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Vitorino Nemésio

 

O Cão Atómico

1.

Este cão tem folhas nas orelhas,
com quatro talos
mas o que este cão deveria ter era calos,
e só tem olhos e ossos
e morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
quase o diria meu irmão
parece gente!

2.

Este cão é redondo. Está deitado,
rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
mas perdeu a alcateia
como os homens perderam a razão,
que hoje serve de osso ao cão
escapou ao cogumelo nuclear,
e por isso se foi deitar.

 

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos

Segreguei-a de mim com paciência:

Fachada de marés, a sonho e lixos,

O horto e os muros só areia e ausência.

 

 

Minha casa sou eu e os meus caprichos.

O orgulho carregado de inocência

Se às vezes dá uma varanda, vence-a

O sal que os santos esboroou nos nichos.

 

 

E telhados de vidro, e escadarias

Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!

Lareira aberta ao vento, as salas frias.

 

 

A minha casa. . . Mas é outra a história:

Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,

Sentado numa pedra de memória.

(Poesia, 1935-1940)

 

Outro Testamento

Quando eu morrer deitem-me nu à cova

Como uma libra ou uma raiz,

Dêem a minha roupa a uma mulher nova

Para o amante que a não quis.

 

 

Façam coisas bonitas por minha alma:

Espalhem moedas, rosas, figos.

Dando-me terra dura e calma,

Cortem as unhas aos meus amigos.

 

 

Quando eu morrer mandem embora os lírios:

Vou nu, não quero que me vejam

Assim puro e conciso entre círios vergados.

As rosas sim; estão acostumadas

A bem cair no que desejam:

Sejam as rosas toleradas.

Mas não me levem os cravos ásperos e quentes

Que minha Mulher me trouxe:

Ficam para o seu cabelo de viúva,

Ali, em vez da minha mão;

Ali, naquela cara doce...

Ficam para irritar a turba

E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

 

 

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,

Acima da rampa,

Mandem um coveiro sério

Verificar, campa por campa

(Mas é batendo devagarinho

Só três pancadas em cada tampa,

E um só coveiro seguro chega),

Se os mortos têm licor de ausência

(Como nas pipas de uma adega

Se bate o tampo, a ver o vinho):

Se os mortos têm licor de ausência

Para bebermos de cova a cova,

Naturalmente, como quem prova

Da lavra da própria paciência.

 

 

Quando eu morrer. . .

Eu morro lá!

Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,

Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

 

 

Minha casa de sons com o morador na lua,

Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:

Minha morte civil será uma cena de rua;

Palavras, terras onde moro,

Nunca vos deixarei.

 

 

Mas quando eu morrer, só por geometria,

Largando a vertical, ferida do ar,

Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;

Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;

Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,

E levem-me - só horizonte - para o mar.