ORFEU SPAM APOSTILAS

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Miguel Torga

 

 

Brasil

 

Pátria de imigração.

É num poema que te posso ter...

A terra - possessiva inspiração;

E os rios - como versos a correr.

 

Achada na longínqua meninice,

Perdida na perdida juventude,

Guardei-te como podia:

na doce quietude

Da força represada da poesia.

 

E assim consigo ver-te

Como te sinto:

Na doirada moldura de lembrança,

O retrato da pura imensidade

A que dei a possível semelhança

Com palavras e rimas de saudade.

 

Orfeu Rebelde

 

Orfeu rebelde, canto como sou:

Canto como um possesso

Que na casca do tempo, a canivete,

Gravasse a fúria de cada momento;

Canto, a ver se o meu canto compromete

A eternidade no meu sofrimento.

 

Outros, felizes, sejam rouxinóis...

Eu ergo a voz assim, num desafio:

Que o céu e a terra, pedras conjugadas

Do moinho cruel que me tritura,

Saibam que ha' gritos como há nortadas,

Violências famintas de ternura.

 

Bicho instintivo que adivinha a morte

No corpo dum poeta que a recusa,

Canto como quem usa

Os versos em legitima defesa.

Canto, sem perguntar à Musa

Se o canto é de terror ou de beleza.

Guerra Civil

 

E' contra mim que luto

Não tenho outro inimigo.

O que penso

O que sinto

O que digo

E o que faço

E' que pede castigo

E desespera a lança no meu braço

 

Absurda aliança

De criança

E de adulto.

O que sou é um insulto

Ao que não sou

E combato esse vulto

Que à traição me invadiu e me ocupou

 

Infeliz com loucura e sem loucura,

Peco à vida outra vida, outra aventura,

Outro incerto destino.

Não me dou por vencido

Nem convencido

E agrido em mim o homem e o menino

 

Ariane

 

Ariane é um navio.

Tem mastros, velas e bandeira à proa,

E chegou num dia branco, frio,

A este rio Tejo de Lisboa.

 

Carregado de Sonho, fundeou

Dentro da claridade destas grades...

Cisne de todos, que se foi, voltou

Só para os olhos de quem tem saudades...

 

Foram duas fragatas ver quem era

Um tal milagre assim: era um navio

Que se balança ali à minha espera

Entre as gaivotas que se dão no rio.

 

Mas eu é que não pude ainda por meus passos

Sair desta prisão em corpo inteiro,

E levantar âncora, e cair nos braços

De Ariane, o veleiro.