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A BALADA DA PRAIA DOS CÃES - José Cardoso Pires - resumo

(Texto de Paul Castro - acesse o texto completo no link ao final da página)

 

Escrito durante o período pós-revolucionário e publicado em 1982, Balada da Praia dos Cães relata a investigação de um assassínio. O cenário é o Portugal do início dos anos 60, chamado por Gérard e Pierrette Chalender de "época salazarista por exceléncia"(1). Este foi um período crucial para o regime fascista, dado que o país tinha acabado de perder os seus territórios na Índia e as sementes da revolta armada nas colônias Africanas tinham começaram a brotar. Embora este contexto político permaneça principalmente implícito, é crucial como pano de fundo contra o qual o enredo se desenrola. A Balada da Praia dos Cães pode ser qualificado como um romance policial, ainda que infrinja as supostas 'regras' do gênero. Segundo a análise estruturalista do romance policial feito por Todorov(2), pode-se dividir o enredo da Balada da Praia dos Cães em dois enredos, um que descreve o inquérito e outro, construído através desta investigação que conta o ocorrido do crime. O protagonista do primeiro história é Elias Santana, um chefe de brigada da Polícia Judiciária encarregado de encontrar os responsáveis pelo o assassínio de Major Dantas Castro. O Major, encarcerado por 'tentativa de sedição militar', ou seja, o seu envolvimento num golpe anti-salazarista abortado, tinha-se evadido da forte militar de Elvas onde se encontrava detido com a ajuda de três cúmplices. Uma vez fora da prisão fugiram para uma casa escondida cerca de vinte quilômetros de Lisboa alcunhada de 'Casa da Vereda'. Três meses depois da fuga o Major foi assassinado pelos seus cúmplices: Mena, uma jovem mulher com quem o Major tinha uma violenta e obsessiva relação antes do seu encarceramento, o arquitecto Fontenova, outro prisioneiro detido em Elvas por seu envolvimento com a revolta militar e membro do mesmo movimento de resistência anti-salazarista do Major, embora com atitudes políticas e morais muito diferentes das de Dantas Castro e o cabo Barroca, uma guarda do campo a cumprir o seu serviço militar. Até um certo ponto, podemos ver na casa da vereda um microcosmo de Portugal naquela altura. O Major, um verdadeiro Marialva, que vê Mena como um bem e uma prova do seu machismo, o intelectual sensível Fontenova com desprezo e um brutal paternalismo, e o camponês Barroca como o seu servo. Os habitantes estão ali escondidos à espera dum signo do 'Comodoro', nome de código do advogado Gama e Sá, o seu contacto na resistência que, ao que parece, quer distanciar-se do Major. Nós assistimos aos acontecimentos na casa através das descrições feitas pela Mena no seu depoimento a Elias Santana. Na sua detenção extrajudicial e nos metódos empregues por Covas para interrogá-la vimos um bocado os procedimentos da polícia da altura. A divisão entre 'bons' e 'maus', parte estrutural integrante do romance detetivesco tradicional, dificulta-se e começam a desmoronar-se as regras do gênero. Pelo testemunho da Mena, com a lucidez que se pode ter quando se olha para trás, mas mantendo o sentimento de obscura confusão que caracteriza a experiência humana (por oposição à 'clareza' da História.), nos vemos as pressões sociais e históricas que tornaram um homem de princípios ferrenhos num monstro irracional e levaram três pessoas de sensibilidade e inteligência a matarem brutalmente este homem que outrora amavam e respeitavam. O inquérito de Elias Santana visa elucidar esta segunda história, como compete a um agente da polícia judiciária. Contudo, a sua investigação revela muito além dos simples acontecimentos do caso, que desde cedo estão averiguados. Em acompanhando a sua atuação, nós vemos um país onde a verdade, outramente dita a história, é somente a versão do sucedido que mais arranja o poder, imposto à população pela PIDE e pela agência da Censura. Nós vemos, obscuramente, do ponto de vista de Santana as manipulações da PIDE, a desconfiança e da Polícia judiciária para com ela e os distorcimentos dos factos divulgados por uma imprensa majoritariamente servil, obediente ao regime e, em todo caso, censurado. Ao acompanhar Elias nas suas investigações também entrevemos a sua vida, esvaziada e cinzenta, com somente um lagarto altamente alegórico por companhia. Vemos nisso o cotidiano do fascismo, através de um dos seus protectores. Sem grande drama, a tragédia como Eduardo Lourenço chamou à realidade fascista. Através das suas deambulações pela Lisboa acanhada e apoquentada dos anos do fascismo, e as suas entrevista com suspeitas e testemunhas acerca do caso, proporcionado uma visão polifônica da sociedade contemporânea. O que vem complicar este romance é o facto de ser baseado num caso verídico De facto, em 1960 um militar foi assassinado pelos seus cúmplices, um dos quais, que viria a inspirar a personagem do arquitecto Fontenova, depois da sua captura, fez chegar às mãos de Cardoso Pires um relato dos acontecimentos. Tendo isto em mente, será Balada da Praia dos Cães, romance ou História, ou até romance histórico? Vem um outro factor a complicar o cenário, o facto de o livro ser extremamente metaficcional, fracturando sempre qualquer ilusão de 'representação de realidade' cara ao Neo-realismo. O livro alerta o leitor continuamente ao facto que uma ficção, possível e plausível muitas vezes está a ser escrita. Isto permite-nos chamar o livro de, segundo a designação de Linda Hutcheon "metaficção histórica".

 

 

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Na sua introdução ao Everyday Studies Reader, Ben Highmore diz que "invocar o cotidiano pode ser invocar precisamente aquelas prácticas e vidas que tradicionalmente se deixaram de fora da História, varridos pela enxurrada de acontecimentos instigados pelas elites"(1). No retrato feito da investigação de Elias Santana, é precisamente isso que nós podemos ver, no pormenor reconstruído do caso da Casa da Vereda assim como na vida do detective, Elias Santana. Alias, como defende Kristin Ross, uma das características do romance policial é o seu foco no "emaranhamento cotidiano das pessoas no que as rodeia"(2). Highmore, cientista social por formação defende que para render 'visível ' o cotidiano é preciso uma poética, uma maneira de desfamiliarizá-lo. A metaficcionalidade da Balada da Praia dos Cães, podemos dizer, consegue isso. Segundo Highmore, o cotidiano existe entre dois pólos: o geral e o particular. Do lado do geral, há a agência do indivíduo, a sua resistência às estruturas do poder (que é do lado do geral). O cotidiano, podemos dizer é o lugar onde a actuação do poder se faz sentir na vida do indivíduo, onde os efeitos de poder são negociados, e onde a ideologia vigente se actualiza em prácticas concretas, atitudes ou conceitos. O cotidiano é também o lugar onde o ser se actualiza como tal, onde nós nos construímos, consciente ou inconscientemente, como pessoas. Uma das questões principais sobre a qual se debruçam os estudiosos deste campo de pesquisa é: aonde se encontra exactamente o cotidiano? Lugares recorrentes nesta discussão incluem a rua, a casa e os espaços instituições a partir donde se tenta reger a vida cotidiana dos demais. Todos estes lugares são proeminentes em Balada da Praia dos Cães. É o formato do romance policial que permite a investigação do quotidiano na cidade fascista em Balada da Praia dos Cães. A interrogação de suspeitos e testemunhas fornece uma audiência polifónica da sociedade Lisboeta da altura, dando uma visão histórica múltipla, e não única e homogênea como na historiografia convencional. No curso das investigações de Elias Santana ele atravessa muitos espaços físicos da cidade. Walter Benjamin(3) defendeu que a figura do detective na literatura descende da figura histórica do flâneur, e podemos ver traços disso em Balada da Praia dos Cães. Assim como ele perpassa vários espaços físicos da cidade, o detective Elias Santana perpassa também vários locais topográficos em Lisboa, desde o central da PIDE à casas privadas de suspeitos e testemunhos, atravessando praças e pausando em bares. Estes itinerários servem para mediar a experiência da época do Salazar para leitores contemporâneos. O conhecido café do bairro do Chiado, A Brasileira é um excelente exemplo. Outrora lugar de predileção da intelligentsia lisboeta, agora paragem obrigatória nos circuitos turísticos da cidade, então é nos dado a ver como um lugar cheio de políticos Salazaristas, agentes da PIDE e informadores. Isto é conseguido através das reflexões de Santana enquanto segue uma suspeita ao café ao ver um ministro sentado à mesa com um torturador conhecido. Isto contribui para uma visão da cidade como um lugar onde imagens de morosidade mórbida e incaração multiplicam-se inexaucívelmente.

 

 Fonte: http://www.mml.cam.ac.uk/aspects/assets/pmc39/public_html/project2/pages/homepage.html