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A Sibila - Agustina Bessa-Luís - resumo

Adapt. De site do curso Universitário

O romance A Sibila narra a história de três gerações da família Teixeira, cuja figura principal é Quina, que, por seu profundo e controverso discurso de sabedoria humana, é caracterizada como uma sibila, ou seja, alguém dotado de poderes especiais em relação à previsão do futuro e à obtenção de favores divinos mediante preces.

Ao longo de seus dezenove capítulos, a narrativa vai acompanhar, da queda ao apogeu, os acontecimentos que determinam a vida dessa família e de sua propriedade: a casa da Vessada, destacando o comportamento das mulheres, que são diretamente responsáveis pela reedificação do patrimônio. Paralelamente a essa história, outras histórias são recuperadas, sempre na intenção de ilustrar o sistema de valores que cerca a família Teixeira.

O primeiro capítulo inicia-se com o diálogo entre a personagem Germa (Germana) e o seu primo Bernardo Sanches, quando visitavam a quase abandonada casa da Vessada. Germa, distraída da conversa, começa a rememorar os fatos do passado e pergunta a si mesma sobre quem fora Quina, a tia que lhe fez herdeira.

Começa então a narrativa da história da família, primeiramente descrevendo o nascimento de Quina, Joaquina Augusta, e depois retornando ao casamento dos pais de Quina, Francisco Teixeira e Maria da Encarnação, que são apresentados detalhadamente.

Nesse primeiro capítulo ainda se conta o incêndio que destruiu a casa da família, antes mesmo do nascimento das crianças.

O segundo capítulo traz informações sobre a vida desregrada de Francisco Teixeira e as aflições que Maria sofria, esperando por ele. Descreve-se também as circunstâncias da morte dos três primeiros filhos do casal e o nascimento de Justina, nome de batismo da primeira criança que sobreviveu.

Caracteriza-se, nesse capítulo, a diferença de tratamento que a mãe, Maria, dispensava às duas primeiras filhas: Estina era tratada com carinhos e cuidados especiais, enquanto à Quina eram destinados os trabalhos mais pesados.

O pai, Francisco, reconhece tais diferenças e, sempre que possível, toma partido da filha mais nova.

No terceiro capítulo, é narrada uma série de infortúnios que atinge a família Teixeira. A morte de Abílio, o filho adolescente que foi para o Brasil tentar fortuna e voltou atacado de febres. A falta de dinheiro e as inúmeras dívidas decorrentes da fanfarronice de Francisco, bem como sua morte.

Ocorre ainda a ruptura dos namoros das duas irmãs: Estina, cujo namorado desapareceu ao perceber a falência da família, e Quina, que renunciou ao pretendente, para que este pudesse encontrar casamento de maiores dotes.

O quarto capítulo focaliza Quina. Apresenta-se o desenvolvimento de suas capacidades sibilinas, que eram já previstas pela mancha de nascença que a menina apresentava no pulso e que começaram a ser notadas desde que uma grave doença a atingiu quando não tinha ainda mais de quinze anos e todos pensaram que iria morrer. A partir desse incidente, Quina percebe que pode exercer alguma influência sobre as pessoas que a cercam.

O processo de reconstrução econômica da casa da Vessada é o assunto do quinto capítulo. As três mulheres são as responsáveis pelo reerguimento da propriedade, urna vez que os rapazes têm muito do comportamento do pai.

A filha mais velha, Estina, casa-se por conveniência com Inácio Lucas e passa a viver não muito distante da família. Encontra-se com a mãe e a irmã periodicamente, quando vai ao mosteiro para assistir à missa.

Quina e a mãe, Maria passam a viver em aliança e, aos poucos, Quina toma a frente nos negócios da família. Daí para frente, Quina dedica-se a enriquecer materialmente e tornar-se, a cada dia, mais influente e respeitada na região.

No sexto capítulo, as mulheres continuam na rotina do trabalho, quando João anuncia que irá se casar. Maria não aprova a noiva escolhida pelo filho, recebendo-a mal, mesmo depois de casada.

Abel, o outro filho, vive em andanças pelo mundo afora, tentando fazer fortuna. De passagem pela casa da Vessada, peregrina pela comarca, fazendo visitas, reencontrando amigos, freqüentando casas de autoridades.

Quina o acompanha, convivendo pela primeira vez com a sociedade. Mesmo depois da partida de Abel, ela continua sendo recebida em algumas casas fidalgas, tomando-se mesmo confidente de algumas damas, entre elas, Elisa Aida, a condessa de Monteros.

O sétimo capítulo é dedicado à visita de Quina à casa de Elisa Aida. Esta a convidara após viver uma intriga romanesca, na qual o desfecho, que era um não casamento, fora previsto por Quina. É essa espécie de profecia concretizada que faz com que a condessa trate Quina como “a sibila”.

A casa da condessa é descrita com detalhes e a conversa entre as mulheres é variada. Ao sair da casa da condessa, Quina aproveita para visitar a irmã, Estina.

Uma parte da história de Estina é recordada. Esta tivera dois filhos que morreram já quase moços, devido à brutalidade do pai, e uma filha, que sofria de alucinações. Apesar dos maus-tratos do marido, não abandona a casa para não desonrar a família.

No oitavo capítulo, Quina será novamente o foco central. Fala-se sobre os pretendentes que a cobiçam, mesmo estando ela com quarenta anos; sobre as suas habilidades nos negócios, que fazem prosperar a casa da Vessada; sobre sua vaidade, não em relação aos atributos físicos, mas em relação à esperteza e à psicologia com que conquista sempre mais e mais espaço.

Há também, nesse capítulo, uma referência ao progresso da aldeia, com a chegada da energia elétrica, e outra, ao poder das rezas de Quina, que, com astúcia, impressionava as pessoas que a ouviam rezar.

O nono capítulo marca o encontro das três gerações da família Teixeira: Maria, Quina e Germa.

Inicia-se com o anúncio do nascimento de Germana, através de um cartão-postal trazido pelo carteiro. Narram-se, depois, algumas visitas que a pequena Germa faz à casa da Vessada.

A morte de Maria é contada no décimo capítulo. Germa é quem focaliza as personagens: a tia Estina, o tio Inácio Lucas, a tia Quina.

Neste capítulo, também ocorre o desaparecimento da filha “louca” de Estina e Inácio Lucas. Quina é chamada pela irmã para que reze pelo reencontro da sobrinha, porém é destratada pelo cunhado.

A “louca” só será encontrada no capítulo seguinte.

No décimo primeiro capítulo, a morte também é um tema constante. Primeiramente é a morte da filha de Estina, encontrada, um mês após seu desaparecimento, em um cenário medonho: o interior de uma mina abandonada, repleta de morcegos.

Depois vem a morte de Elisa Aida, que é descrita ressaltando-se os pormenores de sua vida teatral. Um escudeiro, que o povo suspeitava ser filho da condessa, ficou desamparado com sua morte e foi acolhido como empregado por Quina.

Finalmente, conta-se a morte de uma prostituta, com quem o escudeiro da condessa tivera um filho.

O próximo capítulo, décimo segundo, é dedicado a contar a decisão de Quina, já aos cinqüenta e oito anos: tomar conta do filho da prostituta.

Quina desenvolve grande afeição pelo menino de quatro anos, batizado por ela com o nome de Emilio, embora todos o chamassem de Custódio, que era a forma como as crianças eram designadas antes do batismo.

No décimo terceiro capítulo, reaparecem os irmãos Abel e João. O primeiro, após saber da adoção realizada pela irmã, preocupa-se com o destino da herança da família e vai visitar o irmão João, em busca de aliança contra Quina. Encontra o irmão envelhecido, pois não se viam há mais de dez anos, mas não consegue o apoio que procurava.

Nesse capítulo, aparecem ainda descrições do comportamento que Custódio adota perante sua benfeitora, Quina, e um perfil de Libória, empregada da casa da Vessada.

O capítulo décimo quarto narra o isolamento crescente de Quina.

Parte desse isolamento é devido ao envelhecimento natural e parte se deve à proteção dada a Custódio. Mesmo diante da indignação de parentes e conhecidos, ela aceita o comportamento degenerado de Custódio, que se envolve com o bandido Morte e pratica pequenos roubos.

Quina adoece no décimo quinto capítulo e é Libória quem dela cuida. Estina, a irmã, passa uma semana lhe fazendo companhia no auge da doença.

O ex-namorado, Adão, de quem Quina se tornou confidente, também vai visitá-la e aproveita para tocar no assunto do testamento.

Abel, o irmão, visita a irmã quando ela já está se restabelecendo e a convida para passar alguns dias em sua casa, na cidade, a fim de se tratar.

A visita de Quina à cidade, afastando-se da casa da Vessada pela primeira vez na vida, é o assunto narrado no capítulo décimo sexto. Durante essa visita, ela se hospeda na casa de Abel, mas aproveita para visitar também a casa da cunhada e do irmão João.

Três dias após sua chegada, Quina recebe uma carta de Libória, dizendo que Custódio adoecera. Quina retoma imediatamente à casa da Vessada, antes mesmo de saber os resultados de seus exames de saúde. Descrevem-se então os sentimentos de contentação de Quina ao rever Custódio.

No décimo sétimo capítulo, a saúde de Quina volta a fraquejar, desta vez, definitivamente. E quando Libória, a empregada, aproveita para agoniar Custódio, lembrando a ele que, após a morte de Quina, ficará desamparado.

Quina, por sua vez, revive na memória momentos da vida familiar: a mãe, os irmãos ainda jovens, o pai. Ao receber a visita do médico, ela se recorda da condessa de Monteros, de quem ele é descendente.

Custódio inquieta-se com o estado de saúde de sua benfeitora, chegando mesmo a perguntar a ela o que será dele após sua morte. Libória aumenta a perturbação de Custódio, contando casos de miseráveis e mendigos que perambulavam pelas ruas da aldeia.

No penúltimo capítulo, décimo oitavo, Custódio muda de comportamento, passando a agir com interesse e cuidados em relação à Quina e à propriedade da Vessada. Constantemente ele interroga Quina sobre sua situação após a morte dela. Essa insistência chega a irritá-la, embora sinta pena do rapaz.

 

Na noite em que Libória e Custódio estavam jogando cartas em outro cômodo da casa, Quina morre, sozinha em seu leito.

O último capítulo é uma retomada do primeiro, dando notícia dos acontecimentos ocorridos após a morte de Quina.

O funeral de Quina é narrado. Germa, filha de Abel, irmão que tinha sido registrado com sobrenome materno, é a única herdeira de Quina.

A Custódio coube o direito ao usufruto de duas propriedades que Quina adquiriu após a morte da mãe. No entanto, ele só partiu da casa da Vessada após ser expulso por Germa. Foi, então, trabalhar como empregado na propriedade dos herdeiros da condessa Monteros. Como se metesse em fofocas, foi despedido e, vendo-se sozinho novamente, suicidou-se.

Estina faleceu e seu marido, Inácio Lucas, casou-se com uma velha parenta.

A cena que encerra o livro é a mesma que o iniciou: a conversa de Germana com o primo Bernardo. O livro é encerrado com reticências, quando Germa questiona a personalidade da “sibila”.

Foco narrativo

O romance A Sibila apresenta uma estrutura bastante particular. Seu primeiro início é dado por uma fala da personagem Germa, durante diálogo que mantém com o primo Bernardo Sanches.

Fazendo uma retrospectiva do passado em busca de saber quem fora Quina, Germa abre caminho para o narrador propriamente dito. Este, um narrador onisciente de terceira pessoa, segue o ritmo da memória, evocando aqui e ali fatos e pensamentos que vão construindo o sentido da história da família Teixeira.

Ora o narrador demonstra saber tudo sobre os fatos ocorridos, pois antecipa notícias e conta episódios de um passado distante, ora ele delega às próprias personagens a tarefa de reconstruir a história e a própria personalidade de cada uma, através das inúmeras narrativas que fluem da memória individual ou coletiva.

Nesse entrelaçamento de narrativas, o diálogo inicial entre os primos funciona como um prólogo à matéria principal que será narrada.

Tempo

No romance A Sibila, o tempo da narrativa não acompanha o tempo cronológico. É a memória, com seus volteios e desvios característicos, que orienta o desenrolar da história de três gerações.

Apesar de uma estrutura aparentemente confusa, o tempo no romance pode ser recuperado indiretamente, como um quebra-cabeça, juntando-se as marcações temporais espalhadas ao longo do texto.

É no primeiro capítulo que se situam os dados mais relevantes para reconstruir a linha do tempo familiar: “por alturas de 1870” ocorreu o incêndio, “pouco depois da chegada de Maria”, que conheceu Francisco “com nove anos” e com ele se casou “onze anos depois”.

Em relação ao início do romance, Quina nascera “setenta e seis anos antes” e era a segunda filha que vingava “num matrimônio de sete anos”.

Todavia, o início da história da família tem que ser calculado com base em dados recortados ao longo dos diversos capítulos.

A reconstrução do tempo leva ao traçado da linha cronológica da família Teixeira em três gerações: um século. Essa linha cronológica também permite seguir algumas mudanças que ocorrem na mentalidade da própria sociedade portuguesa, principalmente no que diz respeito ao comportamento feminino. Maria e Estina são representantes de uma ordem social na qual as mulheres se submetem aos homens, mesmo quando têm condições morais e econômicas de superá-los. Quina é prenúncio de uma nova realidade, uma mulher que se responsabiliza pelo próprio sustento e não se submete às imposições oriundas da relação matrimonial. Germana representa o avanço, as mulheres de meados do século XX, a partir do qual a situação feminina caminha em direção à igualdade de direitos e deveres com os homens.

Espaço

O cenário de maior parte da narrativa d’A Sibila é a propriedade da família Teixeira, denominada casa da Vessada.

Tal propriedade está inserida no espaço rural de uma zona do Norte de Portugal.

A ambientação rústica e o clima rural vão ser reforçados durante todo o romance, com freqüentes referências ao modo de vida do lugar e uma série de recursos lingüísticos que incluem regionalismos, indumentárias, objetos, vegetação e crendices, típicos de um universo social determinado.

 É comum a referência à aldeia para marcar o centro geográfico da região, bem como a classificação de comarca, para se referir à área mais abrangente.

 As propriedades: casa da Vessada, palacete da Água Levada, casa de Morouços, casa de Folgozinho, casa do Freixo determinam não só espaços, como também características das personagens. Funcionam como sobrenomes na identificação de quem é quem.

 Personagens

 As principais personagens do romance A Sibila são os membros da família Teixeira, que podemos localizar na seguinte árvore genealógica: 

No interior do romance, há um intenso trânsito de personagens secundárias que têm suas histórias narradas apenas para caracterizar melhor as personagens principais. E o caso, por exemplo, de Isidra, cuja história de seus amores com Francisco Teixeira serve para reforçar o comportamento desregrado desse.

Há também personagens secundárias, que aparecem momentaneamente, sem mesmo ter nomes. Novamente possuem funções que contribuem para destacar características das principais figuras. São numerosas: abade, cocheiro, avô (de Isidra), carteiro, irmã (da seduzida pelos filhos do caseiro), marido (de Adriana), moço (a quem tardava a virilidade), pai (de Maria), prostituta, vendeiro, dentre muitas outras. De um modo geral, são denominadas por profissões ou pelo grau de parentesco com personagens nomeadas. É notável a presença de representantes de praticamente todos os estratos da sociedade portuguesa.

Destaca-se o descaso para com os membros agregados à família, Inácio Lucas e as mulheres de Abel e João. O primeiro ao menos é nomeado, apesar de ser praticamente ignorado pelas mulheres da família, inclusive por sua esposa. As outras duas não têm sequer seus nomes citados, tão diminuta é sua importância.

A descrição física das personagens é irrelevante, marcando apenas algumas características muito superficiais: as mulheres da família eram bonitas, Francisco era muito bonito. Quina era muito magra e Estina muito gorda. É a caracterização psicológica que vai estabelecer as relações que movem a trama do romance.

No plano das personagens principais, há que se destacar a oposição entre as masculinas e as femininas. Tal oposição favorece as personagens femininas, que são as verdadeiras guias da intriga, “Elas tinham habituado a contar apenas com o seu pulso, a serem sós, (...) Por isso o seu caráter não podia deixar de adquirir acentos viris, assim como as suas mãos tinham calos e nodosidades, como o seu espírito se abstinha de manifestações supérfluas. E a entranhada aversão pelo homem, pelo ser inútil e despótico, egoísta, cedendo aos vícios e a corrupção com uma facilidade fatalista, desenvolveu-se nelas cada vez com mais intensidade...”.

Germa é a última descendente viva. É ela quem alimenta, através da memória, a vida do clã familiar, do qual Maria é a iniciante. Nesse percurso de gerações, percebe-se o próprio desenvolvimento da sociedade portuguesa, através da transformação da mentalidade das personagens, sobretudo as femininas. Enquanto Maria, a avó, “Educara-se na sujeição e no trabalho”; Germa, a neta, reagia com hostilidade “àquele imposto de sujeição que o mundo lhe queria exigir, que as criaturas lhe pediam para prestar”.

Estina e Quina têm personalidades diferentes, que vão determinar destinos bastante diversos. Em vários momentos da narrativa elas se opõem. Primeiramente na forma de tratamento que recebiam da mãe, depois, no tipo de comportamento que adotaram para garantir a manutenção do patrimônio da família. Estina resolveu casar-se: “Casando, ela aumentava as possibilidades de um dia licitar sobre os bens (...)”, enquanto Quina optou por defender a casa da Vessada “com seu tato político a respeito de relações, negócios, contratos”, tomando-se conhecida e respeitada na região.

Revela-se em Estina uma mentalidade tradicionalista, acomodada, sem coragem de reagir às imposições do destino; seu caráter não evolui com o passar do tempo. Ela funciona como um espelho da própria mãe, pois ambas ao “recusar influências, encontravam a paz. Elas não precisavam do mundo, e viviam com uma plenitude inigualável”, resignando-se diante dos abusos cometidos por seus maridos e colaborando para a manutenção dos privilégios masculinos.

 Quina, por sua vez, reverteu a ordem vigente em seu tempo, com um caráter no qual imperavam a independência e a auto-suficiência. Buscou a realização de seus próprios anseios, não se sujeitando a ter a sobrevivência condicionada a um casamento. Pode-se dizer que ela tinha uma mentalidade progressista.

 Entre Germa e Quina há muitos pontos de identificação, bem como entre Estina e Maria. De certo modo, nesses pares, as primeiras repetem as atitudes das segundas. Germana dá seqüência ao espírito independente de Quina, enquanto Estina segue o comportamento de submissão da mãe, Maria.

 Quanto aos homens da família, vão ser destacados os traços de personalidade que fazem deles degeneradores do patrimônio familiar. João não era ambicioso, ao contrário de Abel, que acalentava ideais de riqueza, mas ambos herdaram do pai o gosto pelos amores dispersos e a pouca disposição para o trabalho: “Os homens tinham sido sempre fatais para a casa da Vesada. Francisco Teixeira, pródigo e desinteressado, contava como seu próprio pai entregava mais afoitamente a regência do lar a uma filha que tinha (...)”.

Os homens dispersam o patrimônio familiar, símbolo máximo da tradição, e as mulheres o recuperam. Nesse sentido, os elementos femininos se ligam à terra como fundamento da permanência, enquanto os homens representam a instabilidade, como filhos pródigos.

Dentre todas as personagens, a de maior destaque é, sem dúvida, Quina, cujo suposto atributo sobrenatural dá o título ao romance. Grande parte da narrativa busca caracterizá-la, a fim de responder à pergunta: quem fora Quina? - lançada no primeiro capítulo e retomada no capítulo final.

 É para destacar alguns atributos de Quina, por exemplo, sua capacidade de amar, que aparece o personagem Custódio, nos capítulos finais do livro. Esse personagem vem, praticamente redimir a sibila, pois ela dedica a este a afeição que tinha pelo pai, Francisco.

Outras personagens que ocupam espaços significativos na narrativa, como o ex-namorado Adão, a condessa Elisa Aida e a criada Libória, se relacionam diretamente com Quina, sendo por essa razão importantes elementos na caracterização desta protagonista.

É importante destacar que, no interior do romance, as relações entre as personagens são de grande valor para constituir a verossimilhança de cada uma. O problema das relações humanas e suas conseqüências para a formação do caráter dos indivíduos reforçam o entrelaçamento das personagens, realçando sobremaneira a perfeição da organização interna da obra.