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Manucure - Mário de Sá Carneiro

MANUCURE

Na sensação de estar polindo as minhas unhas,
Súbita sensação inexplicável de ternura,
Tudo me incluo em Mim – piedosamente.
Entanto eis-me sozinho no Café:
De manhã, como sempre, em bocejos amarelos.
De volta, as mesas apenas – ingratas
E duras, esquinadas na sua desgraciosidade
Bocal, quadrangular e livre-pensadora...
Fora: dia de Maio em luz
E sol – dia brutal, provinciano e democrático
Que os meus olhos delicados, refinados, esguios e citadinos
Nem podem tolerar – e apenas forcados
Suportam em náuseas. Toda a minha sensibilidade
Se ofende com este dia que há-de ter cantores
Entre os amigos com quem ando às vezes –
Trigueiros, naturais, de bigodes fartos –
Que escrevem, mas têm partido político
E assistem a congressos republicanos,
Vão às mulheres, gostam de vinho tinto,
De peros ou de sardinhas fritas...
E eu sempre na sensação de polir as minhas unhas
E de as pintar com um verniz parisiense,
Vou-me mais e mais enternecendo
Até chorar por Mim...
Mil cores no Ar, mil vibrações latejantes,
Brumosos planos desviados
Abatendo flechas, listas volúveis, discos flexíveis,
Chegam tenuamente a perfilar-me
Toda a ternura que eu pudera ter vivido,
Toda a grandeza que eu pudera ter sentido,
Todos os cenários que entretanto Fui...
Eis como, pouco a pouco, se me foca
A obsessão débil dum sorriso
Que espelhos vagos reflectiram...
Leve inflexão a sinusar...
Fino arrepio cristalizado...
Inatingível deslocamento...
Veloz faúlha atmosférica...

E tudo, tudo assim me é conduzido no espaço
Por inúmeras intersecções de planos
Múltiplos, livres, resvalantes.

É lá, no grande Espelho de fantasmas
Que ondula e se entregolfa todo o meu passado,
Se desmorona o meu presente,
E o meu futuro é já poeira...

Deponho então as minhas limas,
As minhas tesouras, os meus godets de verniz,
Os polidores da minha sensação –
E solto meus olhos a enlouquecerem de Ar!
Oh! poder exaurir tudo quanto nele se incrusta,
Varar a sua Beleza – sem suporte, enfim! –
Cantar o que ele revolve, e amolda, impregna,
Alastra e expande em vibrações:
Subtilizado, sucessivo – perpétuo ao Infinito!...

Que calotes suspensas entre ogivas de ruínas,
Que triângulos sólidos pelas naves partidos!
Que hélices atrás dum voo vertical!
Que esferas graciosas sucedendo a uma bola de ténis! –
Que loiras oscilações se ri a boca da jogadora...
Que grinaldas vermelhas, que leques, se a dançarina russa,
Meia nua, agita as mãos pintadas da Salomé
Num grande palco a Oiro!
– Que rendas outros bailados!

 no ar que ondeia tudo!  l que tudo existe!...

Ah! mas que inflexões de precipício, estridentes, cegantes,
Que vértices brutais a divergir, a ranger,
Se facas de apache se entrecruzam
Altas madrugadas frias...
E pelas estações e cais de embarque,
Os grandes caixotes acumulados,
As malas, os fardos – pêle-mêle...
Tudo inserto em Ar,
Afeiçoado por ele, separado por ele
Em múltiplos interstícios
Por onde eu sinto a minh'Alma a divagar!...

– Ó beleza futurista das mercadorias!

– Sarapilheira dos fardos,
Como eu quisera togar-me de Ti!
– Madeira dos caixotes,
Como eu ansiara cravar os dentes em Ti!
E os pregos, as cordas, os aros... –
Mas, acima de tudo,
Como bailam faiscantes,
A meus olhos audazes de beleza,
As inscrições de todos esses fardos –
Negras, vermelhas, azuis ou verdes –
Gritos de actual e Comércio & Indústria
Em trânsito cosmopolita:

FRÁGIL! FRÁGIL!

843 – AG LISBON

492 – WR MADRID

Ávido, em sucessão da nova Beleza atmosférica,
O meu olhar coleia sempre em frenesis de absorvê-la
À minha volta. E a que mágicas, e m verdade, tudo baldeado
Pelo grande fluido insidioso,
Se volve, de grotesco – célere,
Imponderável, esbelto, leviano...
– Olha as mesas... Eia! Eia!
Lá vão todas no Ar às cabriolas,

Em séries instantâneas de quadrados
Ali – mas já, mais longe, em losangos desviados...
E entregolfam-se as filas indestrinçavelmente,
E misturam-se às mesas as insinuações berrantes
Das bancadas de veludo vermelho
Que, ladeando-o, correm todo o Café...
E, mais alto, em planos oblíquos,
Simbolismos aéreos de heráldicas ténues
Deslumbra m os xadrezes dos fundos de palhinha
Das cadeiras que, estremunhadas em seu sono horizontal,
Vá lá, se erguem também na sarabanda...

Meus olhos ungidos de Novo,
Sim! – meus olhos futuristas, meus olhos cubistas, meus olhos interseccionistas,
Não param de fremir, de sorver e faiscar
Toda a beleza espectral, transferida, sucedânea,
Toda essa Beleza-sem-Suporte,
Desconjuntada, emersa, variável sempre
E livre – em mutações contínuas,
Em insondáveis divergências...
– Quanto à minha chávena banal de porcelana?

Ah, essa esgota-se em curvas gregas de ânfora,
Ascende num vértice de espiras
Que o seu rebordo frisado a oiro emite...

...Dos longos vidros polidos que deitam sobre a rua,
Agora, chegam teorias de vértices hialinos
A latejar cristalizações nevoadas e difusas.
Como um raio de sol atravessa a vitrine maior,
Bailam no espaço a tingi-lo em fantasias,
Laços, grifos, setas, ases – na poeira multicolor –.

                                                    Apoteose

....................................................................

Junto de mim ressoa um timbre:

Laivos sonoros!

Era o que faltava na paisagem...

As ondas acústicas ainda mais a sutilizam:

Lá vão! Lá vão! Lá correm ágeis,

Lá se esgueiram gentis, franzinas corças de Alma...

 

Pede uma voz um número ao telefone:

Norte - 2, 0, 5, 7...

E no Ar eis que se cravam moldes de algarismos:

                Assunção da Beleza Numérica

 

 

Mais longe um criado deixa cair uma bandeja...

Não tem fim a maravilha!

Um novo turbilhão de ondas prateadas

Se alarga em ecos circulares, rútilos, farfalhantes

Como água fria a salpicar e a refrescar o ambiente...

 

 

-Meus olhos extenuaram de Beleza!

 

 

Inefável devaneio penumbroso-

Descem-me as pálpebras vislumbradamente...

.........................................................................

 

 

...Começam-me a lembrar anéis de jade

De certas mãos que um dia possuí-

E ei-los, de sortilégio, já enroscando o Ar...

Lembram-me beijos -e sobem

Marchetações a carmim...

 

 

Divergem hélices lantejoulares...

Abrem-se cristas, fendem-se gumes...

Pequenos timbres de ouro se enclavinham...

Alçam-se espiras, travam-se cruzetas...

Quebram-se estrelas, soçobram plumas...

 

 

Dorido, para roubar meus olhos à riqueza,

Fincadamente os cerro...

 

 

Embalde! Não há defesa:

Zurzem-se planos a meus ouvidos, em catadupas,

Durante a escuridão -

Planos, intervalos, quebras, saltos, declives...

 

 

- Ó mágica teatral da atmosfera,

- Ó mágica contemporânea - pois só nós,

Os de Hoje, te dobramos e fremimos!

.............................................................

 

 

Eia! Eia!

Singra o tropel das vibrações

Como nunca a esgotar-se em ritmos iriados!

Eu próprio sinto-me ir transmitindo pelo ar, aos novelos!

Eia! Eia! Eia!...

 

 

(Como tudo é diferente

Irrealizado a gás:

De livres-pensadores, as mesas fluídicas,

Diluídas,

São já como eu católicas, e são como eu monárquicas!...)

 

 

......................................................................

......................................................................

 

 

Sereno,

Em minha face assenta-se um estrangeiro

Que desdobra o Matin.

Meus olhos, já tranqüilos de espaço,

Ei-los que, ao entrever de longe os caracteres,

Começam a vibrar

Toda a nova sensibilidade tipográfica.

 

 

Eh-lá! Grosso normando das manchettes em sensação!

Itálico afilado das crônicas diárias!

Corpo 12 romano, instalado, burguês e confortável!

Góticos, cursivos, rondas, inglesas, capitais!

Tipo miudinho dos pequenos anúncios!

Meu elzevir de curvas pederastas!...

E os ornamentos tipográficos, as vinhetas,

As grossas tarjas negras,

Os puzzles frívolos - e as aspas... os acentos...

Eh-lá! Eh-lá! Eh-lá!

 

 - Abecedários antigos e modernos,

Gregos, góticos,

Eslavos, árabes, latinos -,

Eia-hô! Eia-hô! Eia-hô!...

 

(Hip! Hip-lá! Nova simpatia onomatopaica,

Recendente da beleza alfabética pura:

Uu-um... kess-kress... vliiim... tlin... blong… flong… flak…

Pâ-am-pam! Pam... pam... pum... pum... Hurrah!)

 

Mas o estrangeiro vira a página,

Lê os telegramas da Última-Hora,

Tão leve como a folha do jornal,

Num rodopio de letras,

Todo o mundo repousa em suas mãos!

 

-Hurrah! Por vós, indústria tipográfica!

-Hurrah! Por vós, empresas jornalísticas!

 

 

....................................................................................

....................................................................................

 

Tudo isto, porém, tudo isto, de novo eu refiro ao Ar

Pois toda esta Beleza ondeia lá também:

Números e letras, firmas e cartazes -

Altos-relevos, ornamentação!... -

Palavras em liberdade, sons sem-fio,

 

 

Marinetti + Picasso = Paris <Santa Rita Pin-

Tor + Fernando Pessoa

Álvaro de Campos

!!!!

 

 

Antes de me erguer lembra-me ainda,

A maravilha parisiense dos balcões de zinco,

Nos bares... não sei porquê...

 

-Un vermouth-cassis... Un Pernod à l’eau...

Un amer-citron... une grenadine…

 

………………………………………………..

………………………………………………..

…………………………………………………

 

Levanto-me…

-Derrota!

Ao fundo, em mayor excesso, há espelhos que refletem

Tudo quanto oscila pelo Ar:

Mais belo através deles,

A mais sutil destaque...

-Ó sonho desprendido, ó luar errado,

Nunca em meus versos poderei cantar,

Como ansiara, até ao espasmo e ao Oiro,

Essa beleza pura!

 

Rolo de mim por uma escada abaixo...

Minhas mãos aperreio,

Esqueço-me de todo da idéia de que as pintava...

E os dentes a ranger, os olhos desviados,

Sem chapéu, como um possesso:

Decido-me!

Corro então para a rua aos pinotes e aos gritos:

 

-Hilá! Hilá! Hilá-hô! Eh! Eh!...

 

Tum... tum... tum... tum tum tum tum...

 

 

9; Vliiimiiiim...

 

 

Brá-ôh... Brá-ôh... Brá-ôh!...

 

Futsch! Futsch!...

 

 

Zing-tang... zing-tang...

              Tang... tang... tang...

 

 

9;     Pra á K K!...

 

Poemas Dispersos, Lisboa – Maio de 1915