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O Delfim - José Cardoso Pires

 

O Escritor (narrador do romance) relembra os fatos de quando fizera uma viagem à Gafeira, aldeia do interior de Portugal. De como conhecera Tomás Manuel (o Delfim), também conhecido por alguns como O Infante, ou ainda como O Engenheiro. Relata as várias conversas que tivera com ele e comenta muito de sua personalidade. Homem mais importante daquela aldeia, herdeiro das terras que cercam a lagoa. A Lagoa é importante, pois a Gafeira tem como única atividade econômica importante a caça. O Delfim é dado às bebedeiras e às noitadas, embora seja casado com Maria das Mercês. Esta vive isolada na casa da fazenda e sente saudade do tempo em que tinha amigas e passeava. O criado Domingos vai se destacando por suas habilidades com as máquinas (o trator).

O Escritor está tentando compor uma história baseada no clã da família de Tomás Manuel, tem como apoio um texto antigo escrito pelo Abade Agostinho Saravia, escrito em 1801 intitulado Monografia do Termo da Gafeira. O exemplar que lera pertencia a dona de uma pensão da Gafeira, que avisa que ao que ela sabe, apenas o Tomás Manuel tem outro exemplar. De Tomás Manuel o escritor também consulta muito um livro intitulado Tratado das Aves, escrito por um anônimo.

Nas conversas com o Delfim, o Escritor vai citando obras e autores como Xenofonte (considerado o pai dos escritores-caçadores), Conan Doyle (Sherlock Homes, em que se discute a possibilidade do crime perfeito) e de uma poetisa local chamada Maria da Paz Soares (uma que escreve): “Todos os anos publica um livro de poemas e todos os anos muda de amante que é para manter os cornos do marido em forma.” Citam-se ainda outros escritores. O Delfim tem para com a literatura e filosofia uma posição cética e parece conversar sobre tais assuntos com o Escritor apenas para aporrinhá-lo.

Dedica-se vários parágrafos no romance a se esclarecer a importância dos cães para os caçadores. A caça começa a se recuperar como atividade econômica quando Tomás Manuel começa a se tornar ausente da vila em razão de seus problemas pessoais. O, Regedor que tem uma loja de artefatos para caça, começa a vender licenças de caça para eventuais visitantes e turistas.

Tomás Manuel é motivo da conversa de várias pessoas do bar em que o Escritor freqüenta, muitos suspeitam que ele esteja envolvido nas mortes de sua esposa e do criado mas não existem provas concretas. O Escritor vai anotando as conversas dessas pessoas: O Padre Novo, o Batedor, o Velho, o Dono do Café.

Numa noite, Tomás Manuel fora visto discutindo com um casal no bar do posto de gasolina (Bar do Shell). Ao que parece, o casal era de fora, e Tomás Manuel acertara que ele dormiriam na cidade, mas eles queriam ir para a casa de Tomás. Na discussão, o Delfim - supõem alguns - teria arrancado uma orelha ao homem. Saiu do bar com seu Jaguar, não sem antes bater numa árvore, ficando ferido na ocasião. Ao chegar em casa, bêbado, encontra o corpo do criado morto na cama da esposa - o médico legista dirá que a causa da morte foi um colapso cardíaco (para o Escritor, a morte do criado pode ter sido o fato de que o criado tivera que acompanhar Tomás Manuel em muitas bebedeiras, mas não tinha físico para isso). A mulher de Tomás Manuel, Maria das Mercês fora encontrada morta, afogada na lagoa.

O Jaguar é um símbolo de status, representa o poder de Tomás Manuel, as pessoas admiram a beleza e a potência daquele carro esportivo. Domingos, o criado, aprendera a dirigir o carro e se tornara choffeur do Delfim.

Num dos primeiros capítulos do romance ficamos sabendo que o Engenheiro afirmara que gostaria de ser enterrado na lagoa, para que não sentisse sua carne sendo comida pelos vermes da terra, se fosse necessário que o coveiro usasse escafandro para tal tarefa. Maria das Mercês considera esse desejo do marido algo estranho e esdrúxulo. A morte da mulher na lagoa simbolicamente representa o sufocamento a que essa mulher sentia na sua vida. Mulher de educação urbana e moderna não conseguia se sujeitar totalmente ao estado repressivo a que estava sujeitada.

Os cães e as aves caçadas são também evocadas como conceitos alegóricos de qualidades e defeitos dos homens.

Outros aspectos conotados na obra: o Vinho e o Whisky. A primeira bebida é usada sem, no entanto, causar maiores danos que uma série de conversas e boatos entre os freqüentadores dos bares. O Whisky, por sua vez, é a bebida predileta de Tomás Manuel e a que vai causar seus maiores destemperos e estado agressivo.

No bodégon (o café) um cartaz de um toureiro espanhol serve de motivo para que se fale dos toureiros que morreram vítima de touros, e Tomás Manuel conhece o nome desses touros.

Como observa Nelly Novaes Coelho: “O Engenheiro encarna a sobrevivência de uma mentalidade medieval: arrogante orgulho de superioridade frente aos inferiores, contraposto a um sentimental paternalismo”.