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Fernando Namora - Casa da Malta

A Inserção Narrativa em Casa da Malta, de Fernando Namora

Antony C. Bezerra

 

 

1 Introdução

Procuramos, neste trabalho, observar como se estrutura a inserção narrativa em Casa da Malta, novela de Fernando Namora. Foi nosso intuito verificar a função assumida pelas seis narrativas inseridas em relação à narrativa primária e, principalmente, à obra como um todo.

Nossas considerações estarão divididas, fundamentalmente, em três momentos: apresentação do escritor português Fernando Namora e de Casa da Malta (2); exposição da noção de inserção narrativa segundo Bal (1994) e Prince ([19__]) (3); análise propriamente dita da novela, incluindo a apreciação de quatro excertos de narrativas inseridas (4).

 

2 Casa da Malta no Contexto da Obra de Fernando Namora

O poeta, romancista e ensaísta Fernando Namora (n. 1919 - f. 1989) é dos autores mais representativos do Neo-Realismo literário em Portugal. Desenvolvendo paralelamente à vida literária a atividade de médico, Namora buscou na realidade de sua profissão a matéria-prima para a composição de considerável parte de seus livros. São estes, portanto, refratados do testemunho de vida deste escritor, que atravessou várias fases em sua carreira.

Com base em Mendonça (1978: ), dividimos em quatro momentos a criação literária de Fernando Namora: (1) o ‘ciclo estudantil’, com obras que retratam a vida no liceu e na universidade; (2) o ‘ciclo rural’, onde se insere Casa da Malta, publicada em l945; (3) o ‘ciclo urbano’, fruto da mudança do médico do campo para a cidade; (4) os ‘cadernos de um escritor’, influenciados pelas viagens do literato ao estrangeiro.

Ao lermos um romance de Namora, facilmente percebemos que suas personagens não são tipos contaminados de automatismos, mas sim indivíduos dotados de especificidade, que sofrem e lutam para compreender – e modificar – o ambiente social em que vivem. Tal asserção é sancionada por Monteiro apud Camocardi (1978: 27) que, com propriedade, crê que as figuras criadas pelo escritor-médico não são o camponês, o engenheiro ou o mineiro; mas sim um camponês, um engenheiro e um mineiro. Compartilha da mesma perspectiva Sacramento ([1967]: 73-74), quando diz que Fernando Namora «virá a criar uma galeria de personagens em que não é o número ou a variedade que contam, mas a exemplaridade ou o enquadramento específico.».

Escrita em apenas oito dias, Casa da Malta é fruto da estada do médico recém-formado na região da Beira Baixa, Portugal. O caráter testemunhal da narrativa se confirma no Prefácio à obra – escrito pelo próprio novelista em 1961 – em que reconhece ter se inspirado num casebre, próximo ao seu consultório, que abrigava indivíduos postos à margem da sociedade – a malta (Namora, 1988: 25).

Tendo na estrutura básica um evento central – o nascimento de uma criança cigana – a narrativa congrega, ao longo de seis capítulos, histórias que revelam episódios do passado de seis diferentes personagens: Abílio, Ricocas, Graça, Troupas, Manel e Carminda.

 

3 A Narratologia e a Inserção Narrativa

O fenômeno de inserção narrativa é recorrente tanto em narrativas de experiência pessoal (orais) como também em textos literários. Não deve ser confundido com as narrativas difusas (citadas por Toolan, 1988: 169), pois nestas não se estabelece uma relação hierárquica – há muito mais uma justaposição de narrativas. Assim, como destaca Bal (1994: 142), só falaremos de inserção narrativa quando houver uma demarcação entre a narrativa primária e as narrativas inseridas.

Prince ([19__]: 35), ao estudar o fenômeno de narrativas múltiplas, observa que não é apenas em casos de narrações intercaladas que «há várias narrativas nas quais encontramos mais de uma narração. [...] em uma dada narrativa, pode haver um número indefinido de narrativas [...] apresentadas em uma ordem cronológica ou não.» [tradução nossa].

Pouco depois, diz o narratólogo: «Quando há várias narrações em uma narrativa, uma delas pode introduzir outra que, por sua vez, introduz mais uma outra, e assim por diante; ou uma delas pode introduzir várias outras em sucessão, e assim por diante.» (Prince, [19__]: 35) [tradução nossa]. Este processo pode ocorrer de duas maneiras: (1) sem retornar à narrativa primária («principal», em suas palavras); (2) retornando à narrativa primária. O autor acredita ainda que seria relevante, numa análise de inserções narrativas, observar a significação tanto no relacionamento da narrativa primária com as inseridas como destas entre si. É justamente por este caminho que seguimos em nossa abordagem de Casa da Malta.

Bal (1994: 144) ressalta que, em havendo relações entre a trama da narrativa inserida e a da narrativa primária, aquela pode explicar apenas, ou, mais ainda, explicar e determinar a narrativa primária. No primeiro caso, a narrativa inserida tem por papel esclarecer a situação presente da narrativa primária (caso particular do nosso objeto de estudo). No segundo, a narrativa inserida não só explica a situação presente, como também pode modificar os rumos do desenrolar da narrativa primária.

Para dar termo à exposição de nosso instrumental narratológico, trataremos do modelo de análise de narrativas de experiência pessoal desenvolvido por Labov (1972: 363). A justificativa para tal está no fato de, nas inserções narrativas de Casa da Malta, ser estabelecida uma relação entre as partes da narrativa segundo a caracterização proposta pelo sociolingüista norte-americano. Cabe destacar que o modelo laboviano, desenvolvido para narrativas orais, já foi utilizado para narrativas literárias com sucesso por Pratt (1979) e Carter (1997). Destarte, não soará estranha a sua aplicação na novela que ora estudamos.

Em seu estudo das narrativas orais produzidas entre jovens falantes do Inglês Negro Vernáculo (INV), Labov observou a recorrência de determinadas estruturas. Tal fato conduziu-o à divisão da narrativa em seis partes, a saber: resumo, orientação, complicação, avaliação, resolução e coda. Vale lembrar que a posição destes elementos na narrativa não é fixa. Este fator, inclusive, é gerador do que Labov chama de «point» – o fulcro de interesse da narrativa (1972: 366).

No caso particular de Casa da Malta, merecem destaque o resumo e a coda, pois são estes os elementos responsáveis pelo encadeamento estrutural das narrativas, conforme aferiremos.

 

4 A Inserção Narrativa em Casa da Malta

Há, no âmbito da narrativa primária, dois episódios: (1) a chegada de Abílio à vila de Penedo – sua terra natal; (2) o nascimento do filho de uma cigana que está hospedada na casa da malta – episódio mais destacado do ponto de vista da novela como um todo.

Das seis personagens caracterizadas através de narrativas inseridas, cinco – a exceção é Abílio – compartilham do espaço da casa de vagabundos. Daí, podemos observar uma relação íntima entre o fato de se estar no espaço físico do galpão e ter algum episódio do passado relatado pelo narrador.

Antes de nos dedicarmos ao texto de Casa da Malta, acreditamos ser pertinente a apresentação de dois quadros que dizem respeito aos capítulos da narrativa (Quadro 1) e à maneira como se organizam a narrativa primária e as inseridas (Quadro 2). Ambos são importantes na medida em que facilitam a identificação dos episódios abordados em nossa análise – em que capítulo estão contidos, e se estão na narrativa primária ou em uma narrativa inserida.

 

 

Quadro 1: Distribuição dos capítulos em Casa da Malta

 

 

CapítuloPrimeiro

CapítuloSegundo

CapítuloTerceiro

CapítuloQuarto

CapítuloQuinto

CapítuloSexto

páginas

35-57

59-71

73-90

91-100

101-110

111-117

 

 

Quadro 2: Disposição das narrativas primária e inseridas em Casa da Malta

 

NarrativaPrimária

NarrativaInserida 1(Abílio)

NarrativaInserida 2(Ricocas)

NarrativaInserida 3(Graça)

NarrativaInserida 4(Troupas)

NarrativaInserida 5(Manel)

NarrativaInserida 6(Carminda)

páginas

35-4348-5769-7189-9098-100109-110

  43-48

  59-68

  73-88

  91-97

  101-108

  111-117

 

 

Conforme se pode notar no Quadro 1, a extensão dos capítulos é variável. A partir do Quadro 2, podemos averiguar que, gradativamente, a narrativa primária vai aflorando no texto da novela de maneira cada vez mais breve. É de se notar ainda que há uma narrativa inserida por capítulo, e que a novela tem seu fim com uma narrativa inserida – a de Carminda.

Antes da apreciação dos excertos, julgamos ser relevante referir-nos ao mecanismo através do qual se encadeiam as narrativas. Como já dissemos, existe a relação entre a coda de um capítulo e o resumo do subsequente. Isto ocorre da segunda maneira: a coda da narrativa primária de um capítulo será o título (resumo) do capítulo a seguir. No desfecho do primeiro capítulo, p. ex., quando a personagem Graça quer saber do alfaiate Ricocas sobre a passagem que este teve na prisão, obtém como resposta do rapaz: «– Frio. Eu conto.» (Namora, 1988: 57). Ora, ‘Eu conto’ é justamente o título do Capítulo Segundo (Namora, 1988: 59). Com base nisto, percebemos que os títulos dos capítulos dizem respeito muito mais às narrativas inseridas que propriamente à primária – o nascimento do ciganito.

 

 

Conforme mencionado, a narrativa de Casa da Malta tem início como primária. Reproduz a chegada de Abílio – depois de três anos integrado a uma trupe circense – à sua vila natal. No âmbito da narrativa primária, não é revelada claramente a razão pela qual o rapaz resolve voltar. A resposta para tal está na narrativa inserida 1: o ambiente do miserável circo não era nada alentador, o que fazia com que o rapaz tivesse saudades de suas raízes.

 

 

Excerto 1 – Abílio

«O circo acabara numa aldeia escura da Beira. Quando chegaram a esses sítios amaldiçoados em penedias e estevas já o grupo tinha minguado: as raparigas gordas fugidas na companhia de meliantes, a velha e as duas crianças mortas de doença e miséria.

A velha arrastara ainda por um ano uma perna ulcerada e imunda. [...]

Mas era ainda a velha que cozinhava umas sopas para o grupo, apesar do nojo dessa mistura de chagas, trapos purulentos e de comida. [...]

Tinham chegado pela tarde, famintos. Abílio correu as ruas, atroando os ares com o tambor e distribuindo programas do espetáculo, ainda do tempo em que o circo reunia quase toda a família.»

(Namora, 1988: 43-45).

 

 

Esta convivência mórbida, portanto, foi decisiva para que crescesse em Abílio a saudade de sua vila (sentimento indicado no título do capítulo). Assim, podemos notar, por meio da narrativa inserida 1, o porquê da volta do ex-trompetista de circo às origens.

Na mesma carroça em que vai Abílio com seu atual patrão (um tendeiro), está o alfaiate Ricocas, que pediu carona após cumprir pena na «choça» (Namora, 1999: 42). Lá estava por ter agredido um policial. Como já vimos acima, Graça – que também viajava de favor no veículo – pede a Ricocas que conte sobre a estada na cadeia. A narrativa inserida 2, portanto, ao mesmo tempo que esclarece Graça sobre este episódio na vida do alfaiate, revela alguns traços do comportamento do mesmo. O seguinte trecho apresenta o momento em que, no tribunal, Ricocas é argüido pelo juiz.

 

 

Excerto 2 – Ricocas

«– Basta. E hoje por que está aqui?

– Aqui?

– Sim, aqui: a responder perante este tribunal.

– Por me virar a uma autoridade. – O juiz ia a abrir a boca para falar, mas o homem, com uma tranquilidade que tanto parecia inconsciente como audaciosa, concluiu: – E ele a mim.

– Por que fez isso?

– Por ele se virar a mim primeiro.»

(Namora, 1988: 64).

 

 

Ficam nítidos, nesta passagem, tanto o caráter irônico da personagem como seu atrevimento – mesmo perante um juiz de direito ele não se inibe. É de se notar que a narrativa inserida 2, demandada por Graça, não é narrada pela personagem Ricocas (não é ele quem ‘conta’), mas sim pelo mesmo narrador da narrativa primária. Assim ocorre também com a narrativa inserida 3. Ricocas, desejoso de saber mais acerca de Graça, esta «rapariga de rugazinhas na face bonita e olhos tristes que afogavam todo o resto da expressão. [...] O vestido dela era bom. As suas mãos, brancas e macias.» (Namora, 1988: 70), pergunta sobre o passado dela. A moça evita esta revelação, dizendo que sua vida «não tem importância» (Namora, 1988: 70). Enquanto para Ricocas a trajetória da moça continua sendo um mistério, os receptores da novela têm a oportunidade de, através da narrativa inserida 3, saber da promíscua juventude de Graça num bairro estudantil da cidade de Coimbra. O extrato que a seguir apresentamos retrata o momento em que a moça é abandonada pelo seu amante – o Dr. Alceu.

 

 

Excerto 3 – Graça

«Mas depois de uma noite em que se reavivaram as horas felizes do passado, o Dr. Alceu teve as mesmas frases polidas, geladas... E mandou-a embora.

Ela não podia aparecer assim em Coimbra! Não podia. E foi o seu começo de deambular de terra em terra, por casas de má nota, oferecida ao acaso: alguém desesperado à beira do abismo, que sente a irresistível, a dolorosa atracção…»

(Namora, 1988: 88).

 

 

Após viver em concubinato com o Dr. Alceu – antes ainda entregara-se a vários rapazes universitários –, Graça, envergonhada, sai pelo mundo em busca da sobrevivência, que chega através da prostituição. É numa destas andanças que a moça se encontra com o alfaiate Ricocas.

A última personagem contemplada com uma narrativa inserida é Carminda, que, na narrativa primária, não chega a habitar efetivamente a casa da malta. É uma moradora do litoral que, de origem serrana, não aceita dar à luz o seu filho próxima ao mar. No trecho que segue, notamos a falta de identidade entre a personagem e o lugar onde mora.

 

 

Excerto 4 – Carminda

«O seu filho havia de ser da serra, da terra. Ali só havia mar e areia esboroada, nada que firmasse os pés. Seus pais e avós tinham nascido na terra, do arado, do suor nos campos de milho [...].»

(Namora, 1988: 112-113).

 

 

Nessa jornada em busca da serra, Carminda encontra a casa de vagabundos. Chega no exato momento em que se podia ouvir o «choro débil da criança cigana e a vida e o calor que para lá se adivinhavam.» (Namora, 1988: 117). É com este trecho que termina o livro: marca o desfecho tanto da narrativa primária (o nascimento da criança cigana) como o da inserida 6 (Carminda poderá ter o filho nas serras). Este momento caracteriza, simultaneamente, a coda do segundo episódio da narrativa primária e a resolução da última narrativa inserida. A concepção cíclica da casa da malta fica, assim, clara: lá nasceu a criança cigana e, também lá, será gerado o filho de Carminda.

 

 

5 Conclusão

Realizada a análise, estamos seguros de ter atingido dois fins em especial: (1) observar como o narrador de Casa da Malta se utiliza da inserção narrativa para caracterizar as personagens da novela; (2) comprovar que uma análise literária baseada nas contribuições da lingüística, quando despida de reducionismo, mostra-se eficaz e contribui decisivamente para uma melhor compreensão do texto literário. Ademais, pudemos perceber que todo indivíduo tem motivos distintos para ir a um determinado lugar, pois seres humanos não são produzidos em série – possuem traços bem particulares em sua personalidade. Fernando Namora, ao escrever Casa da Malta, provou ter esta consciência.

 

 

Referências Bibliográficas

Bal, Mieke. Narratology: introduction to the theory of narrative. Toronto: University of Toronto Press, 1994. chap. 3, p. 119-153: Text: words.

Camocardi, Elêusis M. Fernando Namora: um cronista no território da ficção. Assis: ILHPA; São Paulo: HUCITEC, 1978.

Carter, Ronald. Investigating English Discourse: language, literacy and literature. London: Routledge, 1997. chap. 9, p: 171-191: Teaching Language and Literariness.

Labov, William. Language in the Inner City. Oxford: Basil Blackwell, 1972. chap. 9, p. 354-396: The Transformation of Experience in Narrative Syntax.

Mendonça, Fernando. Breve Diagnose da Obra de Fernando Namora: excertos. In: Fernando Namora: 40 anos de vida literária. Amadora: Bertrand, 1978. não paginado.

Namora, Fernando. Casa da Malta. 13. ed. rev. Mem Martins: Europa-América, 1988.

Pratt, Mary Louise. Toward a Speech Act Theory of Literary Discourse. Bloomington: Indiana University Press, 1977. chap. 2, p. 38-78: Natural Narrative: what is “ordinary language” really like?.

Prince, Gerald. Narratology: the form and functioning of narrative. Berlin: Mouton, [19__].

Toolan, Michael J. Narrative: a critical linguistic introduction. London: Routledge, 1988. cap. 5, p. 146-182: Narrative as Socially Situated: the sociolinguistic approach.

 

 

Trabalho apresentado no iii Encontro Nacional de Língua Falada e Escrita, realizada na Universidade Federal de Alagoas, Maceió (12-16 abr. 1999)

 

 

© Antony C. Bezerra, 1999

antonycbezerra@hotmail.com