um Sol que não vejo,

onde cabe o pária,

a Revolução

e a Reforma Agrária

sonho do Alentejo.

Só assim me pinto

neste Amor que sinto.

 

Amor que me fere,

chame-se mulher,

onda de veludo,

pátria mal-amada,

chame-se "amar nada"

chame-se "amar tudo".

 

E porque não minto

sou um labirinto.

 

José Gomes Ferreira

********

 

O general

("Depois de fortemente bombardeada, a cidade X foi ocupada pelas nossas tropas.")

 

O general entrou na cidade

ao som de cornetas e tambores ...

 

Mas por que não há "vivas"

nem flores?

 

Onde está a multidão

para o aplaudir, em filas na rua?

 

E este silêncio

Caiu de alguma cidade da Lua?

 

Só mortos por toda a parte.

 

Mortos nas árvores e nas telhas,

nas pedras e nas grades,

nos muros e nos canos ...

 

Mortos a enfeitarem as varandas

de colchas sangrentas

com franjas de mãos ...

 

Mortos nas goteiras.

Mortos nas nuvens.

Mortos no Sol.

 

E prédios cobertos de mortos.

E o céu forrado de pele de mortos.

E o universo todo a desabar cadáveres.

 

Mortos, mortos, mortos, mortos ...

 

Eh! levantai-vos das sarjetas

e vinde aplaudir o general

que entrou agora mesmo na cidade,

ao som de tambores e de cornetas!

 

Levantai-vos!

 

É preciso continuar a fingir vida,

E, para multidão, para dar palmas,

até os mortos servem,

sem o peso das almas.

 

José Gomes Ferreira

********

 

Homens do futuro

 

Homens do futuro:

 

ouvi, ouvi este poeta ignorado

que cá de longe fechado numa gaveta

no suor do século vinte

rodeado de chamas e de trovões,

vai atirar para o mundo

versos duros e sonâmbulos como eu.

 

Versos afiados como dentes duma serra em mãos de injúria.

Versos agrestes como azorragues de nojo.

Versos rudes como machados de decepar.

Versos de lâmina contra a Paisagem do mundo

— essa prostituta que parece andar às ordens dos ricos

para adormecer os poetas.

 

Fora, fora do planeta,

tu, mulher lânguida

de braços verdes

e cantos de pássaros no coração!

 

Fora, fora as árvores inúteis

— ninfas paradas

para o cio dos faunos

escondidos no vento...

 

Fora, fora o céu

com nuvens onde não há chuva

mas cores para quadros de exposição!

 

Fora, fora os poentes

com sangue sem cadáveres

a iludiremos de campos de batalha suspensos!

 

Fora, fora as rosas vermelhas,

flâmulas de revolta para enterros na primavera

dos revolucionários mortos na cama!

 

Fora, fora as fontes

com água envenenada da solidão

para adormecer o desespero dos homens!

 

Fora, fora as heras nos muros

a vestirem de luz verde as sombras dos nossos mortos sempre

de pé!

 

Fora, fora os rios

a esquecerem-nos as lágrimas dos pobres!

 

Fora, fora as papoilas,

tão contentes de parecerem o rosto de sangue heróico dum

fantasma ferido!

 

Fora, fora tudo o que amoleça de afrodites

a teima das nossas garras

curvas de futuro!

 

Fora! Fora! Fora! Fora!

Deixem-nos o planeta descarnado e áspero

para vermos bem os esqueletos de tudo, até das nuvens.

Deixem-nos um planeta sem vales rumorosos de ecos [úmidos

nem mulheres de flores nas planícies estendidas.

Uma planeta feito de lágrimas e montes de sucata

com morcegos a trazerem nas asas a penumbra das tocas.

E estrelas que rompem do ferro fundente dos fornos!

E cavalos negros nas nuvens de fumo das fábricas!

E flores de punhos cerrados das multidões em alma!

E barracões, e vielas, e vícios, e escravos

a suarem um simulacro de vida

entre bolor, fome, mãos de súplica e cadáveres,

montes de cadáveres, milhões de cadáveres, silêncios de [cadáveres

e pedras!

 

Deixem-nos um planeta sem árvores de estrelas

a nós os poetas que estrangulamos os pássaros

para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens

— terríveis, à espera, na sombra do chão

sujo da nossa morte.

 

José Gomes Ferreira

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Poema da Menina Tonta

 

A menina tonta passa metade do dia

a namorar quem passa na rua,

que a outra metade fica

p'ra namorar-se ao espelho.

 

A menina tonta tem olhos de retrós preto,

cabelos de linha de bordar,

e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.

 

A menina tonta tem vestidos de seda

e sapatos de seda,

é toda fria, fria como a seda:

as olheiras postiças de crepe amarrotado,

as mãos viúvas entre flores emurchecidas,

caídas da janela,

desfolham pétalas de papel...

 

No passeio em frente estão os namorados

com os olhos cansados de esperar

com os braços cansados de acenar

com a boca cansada de pedir...

 

A menina tonta tem coração sem corda

a boca sem desejos

os olhos sem luz...

 

E os namorados cansados de namorar...

Eles não sabem que a menina tonta

tem a cabeça cheia de farelos.

 

Manuel da Fonseca

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Ruas da Cidade

 

Na noite calada e quieta como um grande segredo,

andando ao deus-dará nestas ruas desertas,

saio lá do fundo do meu sonho

e olho ao redor de mim.

 

Cá fora há tudo o que não é do meu sonho:

o frio, e os altos prédios fechados,

e as ruas mortas como paisagem de cemitérios.

 

E a claridade fugidia dos candeeiros cansados,

como pálpebras que se vão fechar.

E o torpor saindo de todas as coisas

e pairando no ar, como um desmaio iminente...

 

Só eu ainda tenho passos para andar

e uma não sei que ternura

para todos que estão, para lá das paredes

adormecidos e descuidados

à morte que espreita escondida no mistério da noite...

 

Em que casa e andar estará dormindo

aquela de quem não sei o nome nem a vida,

mas descobri a cor dos cabelos e a melodia do corpo

quando nos cruzamos esta manhã?

 

Nesse momento,

ou fosse porque chovia sol sobre a algazarra de gestos

das gentes que iam e vinham e se falavam e continuavam

ou porque nos olhássemos de certa maneira que não [saberei contar,

mesmo de longe, dissemos com os olhos, um para o outro

— Hoje é um dia de glória!

Mas tão estranho me pareceu

aquele milagre entre dois desconhecidos,

que nem voltei a cabeça para trás...

Agora este desânimo sem nome

de quem traiu um dia inteiro de vida

e teima ir pela noite dentro

à espera nem sabe de quê ...

 

De tantas horas iguais estou farto!

 

Mas ao fim e sempre a mesma esperança:

"um dia virá..."

E eu que tenho a vida desarrumada

como se fosse um milionário bêbado,

ergo-me e saio para a rua deslumbrado

e ressuscitado, todos os dias, ao amanhecer.

E vai a coisa tão certa como uma religião,

quanto pressinto que me olham de todas as caras

como se espiassem um louco...

Onde estão ouvidos que entendam as minhas falas?

 

E a noite vem encontrar-me deserto e abandonado...

Ah, um dia, quando a morte chegar,

hei de erguer para ela os meus olhos molhados,

e hei de contar-lhe a indiferença do mundo

e a amargura dos altos sonhos desfeitos...

— assim como um menino fazendo queixas a sua mãe.

 

Manuel da Fonseca

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Romance do Terceiro Oficial de Finanças

 

Ah! as coisas incríveis que eu te contava

assim misturadas com luas e estrelas

e a voz vagarosa como o andar da noite!

 

As coisas incríveis que eu te contava

e me deixavam hirto de surpresa

na solidão da vila quieta!...

Que eu vinha alta noite

como quem vem de longe

e sabe os segredos dos grandes silêncios

— os meus braços no jeito de pedir

e os meus olhos pedindo

o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...

 

(As coisas incríveis eu só as contava

depois de as ouvir do teu corpo, da noite

e da estrela, por cima dos teus cabelos.

Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos

quando eu ia nomarar-te...)

 

Mas tudo isso, que era tudo para nós,

não era nada na vida!...

Da vida é isto que a vida faz.

Ah! sim, isto que a vida faz!

— isto de tu seres a esposa séria e triste

de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...

 

Manuel da Fonseca

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